quinta-feira, 8 de outubro de 2020

 

“Não se turbe o vosso coração. Há muitas moradas na casa de meu Pai”.

(S. JOÃO, 14:1 a 3.)



 


Deim. Aquarela. Barraca do Ted na ilha Quero-Quero.

 

 

 

PÓRTICO

 

Este não é um convite para você ler um livro. Pelo contrário, é um convite para você escrever um livro. Um livro sobre você e suas moradas.  

Já pensou nisso?

Então comece já.

Escreva sobre a sua vida.

Ela é tão comum como muitas outras vidas, mas ninguém tem uma história igual.  As pessoas não precisam saber da sua história, mas você precisa, porque provavelmente você não sabe muitas coisas que aconteceram, coisas que aparentemente são banais, mas não são, e você as desconhece. Desconhece porque não se lembra.  

Você sabe dizer, por exemplo, em quantos lugares já viveu, em quantas casas já morou, quantas mudanças já fez?  Sabe quais foram as pessoas mais importantes e influentes na sua vida? Quais as qualidades e defeitos delas?

Para responder essas perguntas você precisa lembrar e escrever, exatamente porque você passou esse tempo todo morando em algum lugar. Se souber isso, você vai entender muitas coisas importantes sobre você.

Nesses lugares aconteceram muitas coisas que talvez você não lembre em detalhes, mas que foram crises que transformaram gradualmente a sua vida.

Este livro é a história de tudo isso, de coisas banais, como morar, mudar e sobre como as coisas vão mudando.  É a história da vida, das crises que aconteceram e de como conseguimos passar por elas, mesmo não prestando muita atenção.  

Quando você terminar de ler este livro o seu também já vai estar escrito.

 

 

 PREÂMBULO

 

 

Todo mundo, pelo menos uma vez na vida, já viu aquela micro cena das formigas se encontrando e se reconhecendo rapidamente durante seus percursos de trabalho. E todos perguntam,  o que é que elas falam uma para outra? Ou é apenas um mero sinal de continuidade da tarefa? 

Uma coisa ou outra,  o que ninguém duvida é que elas moram em lugares que  são tão perigos e incertos como as nossas casas e estão sempre em busca de coisas para matar a fome. E tomam os cuidados que deveríamos tomar para construir, manter e proteger a casa onde moram.

  

I

MUDANÇAS

 

Já morei em 10 apartamentos num período de 35 anos; e 14 casas, entre 1961 e 2020.  Tudo isso aconteceu em cinco cidades, num período de 60 anos. Somando o período anterior, dos meus pais e avós, temos 100 anos de coisas para contar, sobre nós, sobre o nosso País e também os acontecimentos que mudaram o mundo.

Os intervalos nos quais ocorrem as mudanças foram períodos vividos com inquietação, a mesma pressa pela qual passam os pássaros ao terem mudar e refazer seus ninhos.

E fico imaginando porque tem que ser assim.

Porque precisamos mudar?

Será porque temos que sofrer mudanças íntimas provocadas pelas situações que nos forçam a mudar de lugar?

É bem provável.

Em cada mudança sempre acontece outra mudança.

Nos filmes do Mazaropi sempre tem cenas de mudanças para relatar o sofrimento dos personagens ao ter que deixar um lugar e  amargar a angústia do incerto.

Numa canção do disco Circo Místico, do Edu Lobo e do Chico Buarque, as mudanças dos atores circenses são definidas como “arte de deixar algum lugar quando não se tem pra onde ir”.

 

 





Deim. Aquarela.  Quiosques, vestiário e passarela de desfile no antigo Parque Figueiral.

 

 

II

 NASCENTE E POENTE

 

Nasci no Porto Tibiriçá (atual Presidente Epitácio) e hoje estou vivendo em São Vicente, na região metropolitana de Santos.  Já havia morado em São Vicente, entre 1974 e 1984; depois mudei para São Paulo em 1985. Voltei para Epitácio na década de 1990, onde fiquei até 1997. No ano seguinte fui morar em Campo Grande – MS, cidade que acolheu muitos epitacianos. Voltei para São Paulo em 1999 e retornei para São Vicente em 2001.

Sempre que faço esse pequeno e confuso relato as pessoas logo reagem, tentando compreender os motivos de tantas andanças e mudanças.

Outra coisa, o que tem a ver São Vicente, uma cidade fundada no século XVI, com o Porto Tibiriçá, fundado no início do século XX?

O que poderia ter em comum essas duas localidades tão distantes, uma no litoral e outra no interior, e com quatro séculos de diferença? 

Tudo a ver.

Muita gente do interior vem para a Capital, para o litoral e também vai para o exterior. Outros tantos fazem o percurso contrário. Sou do Porto Tibiriçá e creio que tem muitos e tibiriçaenses e epitacianos em vários lugares do Brasil e do mundo. Tem muita gente da nossa terra vivendo no litoral, em São Paulo, em várias regiões do Brasil, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, em vários países da Europa e até do leste europeu. É possível que tenha morrido algum pirangueiro no Word Trade Center. No Japão também tem epitacianos, é claro!

Creio que as pessoas vão para os lugares por algum motivo muito mais forte do que aquele que simplesmente funciona como pretexto e impulso para as mudanças. Mudar de lugar é uma busca de algo que se perde dentro de nós mesmos e que, na verdade, não está exatamente nos lugares para os quais a gente quer ir. Pode ser que aconteça, de acharmos o que realmente procuramos ao mudarmos de endereço, mas não é o lugar em si que é o motivo verdadeiro da procura, nem a causa real do encontro. São as coisas que acontecem, em determinados lugares, em determinados momentos que fazem realmente com que se façam algumas escolhas e essas decisões provoquem algumas mudanças na forma de ver e encarar a vida. Essa é a verdadeira mudança, a qual podemos realmente chamar de destino. Nas terras por onde se passa, descobre-se, se constrói um chão e nele o relógio do tempo avança numa sucessão de fatos e circunstâncias. Ao mesmo tempo o contato com esse chão aciona uma bússola, que nos conduz pelas veredas das decisões e escolhas. Aí a gente muda.

Certa vez eu fiquei fascinado pelo mar. Acho que isso também aconteceu com a minha mãe. Foi ela que teve a ideia de mudarmos para o litoral. Era um tipo de angústia que ela sentia na alma durante décadas e só curou parcialmente quando fomos viver próximo ao mar. Herdei isso dela. Meu pai sentia a coisa de forma contrária: vivia com o pensamento voltado para o sertão, lugar onde acreditava ter vivido os melhores momentos de sua última existência e, no final dela, conseguiu realizar o sonho de morar novamente em Epitácio. Seu corpo está sepultado no Horto da Igualdade, embora seu Espírito certamente não esteja lá. Aliás, sabe-se que algumas pessoas que foram viver longe fazem questão de ter seus corpos enterrados em Epitácio, pessoas que estavam vivendo na América do Norte e nunca tiraram Tibiriçá e Epitácio da memória sentimental.

