“Não se turbe o vosso coração. Há
muitas moradas na casa de meu Pai”.
(S. JOÃO, 14:1 a 3.)
Deim. Aquarela. Barraca do Ted na ilha Quero-Quero.
PÓRTICO
Este não é um convite para você ler um livro. Pelo
contrário, é um convite para você escrever um livro. Um livro sobre você e suas
moradas.
Já pensou nisso?
Então comece já.
Escreva sobre a sua vida.
Ela é tão comum como muitas outras vidas, mas ninguém
tem uma história igual. As pessoas não
precisam saber da sua história, mas você precisa, porque provavelmente você não
sabe muitas coisas que aconteceram, coisas que aparentemente são banais, mas
não são, e você as desconhece. Desconhece porque não se lembra.
Você sabe dizer, por exemplo, em quantos lugares já
viveu, em quantas casas já morou, quantas mudanças já fez? Sabe quais foram as pessoas mais importantes e
influentes na sua vida? Quais as qualidades e defeitos delas?
Para responder essas perguntas você precisa lembrar e
escrever, exatamente porque você passou esse tempo todo morando em algum lugar.
Se souber isso, você vai entender muitas coisas importantes sobre você.
Nesses lugares aconteceram muitas coisas que talvez
você não lembre em detalhes, mas que foram crises que transformaram
gradualmente a sua vida.
Este livro é a história de tudo isso, de coisas banais,
como morar, mudar e sobre como as coisas vão mudando. É a história da vida, das crises que
aconteceram e de como conseguimos passar por elas, mesmo não prestando muita
atenção.
Quando você terminar de ler este livro o seu também já
vai estar escrito.
Todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já viu aquela micro cena
das formigas se encontrando e se reconhecendo rapidamente durante seus
percursos de trabalho. E todos perguntam, o que é que elas falam uma para outra? Ou é
apenas um mero sinal de continuidade da tarefa?
Uma coisa ou outra, o
que ninguém duvida é que elas moram em lugares que são tão perigos e incertos como as nossas
casas e estão sempre em busca de coisas para matar a fome. E tomam os cuidados
que deveríamos tomar para construir, manter e proteger a casa onde moram.
I
MUDANÇAS
Já morei em 10 apartamentos num período de 35 anos; e 14
casas, entre 1961 e 2020. Tudo isso
aconteceu em cinco cidades, num período de 60 anos. Somando o período anterior,
dos meus pais e avós, temos 100 anos de coisas para contar, sobre nós, sobre o
nosso País e também os acontecimentos que mudaram o mundo.
Os intervalos nos quais ocorrem as mudanças foram períodos
vividos com inquietação, a mesma pressa pela qual passam os pássaros ao terem
mudar e refazer seus ninhos.
E fico imaginando porque tem que ser assim.
Porque precisamos mudar?
Será porque temos que sofrer mudanças íntimas provocadas
pelas situações que nos forçam a mudar de lugar?
É bem provável.
Em cada mudança sempre acontece outra mudança.
Nos filmes do Mazaropi sempre tem cenas de mudanças para
relatar o sofrimento dos personagens ao ter que deixar um lugar e amargar a angústia do incerto.
Numa canção do disco Circo Místico, do Edu Lobo e do Chico
Buarque, as mudanças dos atores circenses são definidas como “arte de deixar
algum lugar quando não se tem pra onde ir”.
Deim.
Aquarela. Quiosques, vestiário e
passarela de desfile no antigo Parque Figueiral.
II
NASCENTE E POENTE
Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje
estou vivendo em São Vicente, na região metropolitana de Santos. Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e
1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de
1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS,
cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei
para São Vicente em 2001.
Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas
logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças.
Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada
no século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX?
O que poderia ter em comum essas duas localidades tão
distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de
diferença?
Tudo a ver.
Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e
também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do
Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários
lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no
litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no
Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É
possível que tenha morrido algum pirangueiro no Word Trade Center. No Japão
também tem epitacianos, é claro!
Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo
muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e
impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde
dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os
quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente
procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo
verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que
acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem
realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças
na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos
realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se
constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e
circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que
nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda.
Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também
aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral.
Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou
parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai
sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o
sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última
existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em
Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito
certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver
longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que
estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da
memória sentimental.
O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores
e ventos diversos e opostos. O poente e o nascente repercutem de forma
diferente no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes
que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para
um ou para o outro lado, para o sertão ou para o mar.
III
MEMÓRIA
Lembranças funcionam como um filme na cabeça da gente.
Parece uma sucessão de quadros, como no cinema. Isso acontece a todo instante,
mas de forma mais apurada quando estamos sós, pensando na vida. Muitas vezes
esse estímulo vem de pessoas, de situações ou de objetos que nos remetem
automaticamente ao passado. Vi numa foto a primeira casa em que morei. Era de
madeira, tinha uma varanda enorme, dessas em que as pessoas ficam conversando
despreocupadamente. Essa casa ficava na Belo Horizonte, em direção ao cemitério
velho. Nessa foto estou no colo da minha “Madinha Manoela” (Manoela Borges),
que não era parente do nosso sangue, mas tinha um vínculo espiritual muito
forte com todos nós. Ela adotou e criou minha avó, retirante do sertão baiano;
adotou e criou minha mãe e praticamente meus quatro irmãos. O meu irmão caçula,
adotado de uma família ribeirinha do Porto XV, chegou para passar alguns dias
em nossa casa, enquanto a mãe dele se recuperava de uma grave infecção no
hospital. Por causa do destino, ficou para sempre, após o falecimento da mesma.
Anos depois, uma tia nossa com dons mediúnicos, observando essa criança,
identificou nela a figura do pai de dona Manoela Borges, reencarnado. Quando os
meus avôs chegaram ao Porto Tibiriçá, vindos ainda jovens do Rio de Janeiro e
da Bahia, também receberam de Dona Manoela abrigo e proteção. Dessa casa não
lembro quase nada. Minha primeira lembrança vem da casa em Tibiriçá.
Nossa casa em Tibiriçá foi uma espécie de presente de
casamento para os meus pais, dado pelo Tenente Gilberto, interventor militar do
Distrito de Tibiriçá e que se tornou muito amigo da nossa família. O tenente
era do tipo bonachão, sempre muito simpático e dele todos guardam boas
lembranças por causa do seu gosto por festas populares, sobretudo as da época
junina, quando mandava construir uma grande fogueira próxima ao mastro da
bandeira. Construída a partir de 1954, a
nossa casa, na verdade da Bacia, era uma das poucas construídas em alvenaria.
Tinha cômodos grandes e um quintal espetacular, sem luxo, mas enorme, cheio de
árvores frutíferas e ornamentais e de muitas possibilidades para fantasias de
criança. A varanda em “L” revestida de ladrilho ocre, muito usado nos anos 60,
servia para refrescar o corpo nos meses de calor.
Em frente de casa tinha um enorme campo de futebol, rodeado
de árvores de cedro. Apanhei muito da minha mãe, nas pernas, com uma varinha
seca que se acumulava debaixo dessas árvores. Embaixo de alguns desses cedros
também tinham bancos feitos de madeira. Na esquina próxima tinha um que era o
mais frequentado da vila, até altas horas da madrugada e por isso era chamado
de “Banco do Pecado”.
Do outro lado do campo tinha algumas casas e um clube, onde
funcionavam o serviço de autofalante, o salão de bailes e o cinema, este último
sob a gerência do meu avô Carlos dos Santos.
Do período em que moramos nessa casa de Tibiriçá lembro de
algumas coisas marcantes. Minha mãe chorando na varanda ao receber a notícia de
que um tio nosso tinha tentado suicídio com um tiro na cabeça. A bala ficou
alojada num dos ouvidos. Quando esse tio vinha em casa me deixava impressionado
ao vê-lo, durante as refeições, mastigar vagarosamente para não sofrer a dor
causada pelo projétil. Essa tentativa de
suicídio, bem como outros casos consumados, teria uma repercussão ainda maior
em nossas vidas, eu e minha mãe, nos deixando muito impressionados, servindo
para nos aproximar de um grupo de pessoas que, desde1961, realizava um trabalho
voluntário de prevenção do suicídio em São Paulo.
Outra cena marcante na época de Tibiriçá, na margem do rio,
próximo a Bomba D´água, foi a chegada dos corpos de três funcionários da Bacia
(Júlio César, e os irmãos Ênio e Fortunato) que morreram afogados durante um
temporal noturno, quando pescavam. Júlio era paraguaio, casado com a tia Ester,
irmã do meu pai.
Fui uma criança portadora de sonambulismo, cujas crises de
febre emocional eram constantes e me faziam, tarde da noite, sentar na janela e
denunciar para minha mãe a presença de “pessoas” andando no campo. Eram também
os primeiros sinais da mediunidade. Moramos em Tibiriçá até 1967, período no
qual a Bacia do Prata estava encerrando suas atividades e seu patrimônio sendo
sucateado. Os moradores da Vila Tibiriçá, que poderiam por direto ter permanecido
em seus lares, foram sendo pressionados a deixar as casas. O corte de energia e
água, bem como ameaças indiretas foram algumas dessas formas de pressão,
certamente estimuladas por alguns políticos e comerciantes de Epitácio
interessados na rápida desmontagem do Distrito. O regime militar contribuiu
também para que esse processo de desocupação da vila ocorresse de forma
criminosa e impune. Os antigos moradores, a maioria gente simples e
despolitizada, não tinha meios de reagir e se defender contra esses abusos,
pois temiam represálias por parte dos poderosos.
Entre 1968 e 1970, já estávamos residindo em Epitácio,
primeiro na Rua Maceió, em frente a um enorme terreno baldio no qual mais tarde
seria construído o prédio dos Correios. Depois, na Rua Cuiabá, tivemos como
vizinho até 1973 o Sr. Rogério Pelegrini, imigrante italiano e ex-colono da
Fazenda Santa Cruzinha, antiga propriedade da família de Rachid Murad. Essa
fazenda mais tarde foi dividida entre os arrendatários e antigos funcionários
que tornaram-se sitiantes, muitos deles vindos de Cafelândia e foram os
primeiros fornecedores da primitiva feira de Epitácio. Com muitos descendentes
na cidade, seu Rogério vivia uma velhice simples e era para nós um forte
exemplo de persistência e sabedoria.
Viúvo, se mantinha ocupado cultivando uma horta e mudas de café; fumava
curiosos cigarros de palha, cujo cheiro se espalhava por toda a vizinhança. Ele
sempre contava para minha mãe que, ao ficar viúvo e com muitos filhos pequenos,
recebia a ajuda do espírito da própria esposa para cuidar da casa.
Deim. Aquarela. Travessia no rio Paraná, da ilha Tibiriçá
para o Porto Tibiriçá.
IV
CAVERNAS
Dizem que os apartamentos são cavernas modernas,
confortáveis, privativas e seguras. Não é nada disso. São apenas pequenos
espaços comercializados por metro quadro e que dão a falsa impressão do que
deveria ser uma moradia urbana.
Entramos num apartamento, adquirido ou alugado, com a mesma
sensação de incerteza de quando entrávamos nas cavernas paleolíticas em busca
de abrigo, calor, frescor e um pouco de paz na hora de comer e de dormir. Antes do repouso olhávamos para o
fogo e nele nos fixávamos tentando desvendar o mistério daquelas chamas
vermelhas que consumiam os pedaços de madeira.
Hoje colocamos os olhos na televisão, num computador ou num
celular. Quando vence o contrato mudamos de caverna e só percebemos que ali não
há mais nada a fazer e que na verdade somos nômades em busca de novos
apartamentos.
Meu último vizinho, que vi chegar e também partir, encontrou um jeito bem humano de trocar de
ninho: ele fica três meses morando normalmente e depois permanece vários meses
sem pagar e sai só antes de ser despejado. E assim vai morando com o dinheiro
que ficou devendo. Empurrando a vida.
Ao ouvir essa história fiquei indignado e concordei com o
porteiro que o chamou de safado e enrolão. Esse vizinho me cercou várias vezes
para pedir dinheiro emprestado. Nunca emprestei porque sabia que não pagaria.
Ia perder o dinheiro. Fui firme, de coração partido, mas não cedi. Sempre que conto essa história do vizinho, já
faço esperando a reação seca sobre o caso: “É complicado”! O vizinho enrolão e desonesto é aposentado,
pescador, tem um filha problemática e deslumbrada. Quando o conheci ele disse
que uma vez viu Nossa Senhora da
Aparecida aconselhando ele a não ir procurar um certo tesouro indicado por uma
alma perdida. É um homem rústico. Vieram do Vale do Ribeira, zona rural antiga
do litoral paulista, quase na divisa com o Paraná. Dei a ele o apelido de Mazaropi. “É parecido mesmo”, reagiu rindo o porteiro.
Tenho dó deles. São pessoas de caráter fraco e se acostumaram com a vida
errante, penso julgando, como se levasse uma vida inteiramente acertante. Já
encontrei os dois no supermercado depois que mudaram (de apartamento), em dias
diferentes; ele procurando alguma coisa ou alguém e a moça perguntando ao
repositor se o vinho que tinha em mãos era de boa qualidade. Descobri, pelo
porteiro, para onde tinham mudado quem seria a próxima vitima do golpe deles.
Ele apontou até a janela e o andar. E fiquei olhando para o prédio pensando e
chegando à conclusão que eles apenas descobriram um jeito de viver sem sofrer,
mesmo causando aborrecimento para os outros. É claro que também pensei na
possibilidade de numa outra vida eles terem sido proprietários cruéis com seus
inquilinos, estando agora na condição de choque de retorno, ainda com a
agravante dessas quedas, mas que terão de enfrentar a fase de arrependimento e
depois reparação, segundo a lei moral de causa e efeito que atualmente se bate
sobre mim, com alguns agravantes.
Mas não é somente os inquilinos que passam por crises.
Atualmente os leilões de casas e apartamentos estão em superoferta na internet.
Escritórios de advocacia anunciam as facilidades para a desocupação desses
imóveis, tentando tranquilizar os compradores, futuros moradores ou apenas
investidores. Muitos, como eu, pensam: Não vou ser feliz contribuindo com a
infelicidade dos outros. Claro que não tem nada a ver, do ponto de vista
racional. Mas nesses casos, incrível, a gente automaticamente se coloca no
lugar de quem está perdendo o imóvel, mesmo que ele não esteja sofrendo ou que
realmente necessite vendê-lo dessa forma.
As ofertas de financiamentos continuam a todo vapor, com
todas as vantagens e riscos previsíveis que a maioria prefere não enxergar,
para não estragar os sonhos. Também as ofertas de consórcio ainda estão em
voga, a que os especialistas afirmam ser um jogo de fantasia no qual você paga
para alguém guardar o seu dinheiro durante um longo tempo, dinheiro que poderia
estar rendendo muito mais em outros investimentos. Questão de mentalidade. O
Consórcio seria então, nesse modo de ver, um colchão confiável e alugado.
Tem também os loteamentos em lugares distantes, feitos a
partir do retalhamento de fazendas no interior, um sonho de consumo para quem
vive enclausurado em apartamentos nas grandes cidades. Essa opção está na mesma
categoria das chácaras: duas alegrias, uma quando compra e outra quando vende.
Só que esses lotes são muito difíceis de revender, pois quem compra quer
comprar o próprio sonho e não o sonho do outros.
Mas existem também outras possibilidades que a razão não
explica, a não ser quando não acreditamos nelas.
Nosso prédio está próximo mar e foi construído na década de
1970 pra atrais turistas paulistanos. Antes da construção havia no terreno uma
imensa mansão para temporadas, muito comum na vizinhança nos anos 1920, quando
São Vicente era o balneário e moradia dos milionários do café e da indústria
paulista nascente. Aqui também moravam os mais ricos operadores do mercado
portuário, geralmente europeus. Santos era considerada uma cidade perigosa para
morar, por ser muito exposta a doenças vindas do exterior. As fotos antigas do
bairro, onde proliferaram prédios de
apartamentos, era um jardim plano de moradias e ruas arborizadas. Nosso prédio é ocupado por uma maioria de
idosos e uma minoria de jovens de mai idade que ainda não se convenceram da
terceira etapa do ciclo da vida. Não repararam que somos um condomínio de
passagem para outra dimensão, sob a vigília rigorosa do Comandante dos Oceanos,
que intuiu o construtor a colocar seu
nome nessa morada transitória. O porteiro sabe o que isso significa e me disse que
sua missão é vigiar a rotina dos velhinhos, sobretudo os que moram sozinhos. É
só desaparecer um morador que ele ativa o interfone e, se este não responde,
vai até o apartamento verificar o que está acontecendo. Se não responde ele usa
a chave-reserva e entra chamando pelo
morador. Quando geralmente isso acontece é porque o mesmo faleceu ou então está
em agonia. Da última vez foi o meu vizinho, um senhor que tocava teclado e
conversava sozinho ( ou com alguém da família que já havia partido antes dele).
Sempre a mesma música, com falhas de notas e interrupções. Na minha lembrança,
a melodia era um conhecido hino de procissão, de Ave Maria, que os pecadores
transpuseram para os seus vícios mundanos: “Dona Maria, que bicho que deu? Deu
bicho gozado, a senhora perdeu, ave, ave , avestruz”. Naquele fim de semana o
som do teclado não soou pelos corredores. Alguém avisou o porteiro e ele
respondeu que estava desconfiado de algo grave. O tecladista teve convulsões e
depois e, dois dias depois, foi levado ao hospital e lá veio a falecer. O
apartamento que ele morava seria dias mais tarde ocupado pelo pescador enrolão.
Esse porteiro, servo
fiel de Netuno, tem sido atuante e
prestativo na sua tarefa. Ele confirmou
essa história que eu já sabia e que também ocorreu de forma semelhante em outro
edifício do bairro, com pessoas conhecidas.
Vagou um apartamento no décimo andar, que logo foi ocupado
por jovem mãe e seu filho. Um sala-living modesto, porém espaçoso como todos os
demais nos outros andares. Tempos depois veio morar com eles o irmão da jovem,
recém chegado do nordeste. Ela e técnica em contabilidade e ele vendedor das
Casas Pernambucanas. Foram vivendo meio apertados até que a jovem resolveu se
mudar com o filho, para deixar o irmão mais à vontade com as namoradas. Foi morar num apartamento maior no prédio
vizinho. O rapaz, feliz da vida, ali ficou por mais de um ano até que um certo
dia recebeu uma carta da administradora solicitando sua presença no escritório.
Chegando lá, preocupado e pensando ter que deixar o imóvel por conta de alguma
reclamação grave, teve a grata surpresa que tornou sua vida um pouco mais feliz
do que vinha sendo naqueles primeiros meses de mudança da sua terra natal. O
proprietário do apartamento havia falecido em Portugal sem deixar herdeiros e,
como todas as suas contas estavam em dia, ele seria o novo dono do imóvel. A
história do outro apartamento foi idêntica: morador português, morto, sem
herdeiros. A diferença é que as contas estavam todas pendentes, exceto o
aluguel. IPTU e condomínio não eram pagos há mais de um ano. Mesmo assim,
conseguiram ficar com o apartamento, ajustando as contas com empréstimos
consignados.