O céu do sertão é bem diferente do céu do litoral; são cores e ventos diversos e opostos. O poente e o nascente repercutem de forma diferente no psiquismo das pessoas e isso influencia nas escolhas importantes que elas fazem na vida. Dizem que nascemos assim, mentalmente inclinados para um ou para o outro lado, para o sertão ou para o mar.

 

 

 

 

 

 

 

 



 Deim. Aquarela. Vil Tibiriçá. Rua da Enfermaria. 

 

 

  

III

 MEMÓRIA

 

Lembranças funcionam como um filme na cabeça da gente. Parece uma sucessão de quadros, como no cinema. Isso acontece a todo instante, mas de forma mais apurada quando estamos sós, pensando na vida. Muitas vezes esse estímulo vem de pessoas, de situações ou de objetos que nos remetem automaticamente ao passado. Vi numa foto a primeira casa em que morei. Era de madeira, tinha uma varanda enorme, dessas em que as pessoas ficam conversando despreocupadamente. Essa casa ficava na Belo Horizonte, em direção ao cemitério velho. Nessa foto estou no colo da minha “Madinha Manoela” (Manoela Borges), que não era parente do nosso sangue, mas tinha um vínculo espiritual muito forte com todos nós. Ela adotou e criou minha avó, retirante do sertão baiano; adotou e criou minha mãe e praticamente meus quatro irmãos. O meu irmão caçula, adotado de uma família ribeirinha do Porto XV, chegou para passar alguns dias em nossa casa, enquanto a mãe dele se recuperava de uma grave infecção no hospital. Por causa do destino, ficou para sempre, após o falecimento da mesma. Anos depois, uma tia nossa com dons mediúnicos, observando essa criança, identificou nela a figura do pai de dona Manoela Borges, reencarnado. Quando os meus avôs chegaram ao Porto Tibiriçá, vindos ainda jovens do Rio de Janeiro e da Bahia, também receberam de Dona Manoela abrigo e proteção. Dessa casa não lembro quase nada. Minha primeira lembrança vem da casa em Tibiriçá.

Nossa casa em Tibiriçá foi uma espécie de presente de casamento para os meus pais, dado pelo Tenente Gilberto, interventor militar do Distrito de Tibiriçá e que se tornou muito amigo da nossa família. O tenente era do tipo bonachão, sempre muito simpático e dele todos guardam boas lembranças por causa do seu gosto por festas populares, sobretudo as da época junina, quando mandava construir uma grande fogueira próxima ao mastro da bandeira.  Construída a partir de 1954, a nossa casa, na verdade da Bacia, era uma das poucas construídas em alvenaria. Tinha cômodos grandes e um quintal espetacular, sem luxo, mas enorme, cheio de árvores frutíferas e ornamentais e de muitas possibilidades para fantasias de criança. A varanda em “L” revestida de ladrilho ocre, muito usado nos anos 60, servia para refrescar o corpo nos meses de calor.

Em frente de casa tinha um enorme campo de futebol, rodeado de árvores de cedro. Apanhei muito da minha mãe, nas pernas, com uma varinha seca que se acumulava debaixo dessas árvores. Embaixo de alguns desses cedros também tinham bancos feitos de madeira. Na esquina próxima tinha um que era o mais frequentado da vila, até altas horas da madrugada e por isso era chamado de “Banco do Pecado”.

Do outro lado do campo tinha algumas casas e um clube, onde funcionavam o serviço de autofalante, o salão de bailes e o cinema, este último sob a gerência do meu avô Carlos dos Santos. 

Do período em que moramos nessa casa de Tibiriçá lembro de algumas coisas marcantes. Minha mãe chorando na varanda ao receber a notícia de que um tio nosso tinha tentado suicídio com um tiro na cabeça. A bala ficou alojada num dos ouvidos. Quando esse tio vinha em casa me deixava impressionado ao vê-lo, durante as refeições, mastigar vagarosamente para não sofrer a dor causada pelo projétil.  Essa tentativa de suicídio, bem como outros casos consumados, teria uma repercussão ainda maior em nossas vidas, eu e minha mãe, nos deixando muito impressionados, servindo para nos aproximar de um grupo de pessoas que, desde1961, realizava um trabalho voluntário de prevenção do suicídio em São Paulo.

Outra cena marcante na época de Tibiriçá, na margem do rio, próximo a Bomba D´água, foi a chegada dos corpos de três funcionários da Bacia (Júlio César, e os irmãos Ênio e Fortunato) que morreram afogados durante um temporal noturno, quando pescavam. Júlio era paraguaio, casado com a tia Ester, irmã do meu pai.

Fui uma criança portadora de sonambulismo, cujas crises de febre emocional eram constantes e me faziam, tarde da noite, sentar na janela e denunciar para minha mãe a presença de “pessoas” andando no campo. Eram também os primeiros sinais da mediunidade. Moramos em Tibiriçá até 1967, período no qual a Bacia do Prata estava encerrando suas atividades e seu patrimônio sendo sucateado. Os moradores da Vila Tibiriçá, que poderiam por direto ter permanecido em seus lares, foram sendo pressionados a deixar as casas. O corte de energia e água, bem como ameaças indiretas foram algumas dessas formas de pressão, certamente estimuladas por alguns políticos e comerciantes de Epitácio interessados na rápida desmontagem do Distrito. O regime militar contribuiu também para que esse processo de desocupação da vila ocorresse de forma criminosa e impune. Os antigos moradores, a maioria gente simples e despolitizada, não tinha meios de reagir e se defender contra esses abusos, pois temiam represálias por parte dos poderosos.

Entre 1968 e 1970, já estávamos residindo em Epitácio, primeiro na Rua Maceió, em frente a um enorme terreno baldio no qual mais tarde seria construído o prédio dos Correios. Depois, na Rua Cuiabá, tivemos como vizinho até 1973 o Sr. Rogério Pelegrini, imigrante italiano e ex-colono da Fazenda Santa Cruzinha, antiga propriedade da família de Rachid Murad. Essa fazenda mais tarde foi dividida entre os arrendatários e antigos funcionários que tornaram-se sitiantes, muitos deles vindos de Cafelândia e foram os primeiros fornecedores da primitiva feira de Epitácio. Com muitos descendentes na cidade, seu Rogério vivia uma velhice simples e era para nós um forte exemplo de persistência e sabedoria.  Viúvo, se mantinha ocupado cultivando uma horta e mudas de café; fumava curiosos cigarros de palha, cujo cheiro se espalhava por toda a vizinhança. Ele sempre contava para minha mãe que, ao ficar viúvo e com muitos filhos pequenos, recebia a ajuda do espírito da própria esposa para cuidar da casa.