“Como isso é possível”, perguntou alguém que conhecia os
dois casos, querendo saber de mim a explicação espírita sobre esse estranho
fenômeno. Respondi prontamente: são credores, diretos ou indiretos, recebendo
de volta o que a Justiça Divina considera últil e necessário. E cantarolei a música
do Mogli,do desenho do Disney: “Necessário,
somente o necessário. O extraordinário é demais”
Todos felizes e satisfeitos. Menos a subsíndica da nossa
morada vertical. Inconformada com o lance de sorte do rapaz, ela desconfiou que
havia algo errado nessa história. Detetive nata, apesar dos seus mais de 70
anos, fez de tudo para descobrir a
verdadeira origem desse estranho caso. A desconfiança aumentou quando todos
souberam que a administradora era um senhora portuguesa muito conhecida no
centro da cidade e que cuida de imóveis dos patrícios que retornaram para a Europa.
Mas a proprietária do apartamento do rapaz não era
portuguesa e não voltou para Portugal.
“Rá, aí tem coisa”, dizia a subsíndica em voz alta quando
passava pela portaria e questionada pelos funcionários do prédio sobre o que
realmente havia acontecido.
A investigação foi feita em todas as fases previstas e sem
nenhuma possibilidade de refutação. Ela descobriu onde morava a proprietária
falecida, viajou para o interior do
estado, por sua conta, e levantou todos os dados de que precisava.
A expectativa no prédio era intensa, sobretudo na assembleia
de aposentados que se reúne todas as tardes no hall, antes da novela das seis.
Um burburinho medonho.
Dessa vez quem deu a noticia oficial foi a própria síndica,
pois a “sub” não teve coragem de aparecer para dar o seu testemunho chocante.
E desferiu, a seco, o
resultado oficial do inquérito: a proprietária realmente havia falecido,
segundo informações do cartório da
cidade onde residia e não deixou herdeiros nem dívidas; o rapaz é dono do apartamento e disse que vai
continuar morando no edifício.
Após alguns segundos de espanto e silêncio, explodiram
algumas gargalhadas e comentários impublicáveis.
Já pensei em mudar várias vezes do prédio, mas sempre
desisto quando lembro dessa história.
Vai quê...
Deim. Aquarala. Paisagem do Rio Paraná. Ilha do seu Joca.
V
CASA DOS SONHOS
Ultimamente tenho sonhado muito com casas. Mas não é sonho
de sono e sim com os olhos abertos. O isolamento de 40 dias, por causa da
pandemia do corona virus, provocou em mim o desejo de morar em lugares amplos,
abertos, próximos da natureza. Estou a apenas 80 metros do mar e, no
entanto, isso não é satisfatório. Quero
estar na serra do mar e não apenas perto do mar. Enjoei do mar. Me parece
monótono, embora tenha um horizonte incomparável, diferente das montanhas,
porque é plano e te obriga a imaginar as coisas com muito mais precisão e
detalhes. É por isso que nas crises as pessoas gostam de ver o mar, para
preencher a mente com outras preocupações mais suaves e aliviar as mais duras e
persistentes. Outros preferem as montanhas ou as planícies. Questão de temperamento.
No litoral há muitas casas disponíveis, milhares delas. Casas e apartamentos de
temporadas de verão e que em outras estações, na maior parte do ano, ficam
fechadas. Bairros inteiros ficam em silêncio e solidão, sobretudo no inverno.
Muitos quilômetros de praias desertas, uma paisagem atraente à primeira vista,
mas depois assustadora com o passar do tempo. Trabalhei numa escola que fica em
frente ao mar, num desses bairros distantes e isolados do litoral sul. Nos anos
que ali fiquei percebi que algumas casas nunca estavam abertas. Cheguei a
entrar em algumas delas, com a ajuda de uma das nossas alunas de suplência, que
fazia faxina e cuidava de algumas propriedades. De vez em quando, geralmente
nas horas de almoço, ela deixava a gente dar uma olhada pra matar a
curiosidade. A que mais me impressionou
foi a que ficava bem em frente da escola. Uma construção típica e comum dos
anos 1970, ampla, isolada no terreno, com jardim frontal e quintal nos fundos.
Varanda e garagem lateral. O interior parecia um cenário perfeito para um filme
de época, tudo original, cortinas, sofás, tapetes, móveis, tudo com cores e
estampas extravagantes, com tons de vermelho e laranja. Mistura de era espacial
e mundo hippie. Interessante que,
diferente da outras, tinha uma vibração gostosa e não lembrava nada de tristeza
e preocupações. Quem fez essa casa passou ali momentos de alegria e
descontração. Deve estar lá até hoje, intacta, ainda com os lustres de vidro e
lâmpadas transparentes. Ninguém vende, ninguém compra, ninguém entra, a não ser
alguns ladrões casuais que já conhecem todas as casas do bairro; e alguns
curiosos que colocam risco o emprego das faxineiras e zeladoras.
Nessa escola nós fizemos uma coisa diferente, que agradou
muito os pouquíssimos moradores do bairro. Havia um professor de matemática que
era terrivelmente ruim na sua função. Ele sabia disso e certa vez confessou o
principal motivo, segundo ele. “Eu tenho cara de palhaço e os alunos não me
respeitam”, disse conformado e triste. E tinha mesmo. Uma cara de palhaço sem
pintura no rosto, misto de alegria e melancolia. Fiquei pensando durante a
semana toda sobre como era vida daquele professor. Algum tempo depois,
arrancando com a enxada algumas moitas de mato que haviam crescido muito rente
aos muros, descobri que o professor tinha talento para outras
coisas. Vendo a minha dificuldade com a enxada, ele sugeriu que a escola
comprasse um mata-mato, veneno que as fábricas químicas chamam comercialmente
de defensivo. “É tiro e queda”, disse
ele empolgado. E justificou: “Eu sou formado em técnico agrícola”. O
merendeiro, que nos escutava, lembrou que a escola já tinha tido uma pequena
horta há alguns anos, para uso próprio. Propus então que reativássemos a horta,
agora maior e mais diversificada. Os olhos do professor brilharam. Compraríamos
as sementes e alguns suplementos agrícolas para correção e adubação do solo. “É
muito ácido, mas tem jeito” e topou fazer o trabalho voluntário. Lição na
lousa, tudo normal, classe calma, enquanto alguns alunos mais inquietos e
fisicamente ativos ajudavam na construção dos canteiros. Não deu outra: a horta
vingou, linda, parecia uma plantação japonesa, tal o capricho e a força
produtiva, com todos os temperos e legumes possíveis. Quando começou a crescer,
o professor me fez outra confissão: contou que tinha abandonado a profissão de
técnico agrícola porque certa vez
estragou um serviço que fez o patrão perder
uma lavoura inteira, por causa de um erro de cálculo dos suplementos. Teve que
fugir para não ser humilhado pelos colegas. Pensou até em se matar. Morava no
interior e foi assim que decidiu vir morar na praia. Fiquei muito preocupado
com a horta. Será que ele acertou os cálculos dessa vez? O investimento foi
alto. Todo mundo na expectativa. Não falei absolutamente nada sobre isso com
ninguém. Só fiquei mais tranquilo quando
ele garantiu que não tinha mais volta nem risco, tudo estava grande e em mais
alguns dias já estaríamos colhendo algumas coisas, menos a couve que, apesar de
alta e verde, ainda não estava no ponto. O professor estava curado. Matou o
mato que trazia no peito e na mente há anos. O Anjo da Guarda dele estava perto
de nós, com chapéu de palha, calça velha e camisa surrada, limpíssimas, pés
descalços, uma enxada no ombro e um palito de fósforo entre os dentes. E sorria
muito, de alegria. O professor não mudou seu jeito de dar aulas de matemática,
mas mudou a fisionomia. Não tinha mais cara de palhaço.
Deim. Giz e cera. Casario da rua São Paulo. Presidente Epitácio.
VI
REFÚGIOS
A última crise financeira mundial foi causada pelo mercado
de imóveis. Milhares de casas hipotecadas nos Estados Unidos foram tomadas pelos bancos credores. Os donos
haviam perdido seus empregos e não conseguiam arcar com as prestações. Porém,
eram tantas casas que os bancos perderam a maioria dos clientes e faliram. Muitas
dessas pessoas foram morar na casa de parentes e também nas ruas. Com tanta
gente precisando de casas e desejando moradias amplas e confortáveis, elas
passaram a ser o foco dos negócios financeiros: empréstimos e principalmente os
refinanciamentos dessas mesmas casas.
Nas épocas de crise, os imóveis suplementares das famílias
mais abastadas sempre entram em oferta, pois seus proprietários precisam
reverter esse capital com certa urgência. Compraram quando estavam
financeiramente bem e agora podem queimar a gordura que está sobrando.
Apartamentos e casas de praia são os mais comuns nesses negócios.
Quando acontece alguma crise nas famílias que moram na
Grande São Paulo e no interior, os sobreviventes, quando podem, se refugiam em
suas casas de veraneio no litoral. Provavelmente eles também se refugiam nas
chácaras, sítios e fazendas.
Os motivos das fugas são muitos, bem como suas histórias,
desde os mais corriqueiros, como o tédio ou stress; ou coisas mais graves, como
as falências, desemprego, separações conjugais, problemas com os filhos, as
mortes súbitas das figuras centrais das famílias ou simples refúgio nos últimos
dias de vida dos doentes terminais.
As reações e adaptações também são muito diversas, algumas
comovedoras e outras até engraçadas.
Tem uns que vem para o litoral para morrer e permanecem vivos durante longos
anos; chegam tristes e depois se tornam sorridentes, dando os ombros para tudo
que lhe parecem bobagem. Creditam que foram preservados pelo cheiro e a
paisagem do mar. Outros chegam para
viver intensamente e acabam morrendo mais rápido do que esperavam,
surpreendendo os parentes e os vizinhos que mal tiveram tempo para conhecer.
Mais uma casa fechada a espera do inventário.
São centenas de histórias. Os corretores de imóveis sabem de
todas elas e das condições de compra e venda.
As histórias que mais complicadas que ouvíamos eram de
falência e desemprego. Os maridos geralmente não apareciam na escola, somente
as mães e filhos menores. Algumas ainda com o nariz empinado, críticas e
exigentes no início, mas depois iam mudando de postura e ficando amigáveis,
passando a colaborar com escola. Nossa coordenadora, a Marli, já desencarnada,
era psicóloga e tinha um espírito burguês que se afinava com elas, quebrando
aos poucos os traumas. Era difícil para elas verem os filhos estudando na mesma
escola que os filhos da faxineira e do porteiro do prédio ou do caseiro. Teve
uma que chutou o pau da barraca. Era dondoca do Pacaembu (assim ela se auto
denominava), estudou arte e design na FAAP e caiu no limbo financeiro do
marido. Dizia: “Eu não vou ficar em casa esperando o mundo rodar porque eu já tô ficando zonza”. Prestou um concurso para
merendeira da prefeitura e saiu da zonzeira.
Tinha também muitos foragidos da justiça. Isso me deixava de orelha em
pé, geralmente do Nordeste. Como o distrito policial e também o batalhão da PM eram perto da
escola, ficava relativamente tranquilo. Alguns perigosos apareciam para fazer
suplência à noite e ficavam testando a disciplina, de entrada e saída.
Quando chegavam novos moradores, mesmo não tendo filhos,
eles davam jeito de aproximarem da escola, pra fazer amizade e ajudar em caso
de necessidade. Recebemos certa vez a visita de uma vendedora de Yakult. Ela
tinha uma casa de praia como prêmio de desempenho na empresa e escolheu uma na
rua da escola. Como acontecem com todos, usam bastante no começo; depois
emprestam para os amigos e depois desaparecem por anos, até que as casas sejam
vendidas.
Conheci nesse bairro uma outra casa, aliás muito curiosa, e que foi sofrendo
reformas durantes vários anos e que parecia nunca agradar os que ali curtiam o
veraneio ou outras estações do ano. “Essa casa é daquela cantora famosa”,
alertava o corretor, animado com a possibilidade de faturar uma comissão.
Infelizmente ela faleceu e os herdeiros não querem fazer o inventário, acham
que não compensa. Uma pena. A casa fica num lugar maravilhoso, entre a orla e a
rodovia, de onde se vê, bem próximo, o pé da serra. Em frente tem uma enorme
praça do tamanho de uma quadra. É um local muito especial, que nos dias de
chuvas rápidas e de mudança de tempo, as gotículas se juntam para flutuar
diante da luz do sol e formam um arco-íris enorme, muito maior do que o paredão de serra que ali descansa frente ao
mar. Se existem os portais de um plano para outro, ali é certamente um deles,
pois a exposição dos arcos coloridos duram por muitos minutos, parecendo uma
grande festa de passagem de almas e seres elementais para o outro mundo.
Nas tardes em que eu ficava para turno da noite, antes que
escurecesse, adivinhava que algumas dessas criaturas invisíveis rondavam a
escola em busca de socorro até que, em pensamento, indicasse o rumo das nuvens sobre a pequena
montanha, com a nítida ideia de que as portas do céu ainda estavam abertas para
os retardatários. Nem todos conseguiam e ficavam por ali perambulando, à espera
de uma nova chance.
APARTAMENTOS
Este apartamento em que moro é pequeno e muito aconchegante.
Sala-living. Digo aconchegante porque me acostumei. Moro nos fundos, sozinho e
tenho uma pequena vista para o mar, num corredor entre dois prédios pelo qual
vejo os carros subindo e descendo da Ilha Porchat; e também a saída e a entrada
de navios do Porto de Santos. Tudo muito rápido porque o corredor é de apenas
seis a oito metros de largura. Má dá pra ver nitidamente o que acontece. É um
consolo. Sabia que um dia isso
acontecer. Lendo um livro quando ainda estava na faculdade, fiquei
impressionado com a descrição do prédio e do quarto onde morava o protagonista,
abarrotado de livros e revistas até o teto. Me vi em Paris morando naquele quarto.
Essa lembrança voltou à minha imaginação muitos anos depois, quando me deliciei
ao ver o prédio e o apartamento de Amélie Poulaim e também os dos seus vizinhos
estranhos e solitários. O bairro e a casa onde morava o pai de Amelie e também
a do casal de velhos “Bretodeau” (pais do quitandeiro e vizinho dela) , bem
como todos as demais moradias desse filme, foram construídos propositalmente
como cenários bucólicos. Mas isso não importa. São livros e filmes. Sonhei que
um dia iria morar em um desses lugares, curtindo também a solidão incurável dos
personagens. Aconteceu, mas sem livros e revistas até o teto. Amo o
minimalismo, até por questão de necessidade. Mas essa solidão durou pouco menos
de um ano.
Minha filha entrou em crise e veio morar comigo. Também já
esperava por isso. Ela precisa tomar rumo na vida e aportou no meu apartamento,
depois de desistir de morar com os avós em São Paulo. Na verdade, eu a mãe dela
fizemos com que desistisse porque a vimos insegura e demorando muito para nos
comunicar a incerteza sobre se essa mudança realmente seria benéfica para ela. Acertamos. Morando comigo e
percebendo que eu estava meio sem rumo depois de 40 dias de isolamento, ela
sugeriu: “Escreva um livro”! Eu havia
dito a ela há algum tempo que pretendia escrever sobre os lugares e casas que
morei e expliquei os motivos e a importância do assunto, como registro memorial
e como descoberta dos nós existenciais que podem ser desatados.
O outro apartamento
em que morei, quatro anos antes, era maior e mais sofisticado. Foi fruto de uma
crise conjugal. Como não tinha mobília, dava impressão que era gigantesco. A
proprietária era tão chata e metódica que nunca tive vontade de pendurar nada
nas paredes nem comprar nada para preencher o espaço vazio. Só a cozinha estava equipada com o essencial:
geladeira e fogão. Nos quarto apenas dois colchões e minha mala de viagens com
as roupas e mancebo que eu e minha filha encontramos na rua. Está até hoje comigo,
no banheiro. Na área de serviço, sem máquina e com um
pequeno tanque, sobrava muito espaço e tinha uma vista espetacular, da linha do
VLT, da maioria das vilas de São Vicente na direção de Santos, na zona
noroeste; de Cubatão com suas chaminés e bicos de chamas de gás; e da Serra do
Mar. Na sala tinha uma sacada bem confortável para leitura, com vistas para um
mar de prédios, porém não tinha comparação com a área de serviço. Em todos os
horários. Durante a feira, nas sextas de manhã; o movimento dos trens e um
intenso tráfego das avenidas laterais. O barulho diminuía na medida que
avançava a noite. No outono as luas eram espetaculares, surgindo atrás dos
morros Voturuá e Itararé, enormes e alaranjadas no início da noite, para
depois, no meio da noite se fixar bem cima do meu prédio, já cor de prata. Não
tinha vontade nenhuma de dormir, embora tivesse que levantar cedo para estar na
escola às 7 horas, na periferia. À noite ia e voltava à pé da faculdade onde
também dava aulas. Nas madrugadas, entre os inúmeros habitantes noturnos,
surgia uma figura toda vestida de negro, travestida. Vinha da avenida
presidente Wilson, atravessava linha férrea e ficava por alguns minutos na
esquina da avenida Marechal Deodoro, sozinha ou conversando com um ou outro
notívago que surgia de carro (nunca entrava neles), bicicleta ou à pé. Depois
desaparecia nas ruas desertas da Vila Valença. Dificilmente voltava. No início
achávamos que se tratava de feitiço, pois ela carregava algo coberto com um
pano. Como não depositava nada nos trilhos nem no cruzamento, excluímos essa
hipótese. Só poderia ser traficante então. Mas não tinha nenhum indício de uma
cena comercial, mesmo camuflada. Essa hipótese também foi eliminada. Por
sugestão da minha namorada, passamos a vigiar com as luzes apagadas. Ficamos
divididos entre o programa sexual (dela) e a simples fantasia de alguém que
durante o dia era alguém de boa família e de bons costumes. Sugeri de irmos até
ela para conversar, matar a curiosidade, mas não tivemos coragem. Achei que não
seria nada demais, mas a minha namorada achou arriscado. Dois dias antes tínhamos
visto uma discussão e briga de uma prostituta com um cliente bêbado. Ela
cobrava o dinheiro do programa e ele dizia que não iria pagar porque ela era
namorada dele. “Namorado não paga”, dizia ele. E começava a rir. E ela furiosa,
xingava e continuava cobrando. E ele respondia: “ Você sempre me chama de meu
amor, então é minha namorada.“Não pago. Não pago”. “Te pago uma cerveja,
quer?
Deim. Aquarela. Casa da Vila Tibiriçá.
VIII
A VILA
A Vila em que morávamos nos anos 60 era um antigo porto
fluvial particular, propriedade de uma companhia de colonização fundada em 1905
por duas grandes famílias paulistas: os Tibiriçá e o Diederichsen. Ficava no
extremo oeste do estado, na divisa com Mato Grosso. O rio Paraná ficava
praticamente em nosso quintal. Meus avós já eram funcionários aposentados dessa
empresa quando meus pais ingressaram nos seus quadros. Os aposentados tinham
que mudar da vila e ceder suas casas para os funcionários que estavam na fila
de espera, de acordo com a graduação profissional. Foi assim que meus avós fora
morar na cidade e nós ficamos em Tibiriçá até 1967, quando a empresa fechou e a
vila foi vendida par um grande frigorífico que se instalava na região, nas
margens do rio e próximo da rodovia Raposo Tavares. Nossa casa era de alvenaria;
as dos meus avós eram de madeira. O piso era de tacos e na cozinha, banheiros e na varanda era de ladrilhos vermelho-ocre, cujos cacos
já eram moda para revestir os quintais. Na minha casa eles eram inteiros e eu
adorava deslizar neles quando a varando era lavada com sabão em pó, para depois
ser encerada. Em frente de casa tinha um imenso campo gramado, de passeio e de
jogos de futebol. A maioria das casas estava de frente para esse campo, que era
ornamentado por árvores de cedro. Entre elas haviam bancos de madeira, onde as
pessoas se reuniam para conversar. O banco de uma das extremidades do campo era
frequentado só homens e por isso era chamado de Banco do Pecado. As ruas eram todas de terra e protegidas da
erosão por uma grama rasteira natural. Esse campo não existe mais. Foi usado na
construção de casas populares. Mas quando existia era muito bonito, apesar de
simples. Ele foi registrado em imagens em preto e branco, feitas pelo fotógrafo
alemão Konrad Vopell, em 1938. Voppel desembarcou no porto de Santos como
turista e registrou com sua lente os lugares mais interessante da Capital e do
estado, sobretudo as colônias industriais construídas pelas empresas
estrangeiras. Tibiriçá era uma delas, quando a Tibiriçá Diederichsen foi
vendida para um grupo alemã, já com o nome de Companhia de Viação São Paulo
Mato Grosso.
Konrad Voppel provavelmente era um espião nazista ou então
um observador que trabalha para o governo alemão e também para empresas do seu
país interessadas nos negócios da América do Sul. O trabalho dele era o
registro das atividades econômicas que pudesse interessar aos investidores e
também seus sócios que eram membros do governo. Antes deles esse trabalho de
observação ou espionagem foi feito durante alguns anos pelo Zepeplin, o
dirigível que rodou o mundo em busca de
informações para Hitler. Com os acidentes e sabotagens, o Zeppelin se tornou
inconveniente. Foi então que os fotógrafos voltaram ao seus antigos trabalho de
peregrinos. No início dos anos 70 esteve em Presidente Epitácio e Tibiriçá um
fotógrafo japonês, que registrou também imagens curiosas dos arredores da
cidade, sobretudo da navegação fluvial. Na época havia rumores que o Japão
estava interessado em terras da região centro oeste, para expandir negócios e
aliar a pressão populacional com um plano de imigração em massa para o Brasil.
Os estrangeiros adoravam Tibiriçá. Essa mesma empresa mais
tarde seria revendida para o mega empresário tcheco Jan Antonin Bata, fundador
das industrias de calçados Bata, com
filiais em muitos países. Bata acreditava que sua missão no mundo era fundar
cidades e suas criações urbanas são famosas no mundo inteiro. Seu plano era
criar uma ampla rede produtiva em Mato Grosso, interligada por ferrovias e o
Porto Tibiriçá seria o ponto estratégico para recepção, distribuição no estado
paulista e escoamento de exportação no porto de Santos. No Brasil, Jan Antonim
Bata fundou algumas colônias agrícolas
importantes como a de Batatuba (Piracaia), onde construiu uma casa maravilhosa
para morar com a família. As ruínas dessa casa existem até hoje. Fundou em Mato
Grosso as cidades de Bataguassu e Bataiporã, cujas terras no entorno foram
transformadas em centenas de chácaras, sítios e fazendas, algumas delas
verdadeiros latifúndios de gado de corte. Conheci uma dessa fazendas, na cidade
de Anaurilândia, que possuía um sede espetacular, toda construída em madeira de
lei, com muito aposentos e até uma sala de armas, muito comum nas fazendas, por
causa das onças que atacavam as rezes. Nessa visita à famosa “Fazenda Estância
Boiadeira” tive uma grata surpresa ao encontrar num quartinho fora da sede
algumas caixas com antigos talões de embarque de gado assinados por um dos meus
avôs – Comandante Maurício Xavier Duque- que chefiava o serviço de balsas de
travessia de gado entre o Porto XV (MT) e o Porto Tibiriçá (SP). O gado era
conduzido até a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, em Presidente Epitácio,
e de lá embarcado para São Paulo. Nesse mesmo esquema logístico de transporte
fluvial e ferroviário funcionava também
a extração de madeira, cujas toras eram levadas em chatas pelo
rebocadores fluvial da mesma empresa. Só um detalhe: a antiga Companhia de
Viação SP-MT teve que mudar de nome durante a guerra, pois foi encampada pelo
governo federal, por ser de propriedade estrangeira e considerada de interesse
para a segurança nacional. Passou então a ser denominada Serviço de Navegação
da Bacia do Prata-SNPB, autarquia pública ligada a diversos ministérios,
dependo dos governos eleitos nesse período. Meus pais ingressaram na mesma
empresa onde trabalharam meu avós, morando na mesma vila, já na condição funcionários públicos ,
contratados e depois concursado pelo DASP, nos anos 1950. Essa situação durou
até 1967, quando tivemos que mudar para Presidente Epitácio, pois a nossa casa
seria ocupada por um dos funcionários do Frigorífico União. Mais tarde a propriedade
do Porto Tibiriçá seria vendida para o Frigorífico Bordon e depois Swiftt,
marca de aluguel para exportação de carnes.
Foi na varanda de ladrilhos da casa em Tibiriçá que ficou
gravada em minha memória uma cena que teria influência marcante no meu
envolvimento com o trabalho voluntário de prevenção do suicídio. Já de
madrugada, minha chorando ao saber que um tio nosso havia tentado o suicídio
dando um tiro em um dos ouvidos. A arma que ele usou pertencia ao meu avô. Mas
nessa casa tivemos momentos felizes, festas de aniversário, jantares para
amigos, páscoas, natais e revellions. Nessa época morava conosco a nossa
madrinha Manoela Borges, pessoa que havia criado meus avós e minha mãe. Ela era
separada, ex-mulher de Guilherme Borges, que foi gerente da Companhia de Viação
e da Fazenda CIMA, em Indiana, onde minha mãe havia morado com elas, como filha
adotiva. Eles tinham perdido uma filha de 17 anos, com tuberculose e minha avó,
para minimizar o sofrimento deles, deixou que minha mãe fosse viver com eles. Em
1967, Dona Manoela recebeu em nossa casa uma visita muito especial de uma amiga
de muitos anos. Era Dona Cacilda, que foi professora do meu pai na escola primária
de Tibiriçá. Ela trouxe com ela os dois filhos, que eram músicos de grande
sucesso e se apresentavam em todas as rádios e emissoras de TV. Chamavam-se
Neno e Irupê. Naquele dia eles fariam um
baile-show no clube da Sociedade Filarmônica 27 de Março, em Presidente
Epitácio. Vieram acompanhados de outros músicos que formavam o conjunto The
Jordans, para o lançamento do LP Studio 17, com o single “Tema de Lara”, do
filme Doutor Jivago. A presença de todos eles na minha casa causou um furor em
toda a vila. O povo invadiu o nosso quintal e ocupou a varanda e as janelas
para ver os astros da TV e do cinema ( no filme O Puritano da Rua Augusta).
Neno e Irupê foram depois componentes do RC 7, banda exclusiva do Roberto
Carlos e que aparece em todos os filmes do Rei da Jovem Guarda. Uma lembrança
grata sobre eles: em visita a Londres, já nos anos 70, eles foram reconhecidos
num restaurantes com “músicos brasileiros” e tiveram uma rápida, porém curiosa
conversa sobre a bossa nova e outros estilos de música “tropical” com dois
artistas já bastante conhecidos na Inglaterra e no mundo. Eram John Lennon e
Ringo Star. O encontro deles foi registrado numa foto bastante divulgada na internet.
JARDINEIRO
Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo
sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação
de infância. João Puba era o jardineiro da casa da gerência do Serviço de Navegação da
Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de
uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era
cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram
encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar
morrer a tradição que ela tanto prezava. Pessoa de aparência e hábitos simples,
seu João cumpria à risca as ordens dos
superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um
grande jardim de todos que ali moravam.
Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro,
administrador do porto e do Distrito, o
velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que
o enterro do chefe fosse realizado
conforme a vontade do morto. Ele havia solicitado por diversas vezes para que
não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a
fartura da época, Seu João logo se apressou, pois não havia muito tempo para
que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de
aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam
dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava.
Queria fazer tal qual fora bastante recomendado.
Graças a ele, o
enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento
especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a
porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto
e também não era muito longo, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão,
sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e
provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera.
Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa
lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao
ser questionada por mim, ela respondeu prontamente:
“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência.
Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na
sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei
com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o
Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando
sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na
minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha
mediunidade”.
Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato
com essas informações sobre as verdades espirituais e recebeu essa influência
com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto,
poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas
consciências façam esse tipo de cobrança.
A desocupação da Vila Tibiriçá é um assunto que ficou
pendente na vida da minha mãe e dos funcionários da Bacia do Prata. Foi um
processo meio confuso, rápido e cheio de contradições. Políticos e empresários
epitacianos tinham interesse em se apropriar do Porto Tibiriçá se aproveitando
do processo de desmonte da bacia do Prata e a entrada do de um frigorífico na
cidade, que utilizaria as casas para os funcionários. Uma negociata obscura que
na época era difícil questionar, por causa do regime militar. Ninguém sabe até
como uma área pública foi para nas mãos de uma empresa particular e parte desse
patrimônio caiu nas mãos de especuladores imobiliários: áreas ribeirinhas de
exploração do turismo, pastos de gado transformados em chácaras e sítios e o
parque Figueiral e o aeroporto, que ficou sob posse da prefeitura. A parte que
ficou sob interesse privado foi renegociado quando o Frigorífico Bordon sucedeu
o União. O mesmo aconteceu recentemente com
o JBS, depois de um longo período de desativação. A vila permaneceu ocupada por
funcionários e ninguém foi incomodado, diferente do aconteceu com os moradores
do tempo da Bacia do Prata.
Deim. Aquarela. Vila Tiribiçá.
X
CASAS
Quando saímos de
Tibiriçá, moramos em em mais quatro casas em Epitácio, duas
alugadas e as outras duas pertecentes aos meus avós, paternos e maternos. Nossos
avós maternos viviam nu sítio em Mato Grosso, adquirido da Companhia de Viação SP-MT. A duas casas alugadas foram de estadia
rápida e transitória. Meus pais estavam meio desnorteados, pois nunca tiveram
problemas com moradia e achavam que a estabilidade da Vila de Tibiriçá duraria
até a aposentadoria deles, como aconteceu com meu avós. Com a extinção do
serviço fluvial de travessia, a maioria dos moradores teve que se mudar às
pressas.
As casas dos meus
avós eram completamente difrentes e refletiam exatamente o que eram
intimamente. As duas eram de alvenaria, diferentes das casas alugadas que
moramos anteriormente, que eram de madeira. Casas de madeira eram muito comuns
na região. Já as casas de alvenaria eram raras e dizia-se que eram de
“material”, no sentido de serem diferenciadas na concepção e construção. Mas haviam também casas de madeira muito
amplas e bonitas, que aproveitavam bem a fartura desse pruduto ofecido pelas inúmeras serrarias e madereiras
que haviam na cidade. Só em Epitácio, nos anos 1950, haviam 18 grandes
serrarias, numa cidade com pouco mais de dois mil habitantes. Entretando, a habitação
de material era sinônimo de ascensão social dos profissionais estáveis e
abastados. Eram feitas por empreiteiros que atuavam na região, que funcionam ao mesmo tempo como engenheiros
e arquitetos. Nesse período começam a surgir também as olarias, que fabricavam
tijolos e telhas. Era um negócio dominado geralmente por portugues e espanhóis.
A casa da rua
Cuiabá não era luxuosa, mas tinha a intenção de mostrar a conquista do novo status
quo do meu avô. Ele era um funcionário público aposentado e também
sitiante. Além dessa casa , meus avós
possuíam uma chácara, de um pouco mais de um alqueire, que ficava no extremo da
mesma rua, na direção da barranca do rio. Ali minha avó começou suas atividades
leiteiras, que depois transferiu para o sítio em Mato Grosso, no município de
Bataguassu. A casa da rua Cuiabá tinha
um quintal enorme. Alí minha avó
reproduziu num pomar de árvores praticamente todas as espécies frutíferas que
existiam na sua terra de origem, na região de Sobradinho, e também do meu avô,
que era de Carinhanha, Bahia. Lembro nitidamente dos dois pés de umbú, com
pequenas folhas verdes claras; dois pés
de pinha; um pé de jaca, duas jaboticabeiras, sendo uma no jardim de fronte
para a rua; uma goiabeira, um pé de cajá-manga e outro de cajazinho; três
mangueiras, uma espada e duas rosa; dois ou três mamoeiros; um grande
abacateiro; e finalmente a minha preferida, a arvore de tamarindo, não pela
fruta, que não gostava por ser muito azeda, pela pela sua aparência de
superioridade, galhos firmes, escuros, estirirados e que avançavam por cima dos muros
vizinhos. Era o quintal dos sonhos de qualquer criança, no qual criei até um
filhore de tatu, por pouco tempo, encontrado na estrada pelo meu meu pai. Nesse
quintal também havia uma pequeno depósito feito de madeira e corbeto com telha,
que serviu para o primeiro espaço de bricadeiras de oficina, escritório e que
depois se tranformou num clube. Nessa época eu era escoteiro e já tinha visto
no cinema o filme Os Meninos da Rua Paul, inspirado na obra de Ferenc Molnár, jornalista e escritor húngaro. A escola fica
quase ao lado de casa e dava para escutar o sino de aviso para formar filas no
pátio.
Meu avós maternos
vieram para o Porto Tibiriçá nos anos
1920 como retirantes e não se conheciam. Nessa época Epitácio não existia. Só
surgiria com a chegada dos trilhos ferroviários que avançavam além da serra de
Batucatu. Antes disso, no incío do século, toda a região oeste paulista era
selvagem. Quando chegaram, meu avô foi
trabalhar nas obras da Estrada de Ferro Sorocabana e minha avó como empregada
doméstica na casa de Guilherme e Manoela Borges. Com o passar tempo eles
adquiriram uma casa vizinha na rua Cuiabá, de madeira, que alugavam para ajudar
nas despesas. Eles, Maurício e Maria, tiveram cinco filhos, duas mulheres e
três homens. Dois desses filhos eram solteiros e moravam conosco nesse período.
Também passavam algumas temporadas no sítio, que se chama São Guilherme, nome
provavelmente escolhido pela minha avó Maria para homenagear o padrinho
Guilherme Borges, que nessa altura da vida vivia em Presiente Prudente,
separado de dona Manoela Borges. Seu Guilherme Borges aparece nos relatório de
viagem do Dr. Adolpho Lutz, numa expedição cientifica de 1913 entre Tibiriçá e
Guaíra, no rio Paraná. O sítio durou
cerca de 30 anos, quando as terras daquela região foram inundadas pela usina
hidrelétrica de Porto Primvera, formado um lago de 16 quilômetro no rio Paraná.
Meu avós voltaram a morar em Presidente Epitácio, onde terminaram seus dias.
O sítio deles na Reta A-1 era uma propridade
de 51 alqueires que tinha como vizinhos alguns sitiantes e também fazendeiros,
com terras com o tamanho de 600 a 800 alqueires, que no Mato Grosso era contado
como 48 mil metros quadrados cada. Um deles era Seu Faustino Azenha,
também proprietário do primeiro cinema
de Epitácio. Os varjões dominavam as
fazendas, enquanto os sítios foram ocupados em local mais alto e seco. Durante
as noites era possível ver uma imensidão de vagalumes e, no varjão, o movimento
misterioso de uma pequena feixe de luz prateada, muito forte e rápida, se
escondendo e aparecendo na vegetação baixa. “fogo fátuo”, para os céticos,
efeito da decomposição orgçanica de animais;
ou boitatá, espíritos da mata, para os caboclos pirangueiros.
A primeira casa
do sítio na Reta A-1 foi feita de madeira, duas águas, com tábuas verticais.
Não tinha varanda, nem forro e os quartos faziam parede com um paiol de milho e
ferramentas. O fogão era de tijolo e revistido de vermelhão. O piso era de chão
batido. Os banheiros eram externos e feito também com tábuas de madeira, um com
fossa; e outro só para banho, com piso de tijolos. Não havia eletricidade e a
água era retirada de um córrego que ficava em frente, a uns 15 ou metros da
casa. Era o Córrego da Anta, que tinha vários pontos largos e estreitos e
desaguava no rio Paraná.
A segunda casa
do sítio era pré-moldada e foi adquirida quando houve a oferta de muitas delas,
do canteiro de obras do DNER, durante na finalização da contrução Ponte sobre
rio Paraná, ligando São Paulo a Mato Grosso.
Era de madeira também, telhado de
uma água e não tinha banheiro. Mas tinha forro, vidraças e assoalho de madeira.
Tinha uma pequena varanda nos fundos. Na cozinha foi feito um piso de de
cimento queimado, com vermelhão, assim como um novo fogão de tijolos. No quintal
havia o banheiro, o sanitário e um poço artesanal, cuja a água passou ser ser
retirada com bomba a óleo Diesel. Haviam árvores relativamente grandes ao redor
da casa, oferecendo sombra nos dias de sol.
A terceira casa
do sítio também foi feita de madeira, para que fosse ocupada por um dos meus
tios, que casou e foi morar lá co a sua jovem esposa. Lá tiveram tiveram dois
filhos e algum tempo depois foram cuidar da vida em outros lugares. Acredito
que foi o melhor período da nossa infância , onde passávamos as férias e
feriados longos. Foi onde aprendi a nadar, jogado por esse tio, de surpresa,
numa lagoa formada pelo córrego e que fica numa fazenda vizinha. Ele teve
sucesso na sua intenção de ensinar algo que se deve aprender sozinho. Foi ele
também também que me ajudou a comprar meu primeiro carro ( uma Brasília 77),
vendida por ele em longas prestações. A placa era de Bataguassu-MS e as multas
tomadas em São Paulo nunca chegavam para pagar, pois não havia comunicação de
dados entre os Detrans do estados. Esse meu tio me vendeu um segundo carro,
também meio na faixa, um Gol BX 82 à àlcool. Algum tempo depois depois, adquiri
um Passat 79, comprado em Osasco, que usei algum tempo em São Paulo e depois
tornou-se para mim um marco de negócio. Era um carro veloz e confortável,
embora já bastante usado. Passando férias em Epitácio, li um anúncio no único
jornal local, que era semanário, ví que alguém havia colocado uma casa à venda,
na rua Curitiba. Era um jovem borracheiro que queria se mudar da cidade e
quando viu o Passat ficou alucinado. Paguei uma pequena diferença e fiquei com
a casa. Tinha como vizinhos um funcionário do Banespa, vindo de Santo Anastácio;
e uma famíla antiga e amiga de Tibiriçá.
A outra casa de
material , dos avós paternos, ficava ao lado da antiga agência dos Correios e
também da Delegacia dos Portos, da Marinha de Guerra. Esse dois prédios,
geminados, petenciam ao meu avô, também aposentado da SNBP, mas não era
sitiante. Complementava a aposentadoria com alguéis, incluido a primeira casa
que construíram antes dessa fomos morar. Essa casa era mais moderna e espaçosa,
com amplas varandas na frente e nos
fundos, além de uma garagem comberta. Esse meu avô nasceu da região do Vale do
Paraíba (São José dos Campos) , mas viveu algum tempo no Rio de Janeiro. Soube
da transformação causa pelas ferroas no interior de São Paulo e foi tentar a
sorte no Porto Tibiriçá, trabalhando num hotel. Minha avó era imigrante húngara,
que veio com os pais e irmãos em 1924 para povoar a Colônia Arpad Falva, que
ficava entre Presidente Epitácio e Caiuá. Eles se conheceram nos bailes que eram
realizados na colônia e frequentados por rapazes e moças da região. Iam à pé ou
de trem. Carlos e Verônica (Vera) tiveram também cinco filhos, dois homens,
incluindo meu pai, e três mulheres. Após a aposentadoria em Tibiriçá , se
fixaram em Epitácio , onde também terminaram seus dias. Uma curiosidade, esse
meu avô faleceu durante uma viagem ao Rio de Janeiro, quando tentava uma
colocação para o meu tio – o caçula- nos quadros da marinha mercante. Os corpos
dos meus avós alguns tios e também do me pai estão enterrados em Presidente
Epitácio, num espaço público denominado
Cemitério da Igualdade, no qual as sepulturas são todas no chão de terra e
coberta por grama ou flores, tendo apenas uma simples placa de mármore, com a
identificação dos mortos, sem nenhuma exceção.