   




Deim. Aquarela. Travessia no rio Paraná, da ilha Tibiriçá para o Porto Tibiriçá.

 

  

IV

CAVERNAS

 

Dizem que os apartamentos são cavernas modernas, confortáveis, privativas e seguras. Não é nada disso. São apenas pequenos espaços comercializados por metro quadro e que dão a falsa impressão do que deveria ser uma moradia urbana.

Entramos num apartamento, adquirido ou alugado, com a mesma sensação de incerteza de quando entrávamos nas cavernas paleolíticas em busca de abrigo, calor, frescor e um pouco de paz na hora de comer e  de dormir. Antes do repouso olhávamos para o fogo e nele nos fixávamos tentando desvendar o mistério daquelas chamas vermelhas que consumiam os pedaços de madeira.

Hoje colocamos os olhos na televisão, num computador ou num celular. Quando vence o contrato mudamos de caverna e só percebemos que ali não há mais nada a fazer e que na verdade somos nômades em busca de novos apartamentos.

Meu último vizinho, que vi chegar e também partir,  encontrou um jeito bem humano de trocar de ninho: ele fica três meses morando normalmente e depois permanece vários meses sem pagar e sai só antes de ser despejado. E assim vai morando com o dinheiro que ficou devendo. Empurrando a vida.

Ao ouvir essa história fiquei indignado e concordei com o porteiro que o chamou de safado e enrolão. Esse vizinho me cercou várias vezes para pedir dinheiro emprestado. Nunca emprestei porque sabia que não pagaria. Ia perder o dinheiro. Fui firme, de coração partido, mas não cedi.  Sempre que conto essa história do vizinho, já faço esperando a reação seca sobre o caso: “É complicado”!  O vizinho enrolão e desonesto é aposentado, pescador, tem um filha problemática e deslumbrada. Quando o conheci ele disse que uma vez  viu Nossa Senhora da Aparecida aconselhando ele a não ir procurar um certo tesouro indicado por uma alma perdida. É um homem rústico. Vieram do Vale do Ribeira, zona rural antiga do litoral paulista, quase na divisa com o Paraná.  Dei a ele o apelido de Mazaropi.  “É parecido mesmo”, reagiu rindo o porteiro. Tenho dó deles. São pessoas de caráter fraco e se acostumaram com a vida errante, penso julgando, como se levasse uma vida inteiramente acertante. Já encontrei os dois no supermercado depois que mudaram (de apartamento), em dias diferentes; ele procurando alguma coisa ou alguém e a moça perguntando ao repositor se o vinho que tinha em mãos era de boa qualidade. Descobri, pelo porteiro, para onde tinham mudado quem seria a próxima vitima do golpe deles. Ele apontou até a janela e o andar. E fiquei olhando para o prédio pensando e chegando à conclusão que eles apenas descobriram um jeito de viver sem sofrer, mesmo causando aborrecimento para os outros. É claro que também pensei na possibilidade de numa outra vida eles terem sido proprietários cruéis com seus inquilinos, estando agora na condição de choque de retorno, ainda com a agravante dessas quedas, mas que terão de enfrentar a fase de arrependimento e depois reparação, segundo a lei moral de causa e efeito que atualmente se bate sobre mim, com alguns agravantes.

Mas não é somente os inquilinos que passam por crises. Atualmente os leilões de casas e apartamentos estão em superoferta na internet. Escritórios de advocacia anunciam as facilidades para a desocupação desses imóveis, tentando tranquilizar os compradores, futuros moradores ou apenas investidores. Muitos, como eu, pensam: Não vou ser feliz contribuindo com a infelicidade dos outros. Claro que não tem nada a ver, do ponto de vista racional. Mas nesses casos, incrível, a gente automaticamente se coloca no lugar de quem está perdendo o imóvel, mesmo que ele não esteja sofrendo ou que realmente necessite vendê-lo dessa forma.

As ofertas de financiamentos continuam a todo vapor, com todas as vantagens e riscos previsíveis que a maioria prefere não enxergar, para não estragar os sonhos. Também as ofertas de consórcio ainda estão em voga, a que os especialistas afirmam ser um jogo de fantasia no qual você paga para alguém guardar o seu dinheiro durante um longo tempo, dinheiro que poderia estar rendendo muito mais em outros investimentos. Questão de mentalidade. O Consórcio seria então, nesse modo de ver, um colchão confiável e alugado.

Tem também os loteamentos em lugares distantes, feitos a partir do retalhamento de fazendas no interior, um sonho de consumo para quem vive enclausurado em apartamentos nas grandes cidades. Essa opção está na mesma categoria das chácaras: duas alegrias, uma quando compra e outra quando vende. Só que esses lotes são muito difíceis de revender, pois quem compra quer comprar o próprio sonho e não o sonho do outros.

Mas existem também outras possibilidades que a razão não explica, a não ser quando não acreditamos nelas.

Nosso prédio está próximo mar e foi construído na década de 1970 pra atrais turistas paulistanos. Antes da construção havia no terreno uma imensa mansão para temporadas, muito comum na vizinhança nos anos 1920, quando São Vicente era o balneário e moradia dos milionários do café e da indústria paulista nascente. Aqui também moravam os mais ricos operadores do mercado portuário, geralmente europeus. Santos era considerada uma cidade perigosa para morar, por ser muito exposta a doenças vindas do exterior. As fotos antigas do bairro, onde  proliferaram prédios de apartamentos, era um jardim plano de moradias e ruas arborizadas.  Nosso prédio é ocupado por uma maioria de idosos e uma minoria de jovens de mai idade que ainda não se convenceram da terceira etapa do ciclo da vida. Não repararam que somos um condomínio de passagem para outra dimensão, sob a vigília rigorosa do Comandante dos Oceanos, que intuiu  o construtor a colocar seu nome nessa morada transitória. O porteiro sabe o que isso significa e me disse que sua missão é vigiar a rotina dos velhinhos, sobretudo os que moram sozinhos. É só desaparecer um morador que ele ativa o interfone e, se este não responde, vai até o apartamento verificar o que está acontecendo. Se não responde ele usa a chave-reserva e entra  chamando pelo morador. Quando geralmente isso acontece é porque o mesmo faleceu ou então está em agonia. Da última vez foi o meu vizinho, um senhor que tocava teclado e conversava sozinho ( ou com alguém da família que já havia partido antes dele). Sempre a mesma música, com falhas de notas e interrupções. Na minha lembrança, a melodia era um conhecido hino de procissão, de Ave Maria, que os pecadores transpuseram para os seus vícios mundanos: “Dona Maria, que bicho que deu? Deu bicho gozado, a senhora perdeu, ave, ave , avestruz”. Naquele fim de semana o som do teclado não soou pelos corredores. Alguém avisou o porteiro e ele respondeu que estava desconfiado de algo grave. O tecladista teve convulsões e depois e, dois dias depois, foi levado ao hospital e lá veio a falecer. O apartamento que ele morava seria dias mais tarde ocupado pelo pescador enrolão.