Nessa casa
ficamos apenas alguns meses, pois meu avô havia falecido há alguns anos e minha
avó morava sozinha. Em 28 de março de 1974 mudamos para São Vicente, já que
meus pais continuavam em regime de disponibilidade da SNBP, podendo escolher
algumas cidades onde houvesse serviços do Ministério dos Transportes. Escolheram
São Vicente de olho no Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, em
Santos. Não chegaram a trabalhar nesse setor, pois aposentaram-se antes de
serem chamados. Mesmo assim, trabalhavam
em outras empresas, para complementar a renda. Éramos seis filhos homens, um
com três meses de idade, dois pré-adolencentes e dois quase adultos.
Deim. Aquarela. Campo da Vila Tiribiçá. .
XI
ESQUINA
Em 1972 meus
pais viviam um momento de agonia pessoal, uma crise familiar e ao mesmo
existencial que exigia mudança de rumos. Mesmo recebendo seus salários do
serviço público, eles tentavam ampliar
os ganhos e horizontes em busca de algo melhor para todos. Vivíamos
modestamente, mas não era suficiente. Meus avós ajudavam. E como. Precisava acontecer algo diferente e que provocasse
uma mudança no roteiro de nossas vidas. Nossa Madrinha Manoela tinha morrido um
ano antes e um sentimento de orfandade
tomou conta da famíla. Ela era madrinha dos meus avós, dos meu tios, dos
nossos primos e de muitas pessoas na cidade. Isso acentuou a nossa crise
familiar. Meu pai trabalha em serviços extras e até teve um bar em sociedade com
o amigo muito querido na cidade. Era um
imigrante espanhol. Minha mãe tentou um
negócio de cosméticos. Outro amigo, empresário da panificação, queria que ele
assumisse de vez a gerência do negócio,
pois queria passar um longo tempo em
Portugal. Meu pai tocava a padaria durante essas férias do amigo, mas não era
isso que ele queria. Minha mãe não sabia o que ele queria e talvez nem ele
próprio sabia. Era uma insatisfação indecifrável. Mas ele tinha dívidas. Contas
urgentes a pagar. A agonia aumentou, apesar da ajuda de parentes e amigos muito
caros. Numa manhã de sábado ele saiu de casa para ir bar conversar com os
amigos, os de sempre. Nada de diferente. Veio almoçar e saiu de novo. Quando
voltou entrou em casa apressado com um sorriso estampado no rosto, uma alegria diferente.
Dirigiu-se ao quarto, abriu a porta do guarda- roupa e pegou algo que estava
guardado no bolso de um paletó. Geralmente ele guadava dinheiro e maços de
cigarros da marca Continental, sem filtro. Naquela dia não foi cigarro nem
dinheiro, quer dizer era outro tipo de dinheiro. Pegou o que procurava e saiu
com a mesma pressa com que havia entrado. Minha mãe estava na sala e corri até
ela para perguntar o que tinha acontecido. Ela me respondeu, também sorridente:
“Seu pai ganhou na loteria”. Ele tinha vindo pegar os bilhetes que tinham sido
premiados no sorteio da Loteria Federal. Eram três pedaços com final 84. Touro,
no jogo do bicho e também signo dele. Depois soubemos que ele tinha encomendado
um bilhete inteiro, mas o vendedor de loteria só tinha três pedaços. Deixou com
ele e prometeu voltar com mais dois
pedaços até fim do dia. Não apareceu. O prêmio foi de 65 mil cruzeiros. Uma
festa na cidade, apesar da quantia modesta, pois no ano anterior um empresário
havia ganho 350 mil, um verdadeira fortuna. A sorte rondava as ruas de
Epitácio. Na segunda-feira, quando cheguei na escola para entrar na fila da
minha classe, a professora anunciou o que todos já sabiam. Ela estava feliz de
verdade, enquanto a escola inteira olhava para mim. Eu acreditei naquele instante
que realmente havia ficado rico. Foi uma sensação maravilhosa e indescritível.
Nunca tive tantos amigos e admiradores mirins. A vida seguiu. Meu pai pagou as nossas e outras contas, ajudando
alguns amigos, comprou uma Kombi zero quilômetro – lembro até hoje do cheiro de
plástico e de novidade que ela tinha – comprou uma casa e não quis comprar um
sítio que estava á venda, próximo do sítio do meu avô. Minha avó Maria , que
era sogra dele e fã do programa do Zé Bétio foi quem tinha sugerido a compra.
Não ouviu o conselho porque era da sogra e talvez não conhecia o ditado
repetido diáriamente pelo grande aprentador sertanejo: “Quem compra terra não
erra”. Mas restaram a Kombi e a casa. A Kombi nos levou a uma viagem de férias
em Praia Grande, na vila Tupi. Foi quando conheci o mar e tudo que os turistas
conhecem na orla da Baixada Santista. Voltamos encantados. Passamos na ida e na
volta por dentro de São Paulo. E minha voltou da viajem com algumas ideias na
cabeça. Meu pai continou deslubrado e preso a Epitácio; e minha mãe em busca de
alguma outra transformação mais importante e outra alegria diferente daquela
que estava no seu sorriso quando me de a notícia do prêmio loteria.
A casa comprada
ficava na equina na rua Curitiba com a rua Guanabara, há apenas duas quadras de
onde morávamos. Fomos ver e voltamos alegres, pois enfim , depois de tento
tempo teríamos a nossa própria casa, e de esquina. Era uma casa simples, de
madeira com tábuas horizontais e paredes
duplas e ocas, para frescor no verão e calor no inverno, no estilo dos bangalôs americanos, com varanda
e garagem. Uma graça, muito bem conservada com tinta à óleo. Era verde musgo
por fora e creme por dentro. Tinha ainda um terreno anexo, todo arborizado,
onde havia um pomar. Perfeito para brincar. Durante o mês inteiro eu pegava as
chaves e visitava a casa até duas ou trê
vezez ao dia, para ver ou mostar para alguns colegas. As visitas terminaram
algum tempo depois quando soubemos que meu pai havia vendido a casa. A crise
voltou ou estava no seu processo contínuo, não concluída. Durante algum tempo,
já adolescente e vivendo em São Vicente,
me via morando sozinho nessa casa. Lembro que nessa fantasia tinha um
Mini Bug na garagem e na sala tinha uma
garrafa de licor de menta. E uma namorada linda, que depois soube que tinha se
casado e mudado para bem longe de Epitácio. Esqueci tudo isso quando comecei
descobrir as praias de São Vicente e lugares interessante em Santos.
Tivemos que
mudar da casa dos meus avós paternos e fomos morar na casa da avó paterna, dona Verônica, que há pouco tempo tinha perdido a sua mãe, a
nossa bisavó Maria Szucs, que não falava uma única frase em português. E nunhum
de nós falava húngaro e só nos comunicavmos com ela por gestos e olhares. Era a vó Santa, pois ela usava um lenço azul
escuro na cabeça que lembrava as imagens de santas da Igreja. Ela pegava nas
nossas mãos e dizia muitas coisas, sempre sorrindo, dando conselhos e fazendo
observações, que advinhávamos com os seus olhares vivos, sobre as coisas do dia
a dia. Como a miha vó, elas tinha olhos azuis. Corrigindo, a vó Santa ainda se
lembrava de algumas frases em português quando tocava o telefone (aqueles
aparelhos negros e pesados). Chegava perto do telefone, não tirava do gancho, e
gritava: “Não tem ninguém”!!! Quando
ouvia trovões, advertia: “Sokat esik az eső”,
está chovendo por aí, na tradução da vó Vera.
XII
SOBRADINHO
Não tinhamos sofás nem camas. Só colchões e
livros em pilhas para sentar. Era um tempo em que as coleções de livros faziam
parte do acervo das casas. Tínhamos Jorge Amado, José de Alencar, Machado de
Assis, a Gramática de Jânio Quadros (num mini suporte de madeira imitando o
Congresso Nacional) , José Mauro de Vasconcellos e o Trópico Ilustrado, enciclopédia
colorida, para substituir as caríssimas Delta e Britânica. E alguns livros
espíritas, pois sempre tinha alguém pedindo emprestado e não devolvia, porque pedia para emprestar
para outra pessoa. Nossa mudança se resumia numa geladeira, fogão, botijão de
gás, enxoval de família e roupas pessoais. Uma TV Colorado RQ garantia a
diversão de todos, com a novela Fogo sobre Terra, com Juca de Oliveira e Dina
Sfat, sucessora de Selva de Pedra.
São Vicente e toda a região tinha um cheiro
diferente de tudo conhecíamos, uma mistura de maresia e gases emitidos pelas indústrias
químicas de Cubatão, sobretudo à noite. O que mais me fascinana nesso horário
era ver as lanternas vermelhas sobre os edifícios altos da orla e, no céu, a luz alaranjada emitida dos bicos de fogo das
torres da refinaria da Petrobrás.
Foi uma semana de incertezas e
expectativas. Minha queria morar em Paulo e pai não queira sair de Epitácio.
São Vicente foi o meio termo. Um alívio para os dois e uma grande aventura para
todos.
Estávamos instalados num sobrado na rua
Uberaba, sem garagem, no Jardim Independência. A avenida Prefeito José Monteiro
não tinha calçamento, como nehuma outra rua do bairro, exceto a Anita Costa,
que tinha paralelepípedo. As pedreiras próxima aos morros funcionavam a todo
vapor com explosões de dinamite de manhã e à tarde. Poucos meses depois fomos
morar na rua Rio de Janeiro, numa casa maior. Uma rua cheia de famílias como a
nossa, com muitos filhos e de olho no futuro. Havia nessa rua um conjunto
residencial que se chavama Verde Oliva, onde
moravam muitos militares que serviam no Batalhão de Caçadores no
Cascatinha. Ainda estávamos no regime militar e isso influenciou até na mudança
do nome do bairro, que antes se chamava Vila da Misericórdia. A construção do
Oliva exigia um nome mais apropriado e cívico, então homenagearam assim o Sesquicenário da Indpendência.
Chegamos em março e não encontramos vagas
nas escolas da cidade. Fomos estudar em
Santos, numa escola na avenida Ana Costa (Dino Bueno), que fica ao lado do
grande orfanato fundado por Anália Franco. Íamos sozinhos, de ônibus. De vez em
em quando combinávamos de não descer no ponto e seguíamos em direção ao centro,
para conhecer a área portuária, principalmente a rua General Câmara. Também
pegávamos outro ônibus e íamos até a Ponta da Praia, ver o movimento de navios
no canal do porto. Uma vez fomos até a cidade Ociam , em Praia Grande. A Ociam
foi um empreendimento de Roberto Andraus, que foi prefeito de São Vicente e
construtor paulistano. Minha mãe
descobriu tudo e conseguiu transferir a gente para uma escola de São Vicente.
Ensino noturno na E.E. Vila Sorocaba, na avenida Antônio Emmerich. Tínhamos
aulas de francês com um professor chic e
bastante amigável, Constant Luciano Hulmond, que depois de morrer se tornou
nome dessa escola, na Vila Melo.
Meu irmão mais velho fazia faculdade em
Santos e o outro, quase adulto e músico, foi se aventurar no Araguaia, tocando em bailes e boates. Depois voltou e os
dois trabalhavam com pesquisadores do
IBGE e da Lista Telefônica. Nessa época a grande fonte de empregos eram as
empreiteiras que construíam a rodovia dos Imigrantes. Mudamos para casa
vizinha, um pouco mais nova, geminada com a casa de uma família de alemães
muito educados e divertidos. O patriarca e filho mais velho trabalahavam na
Volkswagem, em São Bernardo do Campo. E tomavam muita cerveja, entregue pelo
caminhão de uma distribuidora. Naquela época só tinha lata de Skol , chamada
skolzinha, que eles não gostavam, por ser
“aguada”.
Foram
dez anos de mudanças intensas. Meu pai foi trabalhar numa plataforma de
petróleo, em Campos, empresa de hotelaria
a serviço da Petrobrás, em turno quinzenal. Meu irmão mais velho foi para São
Paulo trabalhar como designer industrial, depois de um estágio na COSIPA.
No final da década de 1970 e inicio dos
anos 80 a família mudou-se para São
Paulo. Minha mãe ainda precisa realizar uma parte importante do seu projeto de
vida. E conseguiu. Morar e trabalhar em Sampa, cidade que ela adorava. Eu ainda fiquei mais um ano e fui o última a sair da
casa, com lágrimas nos olhos, para ir morar num apartamento no Gonzaga. Um
amigo carioca e engenheiro, me arranjou
emprego numa fábrica, onde fiquei dois anos enquanto iniciava da faculdade
História em Santos. No primeiro dia de trabalho vi na rodovia Anchieta o rescaldo do incêndio da
Vila Socó, com dezenas de mortos. Vi também uma ação de uma grande frota de
ônibus de funcionários da Cosipa
evacuando moradores da Vila Parisi, após a propagação de um nuvem baixa
de amônia que escapou de uma fábrica de fertilizantes. Cubatão era um grande risco
para todos. No ano seguinte ocorreu a na Índia a tragédia de Bopal, numa
fábrica química, que tinha um filial em Cubatão. Foi nessa época também que a
Rohdia, outra multinacional desse ramo químico, construiu na área Continental
de São Vicente cavas para depositar lixo
tóxico produzido no polo industrial de Cubatão. As cavas só foram decobertas e
denunciadas na imprensa quando milhares de família invadiram esses terrenos
para construir moradias, no Rio Branco e no Parque Continental. Aquela
região teve em 30 anos um salto de 3 mil
par 150 mil habitantes, entre 1990 e 2020.
Deim. Giz de Cêra. Ponte sobre o rio Paraná. Vila Tiribiçá.
RAPOSO
São Paulo passou por todas as mudanças urbanas
cem anos antes da maioria das cidades brasileiras, com exceção do Rio de
Janeiro, que foi o modelo de reformas no início do século XX, importado
tardiamente das mudança ocorridas em Paris e Londres. A diferença é que na
capital paulista as coisas aconteceram numa velocidade industrial,
admiravelmente acelerada, tanto que não foi apenas descrita pelos cronistas e
poetas, mas também pelos antropólogos, historiadores e geógrafos franceses que
vieram dar aulas nos primeiros anos da criação da USP. As transformações
aconteceram na cidade e também nos arraiais que rodeavam a Capital, as antigas
“freguesias”, acomodadas em fazendas,
sítios, chácaras , nos vales das pequenas serras e nas margens e várzeas
dos rios. Esses núcleos ainda rurais
receberam as primeiras ferrovias e
depois se tranformariam em “largos” dos bondes e finalmente nos viadutos e
estações do metrô. O anúncio de um loteamento, por mais distante que fosse, era suficiente para causar uma inquietação nos
moradores recém chegados e que se aglomeravam nas pensões e cortiços do centro
da cidade. De alguns poucos milhares de
habitantes em 1900, São Paulo reuniu, em pouco mais de 50 anos, centenas de
bairros e numa infinidade de vilas, quase 15 milhões de habitantes .
Como vimos, uma segunda crise familiar nos
levou a São Paulo entre 1984 e 1985. Uma prole essencialmente masculina não se
desgruda do seio materno com tanta facilidade. Não tinhamos irmãs nem cunhados.
Isso dicultou as coisas e retardou as mudanças. As noras que foram chegando
tiveram que se adaptar ou se afastarem. E nós permanacíamos. Nosso destino foi
o Butantã, bairro que um dia foi bem afastado da área central e que depois
abrigou a enorme glema onde foi construída a Cidade Universitária e seus
institutos e faculdades. Ficamos no entorno, entre Osasco e o Morumbi, tendo como acesso
principal a rodovia Raposo Tavares, no Km 6. Ironia do destino, pois essa
rodovia acabava 640 quilômetros depois em Presidente Epitácio. Ocupamos três
apartamentos de um então novo conjunto residencial chamado L”Abitare, com torres modernas de 13
andares, contruidas numa pequena floresta à margem da rodovia. Tinha piscinas e
parques que nunca usamos. O condomínio oferecia aluguéis baratos e tinha como
atrativo principal um hipermercado instalado em frente da portaria, do outro
lada das pistas, mas que dava acesso a loja por uma passarela de pedestres. Na
medida que a demanda pela compra de apartamentos foi aumentando os aluguéis se
tornaram altos e fomos obrigados a migar para o outro lado da rodovia, num
pequeno e mais modesto condomínio; e depois numa grande casa de três pisos na
Vila Gomes, muito próximo ao Jardim Bonfigliolli. Nesse período eu já havia
passado como empregado de uma loja de instrumentos musicais, na avenida
Rebouças e concluía meus estudos na PUC. Dava aulas numa escola da avenida
Paulista e nas filiais espalhadas em vários bairros de classe média: Paraíso,
Aclimação, Pinheiros, Lapa, Santo Amaro, Morumbi e finalmente Alfaville. Minha
mãe decidiu voltar para Epitácio, preocupada com a insatisfação do meu pai com
a cidade. Vivia trancado em casa e se recusava a se integrar no ritmo
alucinado, de sair de casa às cinco da manhã e voltar à meia noite. Lembro que
tentamos comprar um apartamento na Freguesia do Ó, mas meu pai não queria ter
vínculos com São Paulo. Anos mais tarde eu voltaria, casado pela segunda vez,
para morar na Freguesia. Ele queria voltar para sua terra natal e conseguiu.
Porém, morreu apenas quatro ou cinco meses depois de terem se mudado. Nesse
tempo minha mãe morou em três casas em Epitácio.
Permaneci em São Paulo num apartamento na
rua Eusébio de Queiróz, no Paraíso, quase Aclimação. Era horrível, me sentia
muito só e perdido. As namoradas moravam sempre longe e queriam casar pra mudar
de vida. Moravam tão longe que eu não sabia voltar depois de levá-las em casa.