 Esse porteiro, servo fiel de Netuno,  tem sido atuante e prestativo na sua tarefa.  Ele confirmou essa história que eu já sabia e que também ocorreu de forma semelhante em outro edifício do bairro, com pessoas conhecidas.

Vagou um apartamento no décimo andar, que logo foi ocupado por jovem mãe e seu filho. Um sala-living modesto, porém espaçoso como todos os demais nos outros andares. Tempos depois veio morar com eles o irmão da jovem, recém chegado do nordeste. Ela e técnica em contabilidade e ele vendedor das Casas Pernambucanas. Foram vivendo meio apertados até que a jovem resolveu se mudar com o filho, para deixar o irmão mais à vontade com as namoradas.  Foi morar num apartamento maior no prédio vizinho. O rapaz, feliz da vida, ali ficou por mais de um ano até que um certo dia recebeu uma carta da administradora solicitando sua presença no escritório. Chegando lá, preocupado e pensando ter que deixar o imóvel por conta de alguma reclamação grave, teve a grata surpresa que tornou sua vida um pouco mais feliz do que vinha sendo naqueles primeiros meses de mudança da sua terra natal. O proprietário do apartamento havia falecido em Portugal sem deixar herdeiros e, como todas as suas contas estavam em dia, ele seria o novo dono do imóvel. A história do outro apartamento foi idêntica: morador português, morto, sem herdeiros. A diferença é que as contas estavam todas pendentes, exceto o aluguel. IPTU e condomínio não eram pagos há mais de um ano. Mesmo assim, conseguiram ficar com o apartamento, ajustando as contas com empréstimos consignados.

“Como isso é possível”, perguntou alguém que conhecia os dois casos, querendo saber de mim a explicação espírita sobre esse estranho fenômeno. Respondi prontamente: são credores, diretos ou indiretos, recebendo de volta o que a Justiça Divina considera últil e necessário. E cantarolei a música do Mogli,do  desenho do Disney:  “Necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais”

Todos felizes e satisfeitos. Menos a subsíndica da nossa morada vertical. Inconformada com o lance de sorte do rapaz, ela desconfiou que havia algo errado nessa história. Detetive nata, apesar dos seus mais de 70 anos, fez de tudo para descobrir  a verdadeira origem desse estranho caso. A desconfiança aumentou quando todos souberam que a administradora era um senhora portuguesa muito conhecida no centro da cidade e que cuida de imóveis dos patrícios  que retornaram para a Europa.

Mas a proprietária do apartamento do rapaz não era portuguesa e não voltou para Portugal.

“Rá, aí tem coisa”, dizia a subsíndica em voz alta quando passava pela portaria e questionada pelos funcionários do prédio sobre o que realmente havia acontecido.

A investigação foi feita em todas as fases previstas e sem nenhuma possibilidade de refutação. Ela descobriu onde morava a proprietária falecida,  viajou para o interior do estado, por sua conta, e levantou todos os dados de que precisava.

A expectativa no prédio era intensa, sobretudo na assembleia de aposentados que se reúne todas as tardes no hall, antes da novela das seis. Um burburinho medonho.

Dessa vez quem deu a noticia oficial foi a própria síndica, pois a “sub” não teve coragem de aparecer para dar o seu testemunho chocante.

E desferiu, a seco,  o resultado oficial do inquérito: a proprietária realmente havia falecido, segundo  informações do cartório da cidade onde residia e não deixou herdeiros nem dívidas;  o rapaz é dono do apartamento e disse que vai continuar morando no edifício.

Após alguns segundos de espanto e silêncio, explodiram algumas gargalhadas e comentários impublicáveis.

Já pensei em mudar várias vezes do prédio, mas sempre desisto quando lembro dessa história.

Vai quê...

  


 

 

 

 

Deim. Aquarala. Paisagem do Rio Paraná.  Ilha do seu Joca.

 

     

V

CASA DOS SONHOS

 

Ultimamente tenho sonhado muito com casas. Mas não é sonho de sono e sim com os olhos abertos. O isolamento de 40 dias, por causa da pandemia do corona virus, provocou em mim o desejo de morar em lugares amplos, abertos, próximos da natureza. Estou a apenas 80 metros do mar e, no entanto, isso não é satisfatório. Quero estar na serra do mar e não apenas perto do mar. Enjoei do mar. Me parece monótono, embora tenha um horizonte incomparável, diferente das montanhas, porque é plano e te obriga a imaginar as coisas com muito mais precisão e detalhes. É por isso que nas crises as pessoas gostam de ver o mar, para preencher a mente com outras preocupações mais suaves e aliviar as mais duras e persistentes. Outros preferem as montanhas ou as planícies. Questão de temperamento. No litoral há muitas casas disponíveis, milhares delas. Casas e apartamentos de temporadas de verão e que em outras estações, na maior parte do ano, ficam fechadas. Bairros inteiros ficam em silêncio e solidão, sobretudo no inverno. Muitos quilômetros de praias desertas, uma paisagem atraente à primeira vista, mas depois assustadora com o passar do tempo. Trabalhei numa escola que fica em frente ao mar, num desses bairros distantes e isolados do litoral sul. Nos anos que ali fiquei percebi que algumas casas nunca estavam abertas. Cheguei a entrar em algumas delas, com a ajuda de uma das nossas alunas de suplência, que fazia faxina e cuidava de algumas propriedades. De vez em quando, geralmente nas horas de almoço, ela deixava a gente dar uma olhada pra matar a curiosidade.  A que mais me impressionou foi a que ficava bem em frente da escola. Uma construção típica e comum dos anos 1970, ampla, isolada no terreno, com jardim frontal e quintal nos fundos. Varanda e garagem lateral. O interior parecia um cenário perfeito para um filme de época, tudo original, cortinas, sofás, tapetes, móveis, tudo com cores e estampas extravagantes, com tons de vermelho e laranja. Mistura de era espacial e mundo hippie.  Interessante que, diferente da outras, tinha uma vibração gostosa e não lembrava nada de tristeza e preocupações. Quem fez essa casa passou ali momentos de alegria e descontração. Deve estar lá até hoje, intacta, ainda com os lustres de vidro e lâmpadas transparentes. Ninguém vende, ninguém compra, ninguém entra, a não ser alguns ladrões casuais que já conhecem todas as casas do bairro; e alguns curiosos que colocam risco o emprego das faxineiras e zeladoras.