Isso me assustava. Eram vínculos muito frágeis, na minha visão e, vendo o que
acontecia com muitos colegas, desistia rápido dessas relações. Já estava
entrando na casa dos 30 anos e algo mais instintivo me dizia que já estava na
hora de começar a pensar num prolongamento da raiz genética misturado com o
receio da solidão. Foi então que comecei a pensar numa moradia fixa, em um
ninho, sem pensar muito na ideia de que teria que atrair uma fêmea que
estivesse passando pela mesma crise. Voltei a pensar na casa da esquina em
Epitácio, agora sem mini bug e licar de menta, mas com cerveja, whisky, vinhas
e conhaque. Adquirir um imóvel em São Paulo, do jeito que eu queria, fantasia
de cinema, era praticamente impossível. Morar na periferia, nem pensar. Achava
que era um sofrimento desnecessário, embora milhões de pessoas levassem uma
vida tranquila e feliz no arredores da cidade e também nas cidades vizinhas. O
problema era eu. Adorava São Paulo mas estava me sentindo deslocado. Teve uma
época que me tornei expectador do programas sobre negócios. Fazia lanche numa
pequena pastelaria perto do Centro Cultural São Paulo, de um ex-funcionário do
Metrô. Pronto, aquilo se tornou uma referência e partir para o sonho
empreendedor. Meus alunos do colégio do Morumbi e de Pinheiros, só falavam
nisso e vinham me pedir conselhos. Eu fingia que entendia porque via as
tendência no programa de TV e na revistas especializadas. A moda eram as pizzarias
e outros pontos de alimentação fast-food, locadoras de vídeo e o lava-jato. Só
se falava em franquias. Numa viagem que fiz com um colega ao Paraguai, na volta
passamos em Epitácio e via que acidade estava vivendo momento de euforia: termas
de águas quentes, muitos funcionáros da CESP e de grandes empreiteiras mudando
para a cidade. Tive então a ideia de ter uma franquia da nossa escola. Éramos
professores na mesma escola. Ele não quis e acabou indo morar no Canadá, onde
vive até hoje. Eu fiquei com esse pensamento, embora nem soubesse por onde
começar. Mais isso não foi problema. Em menos de dois anos, eu um dos meus irmãos, já estávamos com um escola funcionando em
Epitácio, usando a franquia , sem concorrentes e com muita chance de crescermos
também na região. Foram seis anos de entusiasmo e depois um retundante
fracasso. O que valeu a pena foi voltar
a morar na cidade onde havia nascido, vivido a minha infância e parte da
adolescência. Voltar a ouvir o silencio das ruas e a paisagem do rio foi
deslumbrante. Meus avós ainda viviam e tínhamos muitos parentes e amigos que
também haviam voltado pelos mesmos motivos. Queriam dar um tempo ou viver ali
definitivamente.
Quando troquei o Passat pela casinha de
madeira na rua Curitiba senti que as coisas poderiam acontecer, não do jeito
que eu imaginava, mas aconteceriam de alguma forma. A casinha foi tranformada
numa casa maior, a partir de uma barracão rural, com piscina, edícula e área
grande área de lazer. Tudo simples, mas muito de bom gosto. Interessante que os
pisos eram muito caros na época e optamos pela ardósia escura, que combinou
muito bem com a construção que lebrav as pousadas rurais e de praia. As pessoas
passavam enfrente de casa e só faltavam ser convidarem para entrar e ver o que
tínhamos feito. Queria mais. Queria uma chácara e um grande tereno para
construir uma instalação escolar mais adequada. Comprei do meu avô um terreno
de dois mil metros quadrados. Fiz lá um barracão de obras com madeira e telhas
de uma casa demolidada que minha mãe havia adiquirido através de um consórcio.
A ideia dela era construir uma nova casa no tereno. Nunca foi feita e ele
acabou devolvendo o terreno. Incrível como as coisas não se concretizam quando
não são feitas de forma adequada às regras e à natureza desse negócio. Depois
dessa estadia em Epitácio, finalizada por uma nova crise, tomei o rumo de Campo
Grande uma cidade que conhecia e visitava com frequência. Ali vivi pouco mais
de um ano, tempo de uma campanha eleitoral inciada em março e concluída em
novembro.
Deim. Giz de
cêra. Estação ferroviária do Porto Epitácio.
SÃO PAULO
Na virada do ano de 1998 para 1999 uma nova
crise me reconduziu de Mato Grosso do Sul para São Paulo, capital. Em Campo
Grande tinha morado num bairro de casas muito bonitas. Na cidade as calçadas
são largas e aproveitadas como jardins. A casa que morei pertencia a um
empreiteiro paranense que construia postos de gasolina. Ele queria me vender a
casa, que era nova, boa e muito barata, mas não consegui fazer dinheiro com a
minha de Epitácio para fechar o negócio. Ficava na rua das Garças, esquina com
uma das ruas que cruzam a avenida Mato Grosso, no bairro Santa Fé. Com a ajuda
de um primo, me engajei na campanha de um candidato a governador, que venceu o
pleito. Me ofereceram um cargo na nova administração, porém tinha uma intuição que não ficaria
morando na cidade. Nesse periodo fiz muitas atividades espirituais, fazendo
palestras e elaborando publicações. Cheguei a trabalhar em dois jornais, que
deixei logo, para entrar na campanha politica. Recebi uma proposta de abrir uma
agência de publicidade com o capital de uma gráfica industrial da cidade. Recusei.
Consegui aulas numa organização educacional maçônica, depois de passar por um complicado
processo seletivo, por jogo de influências. Mais uma vez fui salvo por
amigos. Meses antes de sair de Campo Grande,
fui fazer um concurso na Secretaria da Educação em São Paulo. Nas duas longas viagens
que fiz de ônibus, tinha tempo de sobra para estudar os textos das duas etapas.
Eram 16 horas de viagem, 32 ida e volta. Consegui passar. Foi um período de
muitas inquietações íntimas, no qual tinha sonhos simbólicos nos quais era
criança, sempre atravessando as avenidas mais movimentadas segurando as mãos da
minha mãe. Isso acentuou ainda mais a minha vontadade inconsciente de mudar.
Estava envolvido com muitas coisas e pessoas, aparentemente numa situação
estável e promissora, porém intimamente não conseguia me integrar, falta de
afinidade com aquilo tudo. Não era nada de ruim, mas não era para mim. Uma
amiga muito querida, em visita à minha
casa, contou-me que uma pessoa que se
preocupava muito comigo tomou a inicativa de consultar um advinho sobre a minha
situação, logo depois da crise que me fez sair de Epitácio. O vidente descreveu
a ela que eu atravessaría as águas para morar numa grande cidade , mas que
depois, de volta, atravessaria as mesmas águas para morar numa cidade muito
maior.
Voltei para São Paulo sem saber dessa
revelação. Minha mãe estava morando na
mesma região do Butantã, num sobrado enorme, onde me instalei com a minha
estante, meus livros e meu carro, que dormia na rua. Dessa vez a crise foi
forte e teve um forte componente espiritual. Vivia do aluguel da casa de
Epitácio e aguardava a chada do concurso, que só veio em outubro de 1999.
Enquanto isso fazia caminhadas na Cidade Universitária e percorria os pontos
culturais da cidade, quando podia. Que época maravilhosa, apesar da crise
pessoal e econômica que o país estava passando. Vivia cheio de preocupações,
poré tinha muita confiança no futuro.
Voltei a estudar e fui fazer mestrado, decisão
que mudou completamente a minha visão de mundo, pesquisando uma área diversa da
minha graduação original. Da História fui me aventurar na Comunicação Mediática; pesquisa da transposição de texto literário
para texto audio-visual, ou seja cinema, rádio e televisão. Tudo feito com um
grupo de professores da ECA-USP que atuavam no programa de pós-graduação de uma
universidade privada. Nossa turma era uma diversidade bacharelados e os nosso
seminários també, com assuntos de muitas áreas diferentes. Era pago mas acessível, pois ainda não havia
sido reconhecido pela CAPES. Esse título também me proporcionou dar aulas no
ensino superior durante 15 anos. Valeu a pena, mesmo não tendo feito o
doutorado. Nem precisou, pois esse setor sofreu um forte impacto do ensino à
distãncia e retraiu muito o campo da docência titulada.
Nesse período ingressei como professor efetivo
no Estado e trabalhei em duas escolas:
na Vila Guilherme; e na Freguesia
do Ó. Foi nesse bairro que morei,
casado, num prédio vizinho da minha segunda escola. Antes disso morava com a minha
mãe num apartamento de uma grande amiga epitaciana (que foi morar em Cuiabá).
Esse apartamento ficava na rua Baronesa de Itu, na chiquérima Vila Buarque,
quase Higienópolis e Pacaembú. Desnecessário dizer do cosmopolitismo paulistano ali presente e também do imenso
prazer e morar num lugar tão especial. Minha mãe ficou sozinha quando me casei
e um irmão foi morar em Goiânia. Então ela tomou a decisão de voltar para São
Vicente, a convite de uma antiga amiga de Santos. Cansei de tentar uma vaga nas
faculdades paulistanas. Minha filha já tinha 1 ano e a mãe dela, há algum tempo, sonhava em viver
no litoral. Ela tinha um conhecido que
era dono de um prédio de apartamentos no Marapé, em Santos, próximo ao
Orquidário. Não deu outra. Entrei num concurso de remoção e no ano seguinte
estava morando em Santos e trabalhando em Praia Grande. O apartamento do Marapé
era espaçoso e tinha garagem fechada, lugar um pouco degradado, mas com alguns
vizinhos muito solidários e acolhedores, nordestinos e descentes de
portugueses,antigos pescadores e estivadores do porto. Foi da escola na qual
ingressei em Praia Grande que fui ser
vice-diretor no Jardim Solemar. Ali tive
tempo suficiente para ajudar o professor de matemática a fazer uma horta e
também formatei um livro extraído da
minha tese de mestrado. Quando saí dessa escola e fui para outra, em São
Vicente, já lecionava também em uma faculdade e morava num apartamento próprio,
na rua Freitas Guimarães, no Boa Vista.
Deim. Giz de cêra. Brincadeiras de crianças. Vila Tiribiçá.
XV
SEM-FLORESTRA
O desenho “Over The Hedge” conta a história
de um grupo de animais que tiveram suas vidas ameçadas pelos condomínios
suburbanos do EUA. Eles reagem, sob a liderança manipuladora de um guaximim
endividado com um urso mau caráter. É o mundo do crime e da opressão humana transposto
para o universo natural. No Brasil o desenho recebeu o título Os Sem-Florestra,
por razões óbvias. A história dos cercamentos ou surgimento das propriedades
privadas no hemisfério norte - estampado no título orinal- não teria muito sentido. No Brasil tem o rural
MST-Movimento Sem-Terra e também urbano Movimento Sem-Teto, que já teve até
candidato a presidente da república. Mais ainda, no Brasil temos os Retirantes,
categoria social cantada e glorificada na literatura, na música, na pintura e no
cinema - os Absolutamente Sem Nada – e que teve como um dos seus mais
conhecidos representantes alguém que fez carreira sindical e ocupou duas vezes
a presidência da república. Meus avós eram retirantes, do nordeste, do interior
e também do exterior.
É um assunto delicado esse, porque é
politico e contraria interesses poderosos. É um fenômeno mundial e deveras
antigo, desde o êxodo dos hebreus
escravizados no Egito, passando pelas lutas agrárias dos tribunos da
plebe, Caio e Tibério Graco, até chegar
nos dias atuais com as políticas demográficas e habitacionais que nunca dão conta
do problema. Que família pobre brasileira concordaria em ter apenas um filho,
como é lei na China? Diriam, com toda razão: “Não vamos ser pobres a vida
inteira e nossos filhos serão difrentes de nós”. Talvez esse seja o real motivo
de ter tantos chineses vivendo fora China. Todos querem casar e ter casa para
viver. Presidente Epitácio já teve o maior acampamento Sem-Terra do mundo. Teve também conflitos de
terras na época do regime militar e assentamentos durante os governos
democráticos. Parece que as coisas se estabilizaram, pelos menos por enquanto.
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que já trabalhou na ONU e rodou o
mundo registrando o deslocamento das populações sempre foi defensor do MST. Ele
sempre lembra nas suas entrevistas que esse movimento é o único no mundo a
pregar a volta do homem ao campo.
Mas a volta do homem ao campo vem sendo
adiada. A maioria prefere a cidade, pois ela é o símbolo da felicidade
contemporânea, o cenário onde os sonhos se realizam. As cidades brasileiras não
conseguiram fazer subúrbios gigantescos. Até tentaram, mas logo eles estavam
conurbados com a cidades que os expulsaram. Os subúrbios ricos também
conurbaram. Os pobres sem teto não se conformam com a quantidade de imóveis
fechados e sem uso. Nas praias os imóveis ociosos de lazer
não são muito úteis porque são muito distantes dos locais de trabalho.
Seriam , se fossem realmente ocupados por moradores locais. É uma eterna
questão dramática sobre o direito de moradia. Qualquer política governamental
que atinja interesses privados gera mais conflitos e negócios de especulação.
Mas devem ser feitas.
Quando saí de São Vicente em 1985 para
morar em São Paulo, a Baixada Santista ainda sofria uma intensa demanda de
moradias, provocada principalmente pelos migrantes nordestinos. A construção da
rodovia dos Imigrantes e a expansão do parque industrial de Cubatão foram o
ápice desse deslocamento populacional, iniciado com a rodovia Anchieta nos anos
40 , a intalação do polo industrial nos anos 50 e também a expansão imobiliária
nas orlas litorâneas, nos anos 60 e 70. A
construção civil praiana era essencialmente “baiana”, apelido genérico dos
migrantes nordestino. Já haviam favelas em todas as cidades da região, porém ,
a partir dos anos 80 elas se acentuaram. As pressões aumentaram e se
desclocaram para a área continental, antes praticamente desocupada. Três mil
famílias foram instaladas no conjunto residencial Humaitá, há quase 30 quilômetros de Santos. Não foi suficiente. Nas
duas décadas seguintes ocorre uma explosão de ocupações de terras em antigas
áreas públicas do Distrito do Samaritá, especificamente nos bairros Rio Negro,
Rio Branco e uma extensa área de pastos de quarentena de gado, já então
denominada Quarentenário. E mais recente formou-se ali também um grande núcleo
de ocupação conhecido como Fazendinha, com contruções barracos a perder de
vista , comunidade com leis próprias até que o poder público interfira com
projetos de reconhecimento e legalização.
Quando voltei para São vicente em 2.002 esse
novo cenário urbano já estava montado e sendo altamente explorado pelos segmentos
politicos, imobiliários e também criminosos. Um cenário de invasões violentas e
de alto risco sanitário e ambiental. A
grande maioria dos habitantes que ali se instalaram são retirantes nordestinos
ou seus descendentes. Aos bairros não são nada agradáveis aos olhos, por mais
que a prefeitura e muitos moradores se esforcem em dar um toque de urbanização.
São construções espantosas, sem nenhuma regra técnica e estética. Favelas
horizontais a perder de vista, com todos os problemas decorrentes dessa rápida
e irregular ocupação.
Este é um cenário reduzido, próximo de onde
onde vivo, mas que traduz exatamente o que acontece em todo o mundo. Cada vez
mais mais torna-se dfícil morar. Nossa espécie não consegue construir e manter
ninhos seguros e permanentes. Não conseguimos ter poucos filhotes nem mandá-los para o mundo no tempo
certo, como fazem os animais. Construímos aglomerados familiares que desafiam
as leis civis e de convívio.
Creio que no futuro, se não houver um recuo
radical ou natural na demografia humana,
teremos um cenário horroroso nas cidades, mais ou menos parecido com aquela
visão apocalíptca de Los Angeles no filme Blade Runner: favelas com edifícios
de 80 a 100 andares, torres repletas de pequenos espaços ocupados por milhares
de famílias.
Poderemos ter também um colapso e
mortandade em massa, causada por epidemias e guerras bacteriológicas, ou então
desastres ambientais Poderíamos morar nos campos, sermos felizes sem essa febre
consumista, vivendo com o estritamente necessário, como alertou a tartaruga
Verne ao seu pequeno grupo de animais perfeitamente integrado à Florestra. Mas
não, caímos na conversa dos traficantes de cultura e resolvemos que a cidade é
a única forma possível de vida em nosso planeta. Queremos ser cidadãos,
urbanos.
Vai durar até quando essa forma de pensar e
de agir?
Certamente quando as cidades acabarem, seja
lá como for.
Deim. Aquarela.
Casa da Vila Tiribiçá.
XVI
NA RUA
Quando a Família Real de Portugal fugiu
para o Brasil, a cidade do Rio de Janeiro passou por uma situação inédita. Eles
não vieram sozinhos e sim com a Côrte, composta de dezenas de famílas que
faziam parte da nobreza e do sistema de serviços burocráticos do Estado. Todos
estavam nos navios da marinha inglesa
que os trouxeram sob sua proteção.
Quando desembaracaram com suas
imensas bagagens, descobriram ou já sabiam que a cidade não tinha moradias
suficientes para abrigar tanta gente importante. Os moradores do Rio ficaram de
orelha em pé, pois sabiam que aquela situação certamente traria problemas para
os propriéatrio das casas mais atraentes confortáveis. E assim aconteceu.
Diante das reclamações insistentes e
urgentes de alguns membros da Côrte, o Príncipe Regente D. João VI emitiu um
decreto confiscando os imóveis considerados de interesse real, para serem
ocupados pelos seus funcionários. Os ordenanças realizavam as prospecções,
faziam as devidas vistorias,
classificando os imóveis de acordo acordo com as novas categorias de ocupantes,
rejeitando ou colocando um selo real com a sigla “PR”, que significava Principe
Regente. No imaginário popular carioca essas duas letras logo tomaram o sentido
jocoso, para esculachar os seus donos: “Ponha-se na Rua”.
Devia ser um desespero, pois o despejo até
então era somente para os esculachados e caloteiros de aluguéis. Agora o
feitiço tinha se voltado contra o feiticeiro. Vingança gostosa do populacho,
mas que não refletia o todo para sempre da sociedade.
Dias
desses fui a São Paulo com a minha filha. Ela levou a máquina fotográfica para
descolar umas imagens urbanas diferentes. Depois do compromisso, fizemos uma
rápida caminhada pela rua do centro. Da rua Maria Paula subimos a Brigadeiro
Luiz Antônio e numa certa altura entramos num viaduto que nos levou à rua Vergueiro
e finalmente na Liberdade, tradicional reduto oriental. Seguimos em direção à
Praça da Sé, olhando e observado tudo que era possível e novo aos nossos olhos.
Foi uma caminhada rápida e apressada, pois já era fim de tarde de outono e não
queria voltar ao estacionamento onde deixamos carro quando já estivesse escuro.
Na ida o que nos chamou a tenção foram algumas pessoas agrupadas nas calçadas
em franca conversa, tonando cerveja e ouvindo música. Não eram bares, mas
moradores de cortiços iniciando um fim de tarde e uma noite de lazer. Era
sexta-feira. O plano era darmos uma volta , passando pela Prça João Mendes e
descer o Viaduto Dona Paulina até a esquina da Brigadeiro com a Maria Paula.
Assim fizemos. Como demoramos um pouco na Liberdade, ao voltamos ao ponto
inicial já estava escurecendo. Foi então que vimos uma cena inédita para quem
ficou alguns anos sem ver o que havia acontecido
em São Paulo após 2016: uma multidão de moradores em situação rua sob a marquises e se recolhendo para passar a
noite. São Paulo sempre teve muitos moradores de rua, mas nunca nessa
proporção. A multidão era multidão mesmo, aglomerada como se fosse uma fila de
cinema. É possível que ali próximo fosse um ponto de distribução de alimentos,
dessas sopas levadas por grupos
organizados; ou então que tivese um núcleo assistencial fixo nas redondezas.
Sabíamos que as áreas centrais das
cidades tem muita oferta de comida, de esmolas e sobretudo das sobras que vão
para o lixo, daí a concentração maior de habitantes que estão nessa situação.
Mas para nós foi assustador, sobretudo
pelo aumento da sensação de abondono que sentimos ao ver todas aquelas pessoas
que não souberam contornar suas crise e entraram declínio. Não lembro de ter
visto crianças, mas havia muitos casais. Uma cena muito triste. Na medida que
subimos a Brigadeiro, vimos muitas barracas sendo montadas, nos espaços de
lojas fechadas, que também eram muitas. Nunca senti tanta vontadade de voltar e
estar em casa.