Nessa escola nós fizemos uma coisa diferente, que agradou muito os pouquíssimos moradores do bairro. Havia um professor de matemática que era terrivelmente ruim na sua função. Ele sabia disso e certa vez confessou o principal motivo, segundo ele. “Eu tenho cara de palhaço e os alunos não me respeitam”, disse conformado e triste. E tinha mesmo. Uma cara de palhaço sem pintura no rosto, misto de alegria e melancolia. Fiquei pensando durante a semana toda sobre como era vida daquele professor. Algum tempo depois, arrancando com a enxada algumas moitas de mato que haviam crescido muito rente aos muros,  descobri  que o professor tinha talento para outras coisas. Vendo a minha dificuldade com a enxada, ele sugeriu que a escola comprasse um mata-mato, veneno que as fábricas químicas chamam comercialmente de defensivo. “É tiro e queda”, disse ele empolgado. E justificou: “Eu sou formado em técnico agrícola”. O merendeiro, que nos escutava, lembrou que a escola já tinha tido uma pequena horta há alguns anos, para uso próprio. Propus então que reativássemos a horta, agora maior e mais diversificada. Os olhos do professor brilharam. Compraríamos as sementes e alguns suplementos agrícolas para correção e adubação do solo. “É muito ácido, mas tem jeito” e topou fazer o trabalho voluntário. Lição na lousa, tudo normal, classe calma, enquanto alguns alunos mais inquietos e fisicamente ativos ajudavam na construção dos canteiros. Não deu outra: a horta vingou, linda, parecia uma plantação japonesa, tal o capricho e a força produtiva, com todos os temperos e legumes possíveis. Quando começou a crescer, o professor me fez outra confissão: contou que tinha abandonado a profissão de técnico agrícola porque  certa vez estragou um serviço que  fez o patrão perder uma lavoura inteira, por causa de um erro de cálculo dos suplementos. Teve que fugir para não ser humilhado pelos colegas. Pensou até em se matar. Morava no interior e foi assim que decidiu vir morar na praia. Fiquei muito preocupado com a horta. Será que ele acertou os cálculos dessa vez? O investimento foi alto. Todo mundo na expectativa. Não falei absolutamente nada sobre isso com ninguém.  Só fiquei mais tranquilo quando ele garantiu que não tinha mais volta nem risco, tudo estava grande e em mais alguns dias já estaríamos colhendo algumas coisas, menos a couve que, apesar de alta e verde, ainda não estava no ponto. O professor estava curado. Matou o mato que trazia no peito e na mente há anos. O Anjo da Guarda dele estava perto de nós, com chapéu de palha, calça velha e camisa surrada, limpíssimas, pés descalços, uma enxada no ombro e um palito de fósforo entre os dentes. E sorria muito, de alegria. O professor não mudou seu jeito de dar aulas de matemática, mas mudou a fisionomia. Não tinha mais cara de palhaço.

  


 

 

 

 

Deim. Giz e cera. Casario da rua São Paulo. Presidente Epitácio.

 

   

   

VI

REFÚGIOS

 

A última crise financeira mundial foi causada pelo mercado de imóveis. Milhares de casas hipotecadas nos Estados Unidos foram tomadas  pelos bancos credores.  Os donos  haviam perdido seus empregos e não conseguiam arcar com as prestações. Porém, eram tantas casas que os bancos perderam a maioria dos clientes e faliram. Muitas dessas pessoas foram morar na casa de parentes e também nas ruas. Com tanta gente precisando de casas e desejando moradias amplas e confortáveis, elas passaram a ser o foco dos negócios financeiros: empréstimos e principalmente os refinanciamentos dessas mesmas casas.

Nas épocas de crise, os imóveis suplementares das famílias mais abastadas sempre entram em oferta, pois seus proprietários precisam reverter esse capital com certa urgência. Compraram quando estavam financeiramente bem e agora podem queimar a gordura que está sobrando. Apartamentos e casas de praia são os mais comuns nesses negócios.

Quando acontece alguma crise nas famílias que moram na Grande São Paulo e no interior, os sobreviventes, quando podem, se refugiam em suas casas de veraneio no litoral. Provavelmente eles também se refugiam nas chácaras, sítios e fazendas.

Os motivos das fugas são muitos, bem como suas histórias, desde os mais corriqueiros, como o tédio ou stress; ou coisas mais graves, como as falências, desemprego, separações conjugais, problemas com os filhos, as mortes súbitas das figuras centrais das famílias ou simples refúgio nos últimos dias de vida dos doentes terminais.

As reações e adaptações também são muito diversas, algumas comovedoras e outras até engraçadas. 

Tem uns que vem para o litoral  para morrer e permanecem vivos durante longos anos; chegam tristes e depois se tornam sorridentes, dando os ombros para tudo que lhe parecem bobagem. Creditam que foram preservados pelo cheiro e a paisagem do mar.  Outros chegam para viver intensamente e acabam morrendo mais rápido do que esperavam, surpreendendo os parentes e os vizinhos que mal tiveram tempo para conhecer.

Mais uma casa fechada a espera do inventário.

São centenas de histórias. Os corretores de imóveis sabem de todas elas e das condições de compra e venda.

As histórias que mais complicadas que ouvíamos eram de falência e desemprego. Os maridos geralmente não apareciam na escola, somente as mães e filhos menores. Algumas ainda com o nariz empinado, críticas e exigentes no início, mas depois iam mudando de postura e ficando amigáveis, passando a colaborar com escola. Nossa coordenadora, a Marli, já desencarnada, era psicóloga e tinha um espírito burguês que se afinava com elas, quebrando aos poucos os traumas. Era difícil para elas verem os filhos estudando na mesma escola que os filhos da faxineira e do porteiro do prédio ou do caseiro. Teve uma que chutou o pau da barraca. Era dondoca do Pacaembu (assim ela se auto denominava), estudou arte e design na FAAP e caiu no limbo financeiro do marido. Dizia: “Eu não vou ficar em casa esperando o mundo rodar porque eu já  tô ficando zonza”. Prestou um concurso para merendeira da prefeitura e saiu da zonzeira.  Tinha também muitos foragidos da justiça. Isso me deixava de orelha em pé, geralmente do Nordeste. Como o distrito policial  e também o batalhão da PM eram perto da escola, ficava relativamente tranquilo. Alguns perigosos apareciam para fazer suplência à noite e ficavam testando a disciplina, de entrada e saída.

Quando chegavam novos moradores, mesmo não tendo filhos, eles davam jeito de aproximarem da escola, pra fazer amizade e ajudar em caso de necessidade. Recebemos certa vez a visita de uma vendedora de Yakult. Ela tinha uma casa de praia como prêmio de desempenho na empresa e escolheu uma na rua da escola. Como acontecem com todos, usam bastante no começo; depois emprestam para os amigos e depois desaparecem por anos, até que as casas sejam vendidas.