E voltando, conversamos sobre como é viver
nas ruas e quais as possíveis soluções para isso. Falamos também sobre pessoas
que não querem sair dessa aituação, pois perderam a capacidade e a vontade de
reconstruirem seus lares. Seus mundos internos estão desorganizados e precisam
encontrar primeiro as soluções íntimas antes das soluções sociais. Mesmo assim,
elas precisam de um mínimo de condições que possa manter nelas a dignidade
humana, em forma de abrigos e serviços permanentes de amparo. É uma esperança e
uma chama que deve ser mantida acesa. Se apagar, é possivel que a humanidade
também se apague, para sempre.
Deim. Giz de
cêra. Torsa de madeira no Porto Epitácio.
XVII
EM PÉ
Quando saímos da casa*
onde dormíamos ainda era noite alta e nossa sorte foi que a lua resolveu
nos ajudar escondendo-se para aumentar a escuridão. O silêncio da mata era bem
menor que as nossas pisadas leves e rápidas, pois só carregávamos pequenas
porções de comida, algumas mangas e pedaços de mandioca crua. Estávamos
descalços. Seguimos os passos rápidos do Pai e os movimentos atentos da Mãe,
sem olhar para trás ou para os lados. Noite de muito medo e angústia. Tínhamos
que sair dali o mais rápido possível para tentar chegar até estrada e dar a
sorte de encontrar um caminhão que nos levasse até um lugar mais seguro.
Rezávamos para que os latidos dos cães da fazenda fossem comuns e não
denunciassem a nossa fuga. Fizemos o trajeto fora dos piquetes e das porteiras
e tivemos que dar uma volta bem mais longa, para não correr o risco de sermos capturados. Poderia até chover e cair raios
que para nós seria motivo para ganhar tempo. Quando nos afastamos uma boa
distância, o Pai pôde falar e só repetia que tínhamos que correr até não poder
mais. E corremos, fugindo e buscando um lugar para nos escondermos, caso fosse
necessário parar e descansar alguns minutos. Não encontramos nenhum e não
descansamos. Só parávamos para ver que rumo o Pai tomava e até hoje nunca
descobrimos como ele nos conduzia e como escolhia a direção. Não havia tempo
para perguntas. Só havia medo e dúvida.
Passamos seis meses naquela fazenda e quando ali chegamos tínhamos
somente a roupa do corpo. Quando saímos tínhamos menos do que isso e um enorme
dívida com o capataz. Dívida que nenhum trabalho conseguia pagar. Por isso
corríamos sem parar e sem descansar porque, se voltássemos, as coisas ficariam
bem piores do que já estavam.
Durante muitos anos sonhei com essa fuga, com a escuridão e
com cobras enormes cruzando os nossos caminhos e insinuando que deveríamos
voltar, pois dali não sairíamos vivos. “Melhor a escravidão do que a
morte”. O medo e angústia só acabavam
quando o sonho era interrompido. Penso nos que não tiveram coragem ou
oportunidade de fugir desse destino vaticinado pelas serpentes negras dos meus
sonhos. Não lembro de como o Pai nos tirou dali. Apaguei essa memória e nunca
tive coragem de perguntar para a Mãe como chegamos aqui. Continuamos andando,
sempre correndo contra o tempo, matando a fome, a sede, o frio, do jeito que
era possível. Ainda vejo o Pai avisando a Mãe e ela nos chamando para ir para
algum lugar que ela nunca sabia onde era, mas confiava nas decisões dele, pois
até ali continuávamos vivos, embora com menos medo e sem a angústia daquela
noite. A fome não incomodava mais. Foram tantas viagens, tantos lugares, tantas
chegadas e partidas que perdi a conta e a noção se estávamos indo ou voltando.
Não éramos de nenhum lugar. Éramos do mundo e o mundo era tão grande que
poderíamos ir onde quiséssemos. Pensava assim quando comecei a pensar sobre nós
e sobre as coisas. Ainda não pensava nada sobre mim. Cada noite dormida e cada
manhã acordada desmanchava esse pensamento e construía outro, na medida em que
mudávamos de lugar. Teve um momento que comecei a pensar que poderia chegar a
algum lugar e não ir mais para lugar nenhum. Minha mãe pensava isso, mas não
podia falar. Ela só dizia pelos olhos e, quando percebia que eu estava tentando
adivinhar seu pensamento, ela desviava os olhos para outro assunto. Os olhos do
Pai eram perdidos e não diziam nada. Nunca disseram. Não conseguia enxergar
nada além daquele dia que começava de manhã e terminava à noite.
Comecei a perceber que as coisas mudavam quando descobri que
algumas crianças moravam em algum lugar e nós morávamos em lugar nenhum.
Morávamos na rua durante o dia, noutra
rua durante a noite e no dia seguinte
não sabia qual rua iríamos morar. Pelos menos dormíamos e acordávamos sem medo
e sem aquela angústia da noite que nunca terminava nos meus sonhos. Mas um dia
terminou e nunca mais sonhei com aquelas cobras que insistiam que nós não
éramos ninguém e que nunca ninguém se importaria conosco. Foi quando passei a
andar em pé. Antes achava que estávamos sempre no chão, nos arrastando de lado
para o outro. Foi na escola que percebi que as pessoas ficavam paradas em pé sem
se incomodarem com aquela posição. Tinha medo de ficar em pé, como elas. Elas
tinham lugar onde morar e podiam ficar em pé. Eu achava que não era permitido
ficar em pé se você não tivesse lugar para morar e sentar. Quando a professora
mandava ficar em pé para ir até a lousa ou responder perguntas, ficava pensando
até quando isso iria durar. E fui acostumando a ficar mais tempo em pé e
tomando gosto pelo costume dos meus colegas de escola e de todas aquelas
pessoas que fomos conhecendo na cidade onde demoramos mais tempo sem se mudar.
Quanto mais aprendia coisas na escola, mas queria ficar em pé. Pai e mãe não
queriam ficar em pé, porque não era preciso mais andar e correr da fazenda.
Sabiam que logo sairia andando pelo mundo, sozinha, pois estava perdendo o medo
de ficar em pé. Teve um dia que descobri que não eram as minhas pernas que me
faziam ficar em pé. Quando aprendia uma coisa nova, não tinha vontade de
sentar. Queria ficar em pé e saber mais coisas. As pernas ficavam fortes e a
cabeça leve. Um dia tive absoluta certeza disso quando, pela primeira vez, ouvi
alguém falar da lei da gravidade, que nos mantinha presos ao chão. Pensei,
então quem fica em pé não obedece essa lei. Eu estava ficando cada vez mais
desobediente. Por isso a Mãe ralhava comigo de vez em quando, porque percebia
que eu queria ficar mais tempo em pé.
Mas precisava encontrar um lugar onde pudesse arrumar um
jeito de ficar em pé sem ter que ficar mudando. “Difícil. Muito difícil”,
pensava. Foi isso que o Pai procurou a vida inteira e acabou indo para a outra
vida sem ter conseguido o que buscava. A mãe pensava que era o destino dela e
também o nosso. Comecei a pensar que ninguém sabia com certeza qual seria o
seus destinos. Precisava descobrir um caminho, mesmo se não soubesse exatamente
onde iria parar, pois nesse percurso era possível que encontrasse um bom motivo
para ficar em pé. O Pai, de vez em quando, ficava cismado e arrastava a gente
para algum lugar onde pudesse parar de andar. Não teve sorte ou não conseguiu
enxergar a chance. Fomos para naquela fazenda porque disseram para ele que o
governo estava dando terras para quem tinha vontade de trabalhar. Era uma
cilada. Isso também aconteceu comigo quando vim para a Área Continental. Achei
que era uma cilada o boato de que tinha terrenos grandes, sem dono, que estavam
sendo retalhados e ocupados sem nenhum impedimento. Quando fiquei com vontade
de ver como estava acontecendo tudo isso tive também aquela sensação de medo e
de voltar a sonhar com as cobras. Mesmo assim decidi enfrentar o medo e
resolver tudo em pé.
Em pouco tempo tudo estava resolvido. Estava morando num lugar que escolhi, que
podia dizer onde estava morando e que poderia decidir nele quanto tempo eu
quisesse. Vi também que muitas pessoas caíram em ciladas e tiveram que sair
correndo dali exatamente como nós quando saímos da fazenda. Ficava com dó, mas
não podia fazer nada, porque aquelas pessoas não conseguiam se manter pé.
Tiveram que fugir da Fazendinha, o nome do novo lugar onde foram morar as
pessoas que não eram de lugar nenhum, como eu. Nas conversas com os novos
vizinhos sobre as nossas histórias e caminhos, sempre me lembrava da fazenda da
qual fugimos, talvez muito maior do que todas as cidades da região, comparada
com esse lugar que passei a chamar de Fazendinha. O apelido pegou. Não perdi a
mania de querer ajudar. Sempre que posso, mando fazer uns panfletinhos para
distribuir no centro da cidade, no início da noite, para os que estão no chão,
prontos para dormir:
“LEVANTE-SE. FIQUE EM PÉ.
Pelo menos por um dia, tente ficar em pé o máximo de tempo
possível. Fique no chão apenas quando for dormir ou descansar. Levante e ande
sempre que puder, de cabeça erguida. Se desanimar, olhe para o Alto e peça
forças para suportar o peso do seu corpo e da sua prova. Conte o dia e as horas
que conseguiu ficar em pé. Cada vez e cada dia que você fica em pé é um grande passo e uma grande vitória em sua
vida”.
*Relato baseado na história de uma amiga que, depois de
passar por tudo isso, se tornou mãe, avó e educadora profissional.
Deim. Aquarela. Casario e cedros da Vila Tibiriçá.
XVIII
GRADES
Também na região central de São Paulo, como em muitas
cidades do Brasil e do mundo, surgiu o fenômeno cracolândia, uma população de
rua com características específicas, que
se aproximou e reuniu por afinidade e tendência social de convívio e proteção. São
dependentes químicos, diferenciados dos alcoolistas e outros vícios menos conhecidos, que buscam ali exclusivamente o consumo de drogas.
Todo ser humano que entra em crise social tem um forte componente de
desorganização emocional e consequente desequilíbrio mental. Os habitantes da
cracolândia não são diferentes de nós. A única diferença está nos interesses.
Enquanto nos interessamos por conforto, comida e privacidade e fazemos disso um
propósito único em nossas vidas, eles se interessam por drogas, que é para eles
um ponto de fuga essencial para suportar uma realidade que não conseguem
enfrentar. Quem fuma, sabe que fuma não somente porque é elegante e gostoso. Quem bebe também. Quem faz compras
desnecessárias ou esbanja dinheiro com qualquer outra coisa, sabe que as coisas
não estão muito organizadas dentre de si e que essa situação um dia poder
graves consequências quando não houver mais controle ou disponibilidade de
recursos. A diferença é que a cracolândia é um hospício a céu aberto, aos olhos
da sociedade e das autoridades impotentes, porque não sabem ou não querem
aprender a lidar com aquela situação. Solução ou alguma forma paliativa tem,
mas parece que não é conveniente. Quem não se lembra da cena da guarda usando a força dispersiva para
limpar a cracolândia e alguns dias depois constatar que o grupo se reuniu com a
mesma facilidade com que se dispersou. Claro que o extermínio passou e passa
pela cabeça de muita gente como “solução final” do problema. Mas sabemos que é
mais uma falácia dos que ignoram a lei
de causa e efeito. Pouca gente se lembra
de que a população das cracolândia já fez parte da população carcerária ou
manicomial. Prisões de corpos não significa a mesma coisa que aprisionar
mentes. Uma solução não começa pelo efeito do problema. Ninguém quer manter,
muito menos libertar corpos criminosos. Mas é possível libertar mentes. Sempre
há uma possibilidade e um caminho nesse sentido e que funciona para muitos que
ingressaram no crime e conseguiram transpor
honestamente os portões das prisões. Pequenos gestos e estratégias de ação podem
fazer a diferença e desmontar aos poucos algo de aparência monstruosa, mas que
na realidade é apenas um coletivo de muitas coisas pequenas mal conduzidas e
que se acumulam com a nossa indiferença
e pessimismo. A educação social feita com inteligência pode compreender e
melhor oferecer soluções sóbrias e mais responsáveis. Oportunidades bem geridas
e conduzidas podem gerar transformações
muito positivas. É claro que nem tudo é
perfeito e que há sempre algo que não dá certo e que não funciona, mas sempre
existe outra via e também outra etapa a
ser cumprida na existência e no convívio humano. Não há portas definitivamente
fechadas e trancadas para sempre.
Deim.
Giz de CE. Pôr do sol no antigo Figueiral.
XIX
ÍNDIOS
Numa ocasião estávamos visitando uma exposição de objetos
indígenas no salão da A.A. Epitaciana e tivemos uma experiência muito curiosa:
uma mulher de uns 25 anos de idade, com fortes traços indígenas percorria o
salão falando sozinha, pronunciando frases aparentemente desconexas. A pessoa
que estava conosco reclamou que estava sentindo um sono incontrolável e nós
mesmos não parávamos de bocejar. Enquanto isso a mulher reclamava em voz alta,
na língua tupy, e fazia gestos de indignação. Percebemos, então, que não se
tratava de uma pessoa com problemas mentais. Na exposição havia objetos
funerários de cemitérios indígenas encontrados durante as obras da CESP na
região e recolhidos por pesquisadores. A mulher provavelmente estava
mediunizada e, de forma agressiva, protestava contra aquela exposição, para ela
uma violação de coisas sagradas do seu povo. Lembramos que alguns anos antes,
quando esses objetos foram encontrados e levados pelos pesquisadores da Unesp,
escrevemos no jornal local um pequeno artigo sobre o fato reclamando que os
objetos deveriam permanecer em Epitácio. Na época fomos repreendidos por
algumas pessoas que achavam que não havia necessidade para tanta hostilidade
com os pesquisadores. Entendemos, naquela exposição, o que estava acontecendo.
O mundo espiritual e mágico dos índios ainda estava bem vivo e fazendo
cobranças sobre o desrespeito com as suas tradições. O sono e os bocejos não
eram efeitos do acaso. Objetos sagrados e antigos possuem saturações magnéticas
poderosas, produto psíquico dos cultos e crenças que ficam impregnados sobre os
mesmos. Sempre temos esse tipo de sensação quando entramos em sebos de livros,
antiquários e museus. Móveis usados e roupas de brechós também possuem essas
cargas magnéticas, sobretudo peças de pessoas que já desencarnaram. Várias
pessoas já nos confessaram ter a mesma impressão. Naquele dia tivemos receio de
que poderia acontecer algo parecido com o caso dos arqueólogos ingleses que
violaram o túmulo de Tutancâmon, no Egito. Eles foram sendo misteriosamente
mortos por doenças contagiosas, talvez causadas pelo fato de terem alterado
magneticamente suas defesas naturais. Pensamos, para nos tranquilizar: deve ser
somente um protesto.
Ainda continuamos convictos que, mais cedo ou mais tarde,
toda essa dívida dos colonizadores deverá ser resgatada. Uma enorme legião de
espíritos silvícolas que no passado foram violentamente expulsos de suas
terras, em todo o Brasil, em diversas épocas, agora faz parte de um grande
movimento social de reocupação de seus antigos territórios assaltados pelos
antigos posseiros e “bugreiros”. Os
descendentes dos posseiros, hoje também organizados em entidades ruralistas, se
reencontram com antigos inimigos para ajustar velhas contas que não foram
pagas. No estado de São Paulo essa trama cármica está concentrada
principalmente no Pontal do Paranapanema, antigo cenário dos violentos
massacres (Dadas) dos posseiros ali introduzidos pelos conquistadores mineiros
no século XIX, como foi o caso de José Theodoro de Souza. Antigos contendores
como fazendeiros, missionários, bugreiros, funcionários públicos e líderes
indígenas hoje estão reencarnados em diferentes papéis e posições como
fazendeiros, juízes, promotores, políticos, líderes dos MST, cada qual cobrando
o que lhe é devido ou resgatando seus antigos débitos. Recentemente, por meio
de notícias mediúnicas dadas por uma guia espiritual, atuante nessa região,
fomos informados de que a construção de presídios no Pontal, os conflitos
fundiários e jurídicos, a formação de quadrilhas de criminosos para explorar a
prostituição, as drogas, extorsão, roubos ao patrimônio público e privado,
fazem parte de um grande processo de reajuste cármico de Espíritos, índios,
caboclos e aristocratas rurais que ali cometeram graves crimes em outras
épocas. O mesmo tem ocorrido no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e
região Norte e deverá ocorrer com mais ênfase onde se efetivaram os genocídios
históricos. Alguns desses compromissos cármicos são mais antigos, com no caso
da grande região de Guarapuava (PR). Na época imperial, em 1811, o governador
da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta (responsável pela
comarca de Paranaguá – o Paraná não havia sido criado) implantou uma política
sócio-educativa judicial que incentivava e até impunha o casamento misto entre
os condenados e índias, já que havia uma enorme desproporção entre homens e
mulheres naquela vasta região. A ideia da medida era povoar o mais rápido
possível esse território disseminando as famílias sertanejas. Assim, a cidade
recebia degredados brancos (a maioria homens mestiços) e estes, sem opção de
parceiras sexuais, contraíam vínculos afetivos e matrimônio com adolescentes
indígenas, passando a formar famílias miscigenadas. Muitos desses degradados
entravam em confrontos violentos com índios que não aceitavam essa imposição e
se tornaram membros de grupos de bugreiros. Chamou particularmente a nossa
atenção nessa trama geopolítica o caso de oito desses degredados, relatado pelo
historiador Fábio Pontarolo (Homens de Ínfima Plebe). Eram militares que se
rebelaram em Santos (SP), em 1821, por causa dos baixos soldos e que haviam
promovido uma quebra-quebra na cidade. Condenados, foram obrigados a residir
nessa então isolada e distante colônia paulista. Eram em sua maioria
analfabetos e tinham em torno de 19 anos de idade. Curioso lembrar que nessa
região (Cantanduvas) foi construído recentemente um importante presídio
federal, destinado a abrigar criminosos de alta periculosidade, considerados
como verdadeiros inimigos públicos. Espiritualmente, pela lei de afinidade, os
presídios funcionam como escolas de reajuste tanto para condenados como para os
que ali trabalham direta ou indiretamente em função deles.
É fato que muitos
espíritos criminosos (indígenas e brancos) já voltaram e ainda voltarão
“reencarnados” nas boas famílias da região, em posições socialmente invertidas,
para acertar essas contas com as pessoas e com a sociedade que lhe causaram
prejuízos materiais e morais. Esse fenômeno também vem acontecendo nas três
Américas, quando muitos indígenas maltratados e corrompidos pelos colonizadores
voltam como filhos problemáticos das mesmas famílias que os prejudicaram no
passado ou então como imigrantes. Muitos deles se tornam criminosos em ações
contra o Estado ou contra as instituições que os humilharam. Geralmente são
autores de tragédias terroristas e ações violentas em estabelecimentos
públicos. Na América espanhola foi registrado os conhecidos casos dos
caudilhos, ditaduras militares, revolucionários marxistas e mais recentemente
os célebres guerrilheiros que se tornaram narcotraficantes, com foi o exemplo
do grupo indígena Sendero Luminoso, de antiga tradição indígena. Ernesto “Chê”
Guevara foi um típico “branco” de alma indígena destinado a lutar até morte
pelos seus ideais socialistas, porém intimamente vibrava nele um sentimento de
vingança contra as injustiças cometidas nos tempos coloniais. Os mais célebres criminosos dos EUA eram
antigos líderes africanos e indígenas reencarnados entre os imigrantes
irlandeses e sicilianos radicados na América do Norte.