Conheci nesse bairro uma outra casa,  aliás muito curiosa, e que foi sofrendo reformas durantes vários anos e que parecia nunca agradar os que ali curtiam o veraneio ou outras estações do ano. “Essa casa é daquela cantora famosa”, alertava o corretor, animado com a possibilidade de faturar uma comissão. Infelizmente ela faleceu e os herdeiros não querem fazer o inventário, acham que não compensa. Uma pena. A casa fica num lugar maravilhoso, entre a orla e a rodovia, de onde se vê, bem próximo, o pé da serra. Em frente tem uma enorme praça do tamanho de uma quadra. É um local muito especial, que nos dias de chuvas rápidas e de mudança de tempo, as gotículas se juntam para flutuar diante da luz do sol e formam um arco-íris enorme, muito maior do que  o paredão de serra que ali descansa frente ao mar. Se existem os portais de um plano para outro, ali é certamente um deles, pois a exposição dos arcos coloridos duram por muitos minutos, parecendo uma grande festa de passagem de almas e seres elementais para o outro mundo.

Nas tardes em que eu ficava para turno da noite, antes que escurecesse, adivinhava que algumas dessas criaturas invisíveis rondavam a escola em busca de socorro até que, em pensamento,  indicasse o rumo das nuvens sobre a pequena montanha, com a nítida ideia de que as portas do céu ainda estavam abertas para os retardatários. Nem todos conseguiam e ficavam por ali perambulando, à espera de uma nova chance.

     

 Deim. Giz de cêra. Tempestade sobre o rio.

 

 

   VII

 APARTAMENTOS

 

Este apartamento em que moro é pequeno e muito aconchegante. Sala-living. Digo aconchegante porque me acostumei. Moro nos fundos, sozinho e tenho uma pequena vista para o mar, num corredor entre dois prédios pelo qual vejo os carros subindo e descendo da Ilha Porchat; e também a saída e a entrada de navios do Porto de Santos. Tudo muito rápido porque o corredor é de apenas seis a oito metros de largura. Má dá pra ver nitidamente o que acontece. É um consolo.  Sabia que um dia isso acontecer. Lendo um livro quando ainda estava na faculdade, fiquei impressionado com a descrição do prédio e do quarto onde morava o protagonista, abarrotado de livros e revistas até o teto. Me vi em Paris morando naquele quarto. Essa lembrança voltou à minha imaginação muitos anos depois, quando me deliciei ao ver o prédio e o apartamento de Amélie Poulaim e também os dos seus vizinhos estranhos e solitários. O bairro e a casa onde morava o pai de Amelie e também a do casal de velhos “Bretodeau” (pais do quitandeiro e vizinho dela) , bem como todos as demais moradias desse filme, foram construídos propositalmente como cenários bucólicos. Mas isso não importa. São livros e filmes. Sonhei que um dia iria morar em um desses lugares, curtindo também a solidão incurável dos personagens. Aconteceu, mas sem livros e revistas até o teto. Amo o minimalismo, até por questão de necessidade. Mas essa solidão durou pouco menos de um ano.

Minha filha entrou em crise e veio morar comigo. Também já esperava por isso. Ela precisa tomar rumo na vida e aportou no meu apartamento, depois de desistir de morar com os avós em São Paulo. Na verdade, eu a mãe dela fizemos com que  desistisse porque  a vimos insegura e demorando muito para nos comunicar a incerteza sobre se essa mudança realmente seria  benéfica para ela. Acertamos. Morando comigo e percebendo que eu estava meio sem rumo depois de 40 dias de isolamento, ela sugeriu: “Escreva um livro”!   Eu havia dito a ela há algum tempo que pretendia escrever sobre os lugares e casas que morei e expliquei os motivos e a importância do assunto, como registro memorial e como descoberta dos nós existenciais que podem ser desatados. 

  O outro apartamento em que morei, quatro anos antes, era maior e mais sofisticado. Foi fruto de uma crise conjugal. Como não tinha mobília, dava impressão que era gigantesco. A proprietária era tão chata e metódica que nunca tive vontade de pendurar nada nas paredes nem comprar nada para preencher o espaço vazio.  Só a cozinha estava equipada com o essencial: geladeira e fogão. Nos quarto apenas dois colchões e minha mala de viagens com as roupas e mancebo que eu e minha filha encontramos na rua. Está até hoje comigo, no banheiro.   Na área de serviço, sem máquina e com um pequeno tanque, sobrava muito espaço e tinha uma vista espetacular, da linha do VLT, da maioria das vilas de São Vicente na direção de Santos, na zona noroeste; de Cubatão com suas chaminés e bicos de chamas de gás; e da Serra do Mar. Na sala tinha uma sacada bem confortável para leitura, com vistas para um mar de prédios, porém não tinha comparação com a área de serviço. Em todos os horários. Durante a feira, nas sextas de manhã; o movimento dos trens e um intenso tráfego das avenidas laterais. O barulho diminuía na medida que avançava a noite. No outono as luas eram espetaculares, surgindo atrás dos morros Voturuá e Itararé, enormes e alaranjadas no início da noite, para depois, no meio da noite se fixar bem cima do meu prédio, já cor de prata. Não tinha vontade nenhuma de dormir, embora tivesse que levantar cedo para estar na escola às 7 horas, na periferia. À noite ia e voltava à pé da faculdade onde também dava aulas. Nas madrugadas, entre os inúmeros habitantes noturnos, surgia uma figura toda vestida de negro, travestida. Vinha da avenida presidente Wilson, atravessava linha férrea e ficava por alguns minutos na esquina da avenida Marechal Deodoro, sozinha ou conversando com um ou outro notívago que surgia de carro (nunca entrava neles), bicicleta ou à pé. Depois desaparecia nas ruas desertas da Vila Valença. Dificilmente voltava. No início achávamos que se tratava de feitiço, pois ela carregava algo coberto com um pano. Como não depositava nada nos trilhos nem no cruzamento, excluímos essa hipótese. Só poderia ser traficante então. Mas não tinha nenhum indício de uma cena comercial, mesmo camuflada. Essa hipótese também foi eliminada. Por sugestão da minha namorada, passamos a vigiar com as luzes apagadas. Ficamos divididos entre o programa sexual (dela) e a simples fantasia de alguém que durante o dia era alguém de boa família e de bons costumes. Sugeri de irmos até ela para conversar, matar a curiosidade, mas não tivemos coragem. Achei que não seria nada demais, mas a minha namorada achou arriscado. Dois dias antes tínhamos visto uma discussão e briga de uma prostituta com um cliente bêbado. Ela cobrava o dinheiro do programa e ele dizia que não iria pagar porque ela era namorada dele. “Namorado não paga”, dizia ele. E começava a rir. E ela furiosa, xingava e continuava cobrando. E ele respondia: “ Você sempre me chama de meu amor, então é minha namorada.“Não pago. Não pago”. “Te pago uma cerveja, quer? 

    


 

 

 

Deim. Aquarela. Casa da Vila Tibiriçá.

 

 

VIII

A VILA

 

A Vila em que morávamos nos anos 60 era um antigo porto fluvial particular, propriedade de uma companhia de colonização fundada em 1905 por duas grandes famílias paulistas: os Tibiriçá e o Diederichsen. Ficava no extremo oeste do estado, na divisa com Mato Grosso. O rio Paraná ficava praticamente em nosso quintal. Meus avós já eram funcionários aposentados dessa empresa quando meus pais ingressaram nos seus quadros. Os aposentados tinham que mudar da vila e ceder suas casas para os funcionários que estavam na fila de espera, de acordo com a graduação profissional. Foi assim que meus avós fora morar na cidade e nós ficamos em Tibiriçá até 1967, quando a empresa fechou e a vila foi vendida par um grande frigorífico que se instalava na região, nas margens do rio e próximo da rodovia Raposo Tavares. Nossa casa era de alvenaria; as dos meus avós eram de madeira. O piso era de tacos  e na cozinha, banheiros e na varanda  era de ladrilhos vermelho-ocre, cujos cacos já eram moda para revestir os quintais. Na minha casa eles eram inteiros e eu adorava deslizar neles quando a varando era lavada com sabão em pó, para depois ser encerada. Em frente de casa tinha um imenso campo gramado, de passeio e de jogos de futebol. A maioria das casas estava de frente para esse campo, que era ornamentado por árvores de cedro. Entre elas haviam bancos de madeira, onde as pessoas se reuniam para conversar. O banco de uma das extremidades do campo era frequentado só homens e por isso era chamado de Banco do Pecado.  As ruas eram todas de terra e protegidas da erosão por uma grama rasteira natural. Esse campo não existe mais. Foi usado na construção de casas populares. Mas quando existia era muito bonito, apesar de simples. Ele foi registrado em imagens em preto e branco, feitas pelo fotógrafo alemão Konrad Vopell, em 1938. Voppel desembarcou no porto de Santos como turista e registrou com sua lente os lugares mais interessante da Capital e do estado, sobretudo as colônias industriais construídas pelas empresas estrangeiras. Tibiriçá era uma delas, quando a Tibiriçá Diederichsen foi vendida para um grupo alemã, já com o nome de Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso.

Konrad Voppel provavelmente era um espião nazista ou então um observador que trabalha para o governo alemão e também para empresas do seu país interessadas nos negócios da América do Sul. O trabalho dele era o registro das atividades econômicas que pudesse interessar aos investidores e também seus sócios que eram membros do governo. Antes deles esse trabalho de observação ou espionagem foi feito durante alguns anos pelo Zepeplin, o dirigível  que rodou o mundo em busca de informações para Hitler. Com os acidentes e sabotagens, o Zeppelin se tornou inconveniente. Foi então que os fotógrafos voltaram ao seus antigos trabalho de peregrinos. No início dos anos 70 esteve em Presidente Epitácio e Tibiriçá um fotógrafo japonês, que registrou também imagens curiosas dos arredores da cidade, sobretudo da navegação fluvial. Na época havia rumores que o Japão estava interessado em terras da região centro oeste, para expandir negócios e aliar a pressão populacional com um plano de imigração em massa para o Brasil.

Os estrangeiros adoravam Tibiriçá. Essa mesma empresa mais tarde seria revendida para o mega empresário tcheco Jan Antonin Bata, fundador das industrias de  calçados Bata, com filiais em muitos países. Bata acreditava que sua missão no mundo era fundar cidades e suas criações urbanas são famosas no mundo inteiro. Seu plano era criar uma ampla rede produtiva em Mato Grosso, interligada por ferrovias e o Porto Tibiriçá seria o ponto estratégico para recepção, distribuição no estado paulista e escoamento de exportação no porto de Santos. No Brasil, Jan Antonim Bata fundou algumas colônias  agrícolas importantes como a de Batatuba (Piracaia), onde construiu uma casa maravilhosa para morar com a família. As ruínas dessa casa existem até hoje. Fundou em Mato Grosso as cidades de Bataguassu e Bataiporã, cujas terras no entorno foram transformadas em centenas de chácaras, sítios e fazendas, algumas delas verdadeiros latifúndios de gado de corte. Conheci uma dessa fazendas, na cidade de Anaurilândia, que possuía um sede espetacular, toda construída em madeira de lei, com muito aposentos e até uma sala de armas, muito comum nas fazendas, por causa das onças que atacavam as rezes. Nessa visita à famosa “Fazenda Estância Boiadeira” tive uma grata surpresa ao encontrar num quartinho fora da sede algumas caixas com antigos talões de embarque de gado assinados por um dos meus avôs – Comandante Maurício Xavier Duque- que chefiava o serviço de balsas de travessia de gado entre o Porto XV (MT) e o Porto Tibiriçá (SP). O gado era conduzido até a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, em Presidente Epitácio, e de lá embarcado para São Paulo. Nesse mesmo esquema logístico de transporte fluvial e ferroviário funcionava também  a extração de madeira, cujas toras eram levadas em chatas pelo rebocadores fluvial da mesma empresa. Só um detalhe: a antiga Companhia de Viação SP-MT teve que mudar de nome durante a guerra, pois foi encampada pelo governo federal, por ser de propriedade estrangeira e considerada de interesse para a segurança nacional. Passou então a ser denominada Serviço de Navegação da Bacia do Prata-SNPB, autarquia pública ligada a diversos ministérios, dependo dos governos eleitos nesse período. Meus pais ingressaram na mesma empresa onde trabalharam meu avós, morando na mesma vila,  já na condição funcionários públicos , contratados e depois concursado pelo DASP, nos anos 1950. Essa situação durou até 1967, quando tivemos que mudar para Presidente Epitácio, pois a nossa casa seria ocupada por um dos funcionários do Frigorífico União. Mais tarde a propriedade do Porto Tibiriçá seria vendida para o Frigorífico Bordon e depois Swiftt, marca de aluguel para exportação de carnes.  