A presença de
descendentes diretos dos colonizadores portugueses na ocupação dessa região
também não foi uma coincidência. A nossa ligação com São Vicente também não é
produto do acaso. Era de lá que partiam as primeiras expedições bandeirantes em
busca da riqueza do interior. Como a maioria dos habitantes de Epitácio, sou
descendente de migrantes nordestinos (negros e mestiços) e imigrantes europeus.
Meus pais casaram-se em 1954. Em 1955 nasceu meu primeiro irmão, Carlos
Maurício; em 1957 nasceu o segundo, Hélvio; em 1958 nasceu o terceiro,
Guilherme; em 1959 nasceu o quarto, Nilton. E finalmente, pelas mãos da velha
parteira espanhola de Santo Anastácio, Dona Dolores, foi a minha vez: em 23 de
agosto de 1961, às 5:30 da manhã, há apenas alguns horas antes da famosa
renúncia de Jânio Quadros.
Minha mãe teve cinco meninos, em casa, sem frescura e sem
cesariana. Nossas parteiras foram Dona dos Anjos, migrante do sertão de Minas;
e Dona Dolores, espanhola de Santo Anastácio. Em 1973 nossa família adotou um
menino, Natalino, vindo de uma numerosa família de ribeirinhos do antigo Porto
XV, do lado sul-mato-grossense do rio Paraná. Coisas do “destino”. Todos esses
nascimentos foram supervisionados pela “Madinha Manoela”, bem como os primeiros
e melhores anos de nossas existências. O Dr. Alberto era o médico da família, aliás, de todas as
famílias. Era pioneiro na cidade e um excelente clínico geral, de boa memória.
Perguntava pra gente quem eram os pais, deduzia quem eram os avós e dava o
diagnóstico.
Maurício Xavier Duque e Carlos José dos Santos, meus avôs,
eram negros. Maria Pesqueira Duque era descendente de portugueses e índios; e
Verônica Szucs imigrante húngara da Colônia Arpad. Próximo a Caiuá, a 16
quilômetros de Epitácio, existiam várias colônias européias. Na colônia Arpad
as Igrejas também eram diferentes, uma ortodoxa e a outra romana. Meu bisavô
paterno, Marcus Szucs, era comerciante, dono de armazém e de um alambique.
Gostava de uma boa cachaça e também era músico. Nessa Colônia húngara
aconteciam bailes nas noites de sábado, frequentados pelos meus dois avôs frequentavam.
Meu avô Maurício, baiano de Malhada, tinha fama briguento e sempre arrumava
muita confusão nesses bailes. O “carioca” Carlos dos Santos (tinha sotaque
porque havia vivido no Rio por alguns anos) era um gentleman, sempre vestia
ternos de linho branco impecáveis. Era culto, político e sempre atento aos
acontecimentos que geravam oportunidades. Foi juiz de paz, vereador,
proprietário de um cinema em Tibiriçá e articulista de jornal. Foi ele quem
iniciou nossa família no Espiritismo. Na casa dele, onde se faziam reuniões
mediúnicas, tinha uma estante com livros de Allan Kardec e muitas outras
publicações espíritas, distribuídas na região pelo ativista João Pitta e também
por João Machado, de Santo Anastácio.
Deim. Giz de
cêra. Parque Figueiral. Vila Tiribiçá.
XX
GONZAGA
Quando tranquei pela última vez a porta da casa da rua Rio
de Janeiro para ir ao trabalho ou para a faculdade, não me lembro, senti uma
profunda solidão e tristeza. Tínhamos morado ali durante dez anos. Não lembro
também se levei a chave ou deixei com algum vizinho. Os momentos dolorosos,
quando humilhantes, são muito difíceis de lembrar. Já estava com um apartamento
alugado em Santos, na pequena rua Pereira Barreto. Nessa época ainda não
existia o Shopping Praia Mar. Era um apartamento de um dormitório, no décimo
andar, cuja vista da sala era o entorno do canal 2 na direção dos morros. Nessa
janela, mastigando um quibe e tomando um refrigerante, senti pela primeira vez
estava só e precisava aprender a me virar sozinho.
Na rua Marechal
Deodoro tinha uma drogaria que já era muito moderna para os padrões brasileiros:
uma loja de conveniência e com um restaurante. As pessoas achavam aquilo tudo
muito estranho, inclusive eu, talvez porque era tudo meio escondido, sem
janelas para a rua. Fui uma ou duas vezes almoçar lá e fiz amizade com o único
cozinheiro da farmácia. A solidão dele e o nossos papos produziam grandes e
saborosos filés que não estavam no cardápio. Algum tempo depois a conveniência fechou e voltou ao ramo dos
remédios.
Mas foi também um período de alegrias e descobertas.
Estudava à três quadras, na antiga sede da Unisantos, na rua Euclides da Cunha.
Era o segundo ano do curso. Uma turma maravilhosa, muitos jovens misturados
com adultos, alguns já idosos, buscando
conhecimento e alguma realização pessoal. A presença dos adultos dava um tom
diferente no tratamento que recebíamos dos professores e da direção da
faculdade. Fiz amigos que até revejo com alegria e ótimas lembranças. Alguns já
faleceram, pois era bem mais velhos do que nós. Curso que dos colegas mais
jovens e mais alegres faleceu no apogeu da sua carreira. Chamava-se Nero, o
imperador do riso e das piadas. Era sobrinho do prefeito da cidade. Foi muito bom enquanto durou. Na passagem
para o terceiro ano tive que abandonar a turma.
Tudo era novidade, numa época das primeiras transformações científicas
e tecnológicas. Ainda não havia
computadores no mercado, nem CDs. Os discos de vinil ainda iriam durar
muitos anos. O trabalho na fábrica de
Cubatão e muito cansativo, todo braçal, chegava em casa esgotado e morto de
sono. Mesmo assim, nas horas de folga, curtia tudo que havia de bom e ao meu
alcance no Gonzaga: os cinemas, as lojas, os eventos na praia, as lanchonetes.
Tudo sozinho. Parecia que os amigos antigos haviam sumido e ainda não sabia
lidar com os novos. Na verdade aqueles amigos também estavam passando por
crises e mudanças e deviam também estar sofrendo de solidão. Essa vida meio
deslocada e solitária foi em poucos meses me deixando perturbado. Percebi que
uma nova crise estava surgindo. A fábrica começou a me cobrar um desenvolvimento
que não era da minha natureza e do meu projeto de vida. O que um universitário
– na época um status raro e difícil de alcançar- esperava daquele universo
industrial, completamente diferente da área que havia escolhido para estudar e
trabalhar? A pressão exigia um posicionamento urgente, com a definição de um
cargo fixo na empresa e que era muito disputado pelos iniciantes. Aquilo não me
agradava. Meus colegas estava ficando noivos, casando, constituindo família e formando lares. Me
tratavam bem, porém me olhavam com um
jeito estranho, misto de admiração e desconfiança. A repetição mecânica do
serviço me incomodava e me fazia cometer erros básicos. Pensei, repensei. E
decidi jogar a toalha e partir para o meu destino original: faculdade de
História, não mais em Santos, mas em São Paulo.
Fiz as últimas provas e subi a Serra, não sem antes passar
por uma situação muito desagradável, porém engraçada. Ao terminar a última
prova na faculdade fui para a rodoviária e lá tive uma ingrata surpresa. Estava
sem dinheiro suficiente para a passagem. Já eram quase dez horas da noite e não
tinha como pedir ajuda a nenhum conhecido. Entrei numa banca de jornais e
souvenirs e pedi ajuda para um cliente que olhava as revistas. O dono da banca,
pensando o que para ele era óbvio, saiu aos gritos comigo me expulsando do
local. O cliente ficou tão espantado que sugeriu que saíssemos juntos. Me deu o
dinheiro que precisava e me desejou boa sorte. Ufa! Antes que ônibus chegasse na Serra fui tomado
por outra surpresa: como iria chegar na casa minha mãe, já que o dinheiro que
tinha recebido só era suficiente para o ônibus? Peguei a carteira no bolso na vã tentativa de
achar algum a mais que poderia não ter visto naquela confusão toda. Nada. Mas
tinha um bilhete múltiplo do Metrô.
Consegui terminar a viagem, mas ainda apreensivo com a
última etapa. Desembarquei no terminal
Jabaquara e segui até o terminal Sé ou Bandeira (não lembro se já existia), mas
lembro ter subido a Ladeira da Memória até a rua Xavier Toledo, onde ficava o ponto
final do ônibus municipal Boa Vista, que já conhecia de outras vezes que
visitei minha mãe. Parei na calçada, olhei o relógio e vi que já se aproximava
da meia noite. O movimento na rua foi diminuindo rapidamente, pois o Mappim já
estava fechando as portas. Fiquei estático. Estava traumatizado. Já tinha até
pensado na possibilidade de dormir ali, próximo de uma escada rolante. Uma
sensação de agonia e medo. Dois motoristas conversavam alegremente em frente ao
ônibus. Se despediram e um deles se dirigiu ao ônibus no qual eu precisa
entrar. Era o último daquele turno. Minha barriga esfriou de vez. Foi então que
tive a intuição de mostrar a ele o bilhete do metrô e explicar o que tinha
acontecido. Ele nem olhou o bilhete e disse: “Sobe aí”!
Deim. Aquarela. Navio-motor Tibiriçá navegando no rio Paraná.
XXI
CASA DE MAÇOM
Como é a experiência de morar na casa de pessoas estranhas?
Pessoas amigáveis, mas estranhas? Minha
mãe passou por isso.
Aos 12 anos mudou-se de Tibiriçá e foi estudar em Santo
Anastácio, uma cidade fundada e colonizada por espanhóis no oeste paulista.
Piada velha, porém ainda válida para quem não conhece o lugar. Quando
alguém da região diz que é espanhol ou
conhece algum espanhol, logo é questionado: “ Mas é espanhol da Espanha ou de
Santo Anastácio”? Uma cidade católica,
conservadora e também componentes anarquistas, do tipo “Hay gobierno? Soy
contra! Também não acreditam bruxas, mas
tem muitos que afirma que elas existe sim. Lá também tinha espíritas e maçons.
Foi na casa de um deles que a minha mãe foi morar. Seu João era daqueles espíritas antigos, cultos e que
via a doutrina como uma conspiração dos céus para mudar o mundo e as pessoas.
Era grão mestre da maçonaria. Não se sabe se Allan Kardec era maçon , mas
recebia cartas de maçons de vários
lugares do mundo, inclusive do Brasil. Isso está registrado na Revue Spirit,
publicada no século XIX. Minha Madrinha Manoela dizia: “Daqui até Baurú
não tem ninguém maçom com grau igual ao
dele”. Seu João também gostava de
política, para humanizar um pouco sua difícil vida de celebridade espiritual e
esotérica. A esposa aceitava tudo de bom
grado e com respeito, menos a política. Quando chegava a época da eleições ela
já ficava preocupada e nervosa. Minha mãe descobriu isso quando alguém passou
em frente da casa deles e gritou com
toda força: “ João de merda”!!! Era uma
tentativa da oposição em desmoralizá-lo na vizinhança. Estratégia baixa e
inútil , pois todo mundo o conhecia e muitos o admiravam e entendiam que era
somente política.
Por que a mudança para Santo Anastácio?
Minha mãe tinha mediunidade desde pequenina. Via Espíritos,
geralmente de s velhos barbudos sorrindo e dizendo as coias que ela deveria
saber e fazer. Conversava com eles e presenciava fenômenos físicos como luzes
fortes e vidraças estilhaçadas. Dona Manoela, com que morava, era católica
fervorosa, de irmandade mariana; e seu marido, Guilherme Borges, era muito
medroso com essas coisas, evidentemente porque também era médium. Dois idosos
que perderam uma filha jovem criando uma criança com poderes paranormais. Isso
não seria um problema grave se ela fosse ajudada e instruída. Foi então que eles se lembraram do amigo João, que era
representante de revistas e jornais, e também divulgador de obras e publicações
kardecistas. Ele era também amigo do meu futuro avô paterno, Carlos José, que
também era espírita. Daí surgiu a ideia de levá-la para estudar em Santo
Anastácio, numa escola pública, e receber as primeiras noções doutrinárias de
espiritismo no centro espírita frequentado pela família do Sr. João. A casa
dele era repleta de livros e símbolos da iniciação maçônica. Apesar e ainda ser
uma criança, seu João chamava minha mãe de “Dona”. Após as refeições ele olhava para a pequena hóspede
e dizia, olhando para o monte de louças e talheres sobre a mesa: “É, Dona, é
nessas horas que os filhos estranham os pais”!
Minha mãe conta que este foi um período muito bom, de boas
lições e excelentes amizades. Conviver
em lugares estranhos e com pessoas que não são da nossa esfera familiar, diz
ela, nos obriga a mudar de pensamentos e sentimentos sobre as coisas, e principalmente de hábitos. Não aprendeu
muito da doutrina naquela época, por falta de maturidade, mas saiu daquela casa
sabendo que sem estudos e disciplina nada funciona. Quando chegasse a hora da
verdadeira iniciação ela saberia identificar a oportunidade. As iniciações dos núcleos espirituais e esotéricos geralmente
são muito parecidas e primam pelos mesmos princípios: o iniciado precisa vencer
seus medos e superar sua limitações por meio de provas morais, provadas pelos
mestres ou pela própria vida, por meio dos testemunhos. A maturação e depuração
do discípulo acontece por meio de regras de conduta: silencio, sigilo, olhar,
alimentação, obediência e serviço ao próximo. Tudo isso promove gradualmente a
sua iniciação, na qual ele se transforma em fases ou graus que revelam sua
purificação e desprendimento do mundo dos sentidos: a Lama (desejos), a Água
(esforço para não se sujar) e finalmente a Luz (libertação). Ela
recordou que, lendo certa vez uma reportagem sobre uma novidade doutrinária na
Federação Espírita do Estado de São Paulo chamou sua atenção a fotografia de um
velhinho falando com gestos dramáticos a aplicação de passes magnéticos
ensinados em aulas especiais para iniciados. Era o Coronel Edgard Armond
explicando o funcionamento da Escola de Aprendizes do Evangelho. Armond era
mestre-maçom e diretor da Federação. Essa ainda não era a oportunidade esperada.
Ela só iria acontecer muitos anos mais tarde, em São Vicente, quando uma
vizinha a convidou para assistir uma aula inaugural da Escola de Aprendizes do
Evangelho, dada por Jacques Conchon, falando do tema “Os Exilados de Capela”. Jacques também foi fundador e um dos diretores do CVV-Centro de Valorização
da Vida, que naquele ano de 1977
iniciava sua expansão pelo Brasil. Era o início da nossa iniciação
espiritual e também de engajamento na luta pela prevenção do suicídio.
Deim. Giz de
cêra. Estação de trem. Presidente Epitácio.
XXII
CIGARRO DE VACA
Os mendigos e andarilhos são pessoas muito interessantes,
cheios de tiradas engraçadas e declarações extravagantes. Não têm eira nem
beira e não se importam com isso. Alguns
são filósofos natos e os restantes são apenas pessoas comuns que cometeram
suicídio, como todos os outros. Suicidas vivos, que romperam os laços com a
vida pessoal, familiar e social. Disseram adeus para suas vidas e não querem
mais saber de nada, de ninguém e principalmente de si mesmos. Andam sem rumo e
sem a mínima noção de tempo e espaço. Às vezes para. Olham para o céu, para os
lados e seguem em frente num caminho que nunca termina. Não gostam de olhar
muito tempo para os rostos e olhos alheios e logo desviam os olhos, porque têm
medo de se verem no outro. Certa vez, em frente na casa do meu sogro, em São
Paulo, vi rapaz andarilho, trajando restos de um terno e descalço. Barba e
cabelos enormes. Sorria, cumprimentava, mas não gostava de conversar. Vendo minha admiração, meu sogro comentou
esse rapaz era gerente banco, trabalha numa agência ali na Lapa. De uma hora
para outra ficou assim. Fez tratamento, tomou remédios, mas não adiantou nada.
Seus pais moram aqui perto, mas vive na rua. Some por uns tempos e depois
volta, mas não entra dentro de casa. Sempre dorme na rua. Vendo esta cena,
lembrei de quando morávamos em Epitácio, na época que ainda existiam os trens
de passageiros.
Às 21 horas toca o apito do último trem da Sorocabana. Era o
BG, bagageiro, com vagões de última classe, trazendo para estações os
indesejáveis da Capital e todas as estações que antecediam a de Presidente
Epitácio. A Estação do Porto, como era conhecida, era última daquele ramal. Fim
de linha. Fim de mundo. Eram os passageiros que trafegavam com passes da
assistência social. Gente de todos os tipos, famílias de retirantes, trabalhadores
pobres, alguns caixeiros-viajantes que tinham que fazer suas economias; e
dezenas de indigentes que eram empurrados de cidade em cidade, esperando-se que
desaparecessem e nunca mais voltassem. Desembarcavam na estação em situação de
despejo do trem. O chefe da estação nessa altura da noite já estava dormindo e
nem tomava conhecimento do que acontecia, a não ser numa excepcionalidade. Só o
bar da estação permanecia aberto, na esperança de vender algumas doses de pinga
para uma clientela já conhecida. Esse grupo descia do tempo e fica parado por
algum, desorientados, aguardando algum tipo de ordem ou informação. Aos poucos
eles iam se dispersando, procurando algum tipo de acomodação, geralmente os
bancos do jardim ou então seguia pelas ruas na direção do Albergue do Centro
Social São Pedro, que ficava na Estrada Boiadeira Sul. Ali poderiam tomar
bando, alimentar-se e talvez ser encaminhados para as fazendas onde tinham
colheitas de algodão ou serviço de capinagem de roça e que aceitavam alguns
colonos. Não eram todos. Parte deles nem ia
para o Albergue porque já sabia que não tinham capacidade para o trabalho.
Preferiam ficar esmolando pelas ruas. A maioria queria ficar e outros preferiam
seguir na direção da ponte e conseguir carona para o Mato Grosso. Eram atraídos
pela selva, como se ali pudessem consumar suas mortes nessa vida perdida e
suicída.
Nesses horários de chegada de trem as famílias ainda estavam
acordadas, conversando nas varandas ou nos bancos de madeira em frente das
casas, enquanto as crianças aproveitavam o fim da noite para brincar de
pique-esconde ou um jogo de bola. Era nesse momento que surgiam pelas ruas essas
pequenas hordas de pedintes, suplicando comida e atenção. Uns traziam malas e
roupas amarrotadas, tentado manter um pouco de dignidade. Outros eram
maltrapilhos que já haviam desistido de tudo, carregando sacos com coisas que
ganhavam ou achavam. Outros só carregavam o corpo. Os primeiros gostavam de conversar, mostrar
suas habilidades e suas ideias, lembranças dos últimos botecos em que foram
proibidos de entrar por absoluta falta de dinheiro e de argumentos. Esses paravam em frente das casas, batiam
palmas, faziam suas saudações e pediam um prato de comida ou o tradicional pão
velho. Lembrei da mãe de um amigo nosso, Dona Remédios, que sempre atendia essa
pessoas com respeito e carinho. Preparava uma farta refeição e aguardava para
recolher de volta o prato e o talher, que guardava só esse fim. E ouvia pacientemente
as histórias que eles contavam. Nós à
vezes brincávamos com os mais alegres, debochando dos seus trejeitos e ideias.
“The house, the house”, dizia um jovem
alto, magro e barbudo, demonstrando habilidade de falar inglês. E sabia mesmo muitas palavras e
expressões, que pronunciava com um tom aristocrático, do qual ríamos inconsequentes. Uns
tinham o pavio curto e transbordavam mal humor. Oferecíamos cigarros de palha
com fumo amarelinho, que aprendemos a fazer com a Tia Teodora e que fumávamos
escondido. Eles aceitavam a novidade, tragavam e aguardávamos as reações de agradecimento e
também de crítica: “Cigarro de vaca esse heim”, reclamou um deles bem nervoso.
E quando rimos, saiu xingando e cuspindo. E um dos meus irmãos, ofendido, discutiu com ele: “Além de ganhar ainda que
exigir”? A Madrinha Manoela não gostava dessas brincadeiras, ficava
sentida, mesmo rindo de algumas das reações mais estranhas. Ela aproveitava
essas situações para nos ensinar coisas importantes da vida. “ A gente não
poder tratar essas pessoas desse jeito, porque a gente nunca sabe quem eles
são. Pode ser um ladrão, um assassino, uma pessoa infeliz que não deu certo na
vida, coitados. E pode até ser Jesus. É, às vezes Jesus se disfarça de mendigo,
para ver como a gente se comporta”. Era a forma que ela encontrava para
desconstruir aquela cenas deploráveis nas quais pessoas chegam ao fundo do poço
e ela não aceitava que aquela pudesse existir. Quando ela percebia que
estávamos enfraquecendo os argumentos dela com os nossos olhares de deboche,
ela logo reagia com um história dramática sobre Jesus causando alguma surpresa
muito grave ou então uma onça que atacava as famílias e roubava as crianças. “Certa
vez, disse, ela, “Jesus chegou disfarçado de mendigo numa casa e pediu abrigo,
chovia e fazia frio. A dona da casa, desconfiada, consentiu mas colocou-o num
chiqueiro no fundo do quintal, forrado de palhas de milho. Ele aceitou a oferta
e ali dormiu profundamente. Acordou tão cedo, que não poder nem agradecer. Só
deixou um sinal de cruz na porta do chiqueiro. Muito anos depois a mulher ficou
doente. Tinha um coroço no seio e soube que iria morrer. Orou para que Jesus a
salvasse e que lhe desse um sinal de cura. Naquela noite ela teve um sonho
idêntico a visita do mendigo. Na despedida do outro dia, ele olhou para um dos
seios dela e viu que estava inchado e vermelho. E disse: “Vá até o chiqueiro e faça
uma lama com a terra que está sob as palhas onde dormi. Esfregue a lama e seu
seio vai ser curado para sempre”.
TAÇAS DE SANGUE
A casa da rua Curitiba era todas de madeira, mas tinha de aspecto
aristocrático. Foi feita com a intenção parecer a casa de alguém importante, um
pouco acima do terreno, assentado sobre uma base de tijolos. Se tivesse feito
com as tábua horizontais teria fica bonita e mais imponente, pois tinha uma
pequena varanda com muretas de tijolos, onde sempre tinhas duas ou três
cadeiras de fio coloridos de nylon. Varanda para receber visitas nas estações
quentes e ver o movimento da rua. A madrinha Manoela recebia ali suas amigas e
afilhados para longas conversas. Também
dali nos repreendia quando havia excessos nas brincadeiras de rua e provocações
aos andarilhos e mendigos que vinham da estação em direção ao Albergue
Noturno. Mas o construtor preferiu a posição vertical
das tábuas, para acentuar a impressão de que ela tinha a altura dos palacetes.
Era bem construída, mas não conseguiu se impor como moradia aristocrática como
desejava o primeiro morador. Foi uma casa de muitos donos e muitos moradores e
agora pertencia a um comerciante
espanhol, proprietário de dezenas de casas de aluguel espalhadas pela cidade e
que lhe rendiam um bom dinheiro. Nos fundos tinha um alpendre bem espaçoso e
aberto, protegido por treliças de ripas do piso até o teto, que também tinham a
função de garantir a ventilação nos meses mais quentes. O alpendre tinha tanque e varais de arame, que eram mais
baratos e resistentes, separa a cozinha de dois quartos de dispensa enormes,
tão grande que somente um deles era usado por nós, ficando o outro sempre
vazio. Era nesse que eu sempre arrumava um jeito de transformá-lo em um banco,
uma oficina de consertos de roupa e sapatos e escritórios diversos. Lembro que
tinha um quintal com árvore, mas gostava muito. A cerca de um dos vizinhos era
de tijolos, mas a outra era de ripas pontiagudas, feitas de sobras de madeira
das serrarias, deixando expostos os dois quintais.
Foi nesse quintal ao lado que aconteceu uma coisa muito
estranha. Varrendo sob as árvores e juntando as folhas caídas das árvores a
vizinha encontrou junto a cerca alguns objetos que lhe causaram espanto e medo,
parecendo peças de um trabalho de feitiço. Eram, segundo ela recipientes que
lembravam taças de rituais de magia, contendo um líquido vermelho que parecida
sangue de porco ou galinha. Não tinha velas, porém sob as folhas que se
acumularam sobre a terra havia colheres de chá, ainda brilhantes e que não teve
coragem de tocar. Afastou-se assustada concluindo que aquilo tudo estava ali há
muito tempo, pois estava impregnado de areia barrenta. Não contou para o
marido, para deixá-lo preocupado.
Passado alguns dias, ainda intrigada, ele chamou minha mãe,
quando esta voltava, no final da tarde, da nossa loja de cosméticos. Pensou
ante disso: ela é espírita e poderá explicar melhor o que isso e ajudar-me a
procurar ajuda, para não ofender a quem quer fosse e que tinha feito aquilo,
sabe por qual motivo. Também não queria forçar o marido a ter que mudar para
outra casa, pois moravam ali há poucos meses. A casa tinha ficado vazia durante
muito tempo e então aproveitaram para fazer aquilo que estava lá, próximo da
nossa cerca. Por isso, também ficou na obrigação de alertar minha mãe. Depois
de relar tudo para minha mãe convidou-a para ver o que passava. Aproximaram-se
da cerca e percebeu que a expressão facial da mãe mudou rapidamente. Parecia
estar transtornada, chegando a dar umas gargalhadas, o que deixou a vizinha
ainda mais intrigada e com medo. Depois de alguns segundos de concentração,
minha mãe comentou decepcionada:
- Então foi isso. Agora entendi. Não acredito que isso
realmente aconteceu.
E veio a tão esperada explicação.
As taças eram realmente taças de plástico verde, com fundo
branco. Tinham desaparecido misteriosamente da minha casa há algum tempo. O
líquido vermelho não era sangue e sim restos de gelatina de cereja, que
derreteu com a chuva que havia caído há dois dias e encheram as taças com água
vermelha. As colheres também tinham desaparecido, sem nenhuma explicação. O
mistério das taças de sangue estava resolvido, para alívio e alegria da
vizinha. O material do feitiço foi recolhido e reconduzido para o seu lugar de
origem, para servir de prova para uma nova investigação. Era preciso descobrir
quem foi o autor do delito. Já adianto que na fui eu. Não teria coragem de
fazer essa patifaria. Minha vó Maria diria que era uma grande cachorrada. Na
verdade minha mãe já sabia de quem se tratava, pois o leniente havia cometido o
mesmo delito na loja durante o período em minha mãe viera em casa para almoçar.
Pediu desculpas, despediu-se da vizinha e entrou em casa disposta a desmascarar
a farsa. Todos reunidos na sala, menos meu pai, que nunca se metia nos negócios
educativos da minha mãe. A curiosidade da sobre o assunto da reunião era
intensa, pois quando acontecia algo daquele naipe certamente iria rola uma
surra espetacular. Em pé e de chinelo na mão ela dirigiu olhar para o meu irmão
mais velho e perguntou com voz firme: “Cadê o dinheiro do caixa que eu deixei
na loja hoje manhã. Ele não respondeu, mas tremeu nas bases, arregalando os
olhos. “Vou repetir só mais uma vez: cadê o dinheiro”? “Também quero saber onde
estão as minhas taças e colheres de gelatina que sumiram aqui de casa”?
Dessa vez ele já estava deitado no chão chorando e implorando para não apanhar: “Eu confesso,
eu confesso”. “O dinheiro eu paguei
coxinha e refrigerante pra todo mundo no bar do Bernardino”.
Depois de duas
chineladas bem fortes, ele afrouxou e veio a outra confissão:
“Eu comi todas as gelatinas e joguei no quintal da casa aqui
do lado”.
O assunto foi encerrado com mais algumas chineladas
marcantes e uma ordem irreversível para ir para o banheiro e ficar lá até a
hora de dormir, com a luz apagada.
Todos sabiam que ele morria de medo de defunto e escuridão.
Tava armado o complemento do castigo. Não tive dó. Afinal, ele fez a mesma
coisa comigo depois que, numa noite, eu
fiquei perturbando todo mundo fingindo
que estava passando e tendo falsos soluços. Disseram pra eu parar e não parei. Fui para o banheiro, levado
cruelmente por ele. Fiquei lá um tempão. Não tinha medo do escuro e naquele dia
não lembrei de nenhum defunto.
Deim. Aquarela.
Casas daVila Tiribiçá.
VELÓRIOS
O pior de todos os medos e o medo dos defuntos. Esse é um
medo que dói, dizia minha mãe. Ficar sabendo de uma pessoa que morreu porque já
estava doente não dá medo, mas de peoas que morrem de forma súbita ou trágica é
diferente. Causa uma impressão forte em nosso espírito e algumas pessoas ficam
perturbadas, à vezes por dias e meses. Dizem que essas pessoas são médiuns e
essa impressão acentua a sensibilidade natural deles, passando as captar mentalmente
as impressões dos outros também a agonia dos que morreram.
Na infância eu não resitia de curiosidade ia aos velórios
observar tudo o que estava acontecendo, em detalhes. Quando começava a
escurecer, ao entrar no banheiro para tomar banho, já ia ficando transtornado,
pois sabia que a noite em claro ia ser longa. Não conseguia pregar os olhos e
fica revendo as cenas do velório e a imagem do morto com os olhos fechado
dentro do caixão. Minha mãe percebia, ficava brava , mas logo vinha me socorrer.
Meu irmão mais velho era pior do que eu, pois ele ficava
impressionado com todo mundo que morria, gente da cidade e gente famosa que
aprecia nos jornais. “Mais que diacho, o homem tá longe e nem sabe que você
existe”, dizia minha vó tentando consolar ele, mas não tinha jeito. O chacra
gástrico começava a girar tão fortemente, aumentando a sensação de frio na
barriga e todo fica em estado de desequilíbrio.
Tinha umas simpatias ousadas para resolver esse problema,
como levar o medroso ao velório e fazer
ela tocar no defunto e dizer umas palavras,etc. Mas no caso dele parece que
isso só piorou. Eu nunca fiz isso. Eu heim!
Hoje perdi o medo, sei me controlar, mas não vou em velório.
Quando vou, não entro na Câmara Ardente (olha o nome do lugar). Se tiver que
entrar, entro e não olho na cara do sujeito. Nessas horas sempre tem uns
cretinos que chegam perto da gente e falam: “Você viu a cara dele? Tá escura”.
Puta merda.
Mas os enterros são interessantes, menos agressivos,
psicologicamente falando. O silêncio dos passos e das vozes das pessoas andando
pelas alamedas da necrópole, as sepulturas curiosas e tal. Evito ir também.
Os antigos ensinam que, depois de um velório, o melhor é
passar em algum lugar antes de volta pra casa; ir numa praça, numa loja, para
apagar as impressões negativas das cenas fúnebres. O bom mesmo é não ir.
Na minha casa só teve um velório, o da minha Madrinha
Manoela. Foi tranquilo, na sala. O
problema é que fiquei um seis meses sem passar sozinho por ali, ou passava
correndo, acendendo as luzes.
Realmente não posso ir nesses lugares. Já tive várias vezes
a impressão de sentir um cheiro forte de rosas e também de carniça. Têm pessoas
que morrem e não sabem que morreram e ficam pedindo ajuda aos medrosos, pois
sabem que nós são os únicos que levam eles à sério.
Deim.Giz de cêra. Guindaste no Porto Epitácio.
XXV
JANELA PAULISTANA
Da janela do meu quarto eu tinha uma visão panorâmica da zona sul de São Paulo, começando pelo Butantã, Pinheiros, jardins América e Europa, parte do Morumbi e finalmente a Avenida Paulista, no alto de Cerqueira César, com suas torres de concretos e antenas transmissoras de rádio e tevê.
Era o terceiro piso de um sobrado na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda. Em frente ao reservatório de água da Sabesp, na Vila Gomes. Eram duas visões completamente diferentes: a do dia, mais nítida e cheia de detalhes, como a vegetação e as milhares de edificações espalhadas nos bairros; e a noturna, difusa, onde só se enxergava sombras, silhuetas e infinitos brilhos e tons de luzes.
São Paulo não tem céu nem estrelas, escondido pela neblina e pelo reflexo das luzes amarelas da iluminação púbica.
A cidade tem um barulho que não
se ouve, mas que é a soma de todos os ruídos que existem na cidade. Esse
barulho é subliminar, oculto, e permanece gravado na memória auditiva de todos.
É ele que faz com que o paulistano, de forma inconsciente, sofra uma saturação
e esgotamento permanente. Daí essa necessidade constante de sumir (escapar), de
consumir, se divertir e principalmente comer, com forma de alívio.
Ficava olhando aquela paisagem gigantesca e não me
conformava que tudo aquilo um dia foi um planalto vazio, com pouquíssimas
casas, rodeado de riachos e florestas. Tudo desapareceu sob o asfalto e
construções.
Na minha época paulistana a cidade ainda desconhecia os computadores, a internet e as redes sociais. Não havia celulares. O telefone era caro e caro. E mesmo assim as pessoas se comunicavam. Para saber das coisas gerais, as pessoas contavam com os jornais, tv e rádio.
Mas para saber mesmo das coisas tínhamos que ir até os lugares onde as coisas estavam acontecendo. Todos tínhamos um telefone de recado e os recados demoravam par serem dados. Até mesmo quando inventaram o BIP, sinal de que deveríamos ligar para alguém dos orelhões ou cabines telefônicas. Por isso acreditávamos que era necessário andar em busca de informações. Tudo girava em torno de informações. Ainda não havíamos ingressado na chamada Era da Informação nem do Conhecimento, mas havia uma forte convicção de que não era possível viver sem isso.
As bancas de jornais eram repletas de produtos informativos: revistas, fascículos, livros e fitas K-7. Nas bancas da Paulista tinham jornais do Brasil inteiro e também das principais capitais do Mundo.
As locadoras de vídeo ocupavam os melhores pontos comerciais. As salas de cinema ainda eram altamente frequentadas, não como nas décadas anteriores, mas ainda fazia parte dos nossos hábitos. Antes do advento do “laser” havia muitas lojas de discos de vinil.
As livrarias e sebos eram o destaque e também estavam espalhadas na cidade, principalmente nas faculdades e nos arredores.
Naquele tempo São Paulo era visualmente suja e poluída. Não havia a lei da cidade limpa e realmente as edificações viviam escondida por trás das placas e out-doors de publicidade.
Quando voltava para casa, geralmente depois das 21 ou 22 horas, tudo que queríamos era um banho, uma roupa limpa, uma refeição, um pouco de televisão e uma cama. Não conseguia ler nada antes de deitar. Dispensava a TV. O que tinha mais preciso no meu quarto era um aparelho de som – receiver - com duas pequenas caixas de som. Não era para ouvir discos. Era só para ouvir rádio. Rádio Eldorado. Rádio USP. Rádio Cultura. Vivíamos a era das FMs. Para dormir, preferia a Scala FM, emissora do grupo Diário Grande ABC, que tinha um prefixo espetacularmente aristocrático e relaxante. Impossível dormir em São Paulo sem ouvir a voz de Danielle Licare cantando os famosos monossílabos (à scat singing ) do concerto Pour Une Voix, de Saint-Preux. Como levantava às 5, não tinha tempo para os programas jornalísticos da manhã.
Assim era São Paulo
nos anos 80-90, a qual percorria portando sempre, por segurança climática, um
pequeno guarda-chuva e um colete de lã. De
vez em quando subo a serra para alguma reunião ou evento e aproveito para matar
as saudades. É um conforto saber que São Paulo está bem perto. Por isso voltei
e não mudo mais do litoral.
EPÍLOGO
Durante mais de 50 anos uma imagem este presente em minha mente. Um cenário de uma casa verde, simples, em formato de um chalé, protegida por árvores e contornada por uma vegetação, cujo reflexo da luz dava a ela e ao entorno, uma coloração verdejante que extrapolava a edificação e se espalhava pelo jardim frontal e pelo quintal no qual ele ficava bem ao centro. Dentro tudo era bem construído e tinha uma atmosfera tranquila, própria para o repouso e também para o trabalho doméstico. Uma casa que sempre existiu, mas que nunca morei. De todas que contei a que mais se aproxima dela foi o chalé da esquina e que também nunca morei. Talvez essa impossibilidade de habitá-lo tenha sido transferido para o meu universo íntimo e mantido como um vácuo a ser preenchido e uma busca de realização. Sempre tenho sonhos no quais vou a lugares onde nunca estive onde encontro pessoas estranhas reunidas em casas de muitas portas e janelas. Ali conversamos com essas pessoas estranhas ou simplesmente observamos as conversas, geralmente coisas pendentes e necessitam de solução. Elas ficam em cidades que ficam em outros planos, num tempo diferente do qual vivemos, como se fosse no passado. Isso me inspirou a fazer um tour digital pelo Google Maps, no qual podemos passear por lugares distante, registrados pela fotografia feita pelo carros que circulam pelas ruas e depois enviam as imagens para o satélite para seja, disponibilizadas na internet. Obviamente fui procurar os lugares onde morei, para tentar preencher o vácuo deixado pelo chalé que nunca morei. Fui percorrendo e coletando imagens dessas ruas, estradas e edificações na Vila Tibiriçá, onde nasci; em Epitácio , onde passei a segunda infância , indo inclusive em lugares que eram de acesso proibido para a minha idade naquela época. Fui até chácaras da Estrada de Tibiriçá, nas fazendas e sítios da Estrada de Caiuá e também nas vicinais que levam ao bairro do Campinal e Agrovilas, bem como a que vai margeando o rio Paraná até Teodoro Sampaio. Esses registros foram transformados em postagens no Epitácio na Memória, página no Facebook, provocando nos seguidores o mesmo impacto causados pelas lembranças que tive durante os registros. Já havia feito isso antes com os lugares onde tinha vivido em São Paulo, Campo Grande e principalmente em São Vicente, onde coletava imagens de casas históricas e que, muitas delas já haviam sido demolidas, mas que ainda estavam gravadas no Google Maps. O print dessas imagens permitiu preservar e criar um acervo de casas e lugares que fisicamente não existem mais, mas que inda estão guardas nas páginas das redes sociais sabe-se lá até quando.