Foi na varanda de ladrilhos da casa em Tibiriçá que ficou gravada em minha memória uma cena que teria influência marcante no meu envolvimento com o trabalho voluntário de prevenção do suicídio. Já de madrugada, minha chorando ao saber que um tio nosso havia tentado o suicídio dando um tiro em um dos ouvidos. A arma que ele usou pertencia ao meu avô. Mas nessa casa tivemos momentos felizes, festas de aniversário, jantares para amigos, páscoas, natais e revellions. Nessa época morava conosco a nossa madrinha Manoela Borges, pessoa que havia criado meus avós e minha mãe. Ela era separada, ex-mulher de Guilherme Borges, que foi gerente da Companhia de Viação e da Fazenda CIMA, em Indiana, onde minha mãe havia morado com elas, como filha adotiva. Eles tinham perdido uma filha de 17 anos, com tuberculose e minha avó, para minimizar o sofrimento deles, deixou que minha mãe fosse viver com eles. Em 1967, Dona Manoela recebeu em nossa casa uma visita muito especial de uma amiga de muitos anos. Era Dona Cacilda, que foi professora do meu pai na escola primária de Tibiriçá. Ela trouxe com ela os dois filhos, que eram músicos de grande sucesso e se apresentavam em todas as rádios e emissoras de TV. Chamavam-se Neno e Irupê.  Naquele dia eles fariam um baile-show no clube da Sociedade Filarmônica 27 de Março, em Presidente Epitácio. Vieram acompanhados de outros músicos que formavam o conjunto The Jordans, para o lançamento do LP Studio 17, com o single “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago. A presença de todos eles na minha casa causou um furor em toda a vila. O povo invadiu o nosso quintal e ocupou a varanda e as janelas para ver os astros da TV e do cinema ( no filme O Puritano da Rua Augusta). Neno e Irupê foram depois componentes do RC 7, banda exclusiva do Roberto Carlos e que aparece em todos os filmes do Rei da Jovem Guarda. Uma lembrança grata sobre eles: em visita a Londres, já nos anos 70, eles foram reconhecidos num restaurantes com “músicos brasileiros” e tiveram uma rápida, porém curiosa conversa sobre a bossa nova e outros estilos de música “tropical” com dois artistas já bastante conhecidos na Inglaterra e no mundo. Eram John Lennon e Ringo Star. O encontro deles foi registrado numa foto bastante divulgada na internet.

 

  

  IX

 JARDINEIRO

 

Recentemente perguntei a minha mãe quem foi João Puba e logo sua fisionomia grave transformou-se num sorriso, fruto de uma grata recordação de infância. João Puba era o jardineiro da  casa da gerência do Serviço de Navegação da Bacia do Prata e que sempre demonstrou um grande afeto pela minha mãe. Pai de uma grande prole e originário do sertão de Minas Gerais, seu João Puba era cultuador da Festa de Folia de Reis em Tibiriçá e minha mãe e suas amigas eram encarregadas de arregimentar as crianças para abrilhantar a festa e não deixar morrer a tradição que ela tanto prezava. Pessoa de aparência e hábitos simples, seu João  cumpria à risca as ordens dos superiores para manter a ordem e a beleza da Vila Tibiriçá como se fosse um grande jardim de todos que ali moravam.

Conta-se que no dia do falecimento de Armênio Ribeiro, administrador do porto e do Distrito,  o velho jardineiro estava muito preocupado e logo cedo tratou de cuidar para que o enterro do chefe  fosse realizado conforme a vontade do morto. Ele havia solicitado por diversas vezes para que não fosse esquecida sua última vontade ao partir de Tibiriçá. Aproveitando a fartura da época, Seu João logo se apressou, pois não havia muito tempo para que a tarefa fosse realmente cumprida. Os amigos vendo-o quase em estado de aflição, com medo de não conseguir cumprir o que havia prometido, tentavam dissuadi-lo a fazer somente o que fosse possível, mas seu João não concordava. Queria fazer tal qual fora bastante recomendado.

 Graças a ele, o enterro, que seria realizado no antigo cemitério de Epitácio, teve um momento especial de beleza, gratidão e respeito pelo chefe que partia. O trecho entre a porta da Casa da Gerência até o Mata-Burro, próximo ao aeroporto, não era curto e também não era muito longo, porém, naquele dia triste e inesquecível, o chão, sem falhas no percurso, estava forrado de centenas pétalas de rosa e provavelmente milhares de pétalas de flores de primavera.

Mas o sorriso de minha mãe não foi somente por ter tido essa lembrança da agonia do velho amigo jardineiro e do enterro do Seu Ribeiro. Ao ser questionada por mim, ela respondeu prontamente:

“O Espírito do Seu João Puba foi a minha primeira vidência. Numa noite, logo após o jantar, enquanto o Padrinho Guilherme (Borges) lia na sala, intuitivamente me dirigi para a porta que dava para o quintal e deparei com um forte estrondo seguindo de um enorme e inexplicável clarão. Lá estava o Seu João Puba sob as árvores, com a mesma roupa simples, sorridente e segurando sua boa e velha enxada de trabalho. Era um sinal de que ele me acompanharia na minha tarefa espiritual até que pudesse aprender a lidar sozinha com a minha mediunidade”.

Em nossa família, todos, de alguma forma, tiveram contato com essas informações sobre as verdades espirituais e recebeu essa influência com as respectivas repercussões íntimas para cada um. Nenhum de nós, portanto, poderá alegar ignorância e falta de oportunidades, caso algum dia nossas consciências façam esse tipo de cobrança. 

A desocupação da Vila Tibiriçá é um assunto que ficou pendente na vida da minha mãe e dos funcionários da Bacia do Prata. Foi um processo meio confuso, rápido e cheio de contradições. Políticos e empresários epitacianos tinham interesse em se apropriar do Porto Tibiriçá se aproveitando do processo de desmonte da bacia do Prata e a entrada do de um frigorífico na cidade, que utilizaria as casas para os funcionários. Uma negociata obscura que na época era difícil questionar, por causa do regime militar. Ninguém sabe até como uma área pública foi para nas mãos de uma empresa particular e parte desse patrimônio caiu nas mãos de especuladores imobiliários: áreas ribeirinhas de exploração do turismo, pastos de gado transformados em chácaras e sítios e o parque Figueiral e o aeroporto, que ficou sob posse da prefeitura. A parte que ficou sob interesse privado foi renegociado quando o Frigorífico Bordon sucedeu o  União. O mesmo aconteceu recentemente com o JBS, depois de um longo período de desativação. A vila permaneceu ocupada por funcionários e ninguém foi incomodado, diferente do aconteceu com os moradores do tempo da Bacia do Prata.

 


 

 

 

 

 

Deim. Aquarela. Vila Tiribiçá.

 

 

 X

CASAS

 

Quando saímos de Tibiriçá,  moramos em  em mais quatro casas em Epitácio, duas alugadas e as outras duas pertecentes aos meus avós, paternos e maternos. Nossos avós maternos viviam nu sítio em Mato Grosso,  adquirido da Companhia de Viação  SP-MT. A duas casas alugadas foram de estadia rápida e transitória. Meus pais estavam meio desnorteados, pois nunca tiveram problemas com moradia e achavam que a estabilidade da Vila de Tibiriçá duraria até a aposentadoria deles, como aconteceu com meu avós. Com a extinção do serviço fluvial de travessia, a maioria dos moradores teve que se mudar às pressas.

As casas dos meus avós eram completamente difrentes e refletiam exatamente o que eram intimamente. As duas eram de alvenaria, diferentes das casas alugadas que moramos anteriormente, que eram de madeira. Casas de madeira eram muito comuns na região. Já as casas de alvenaria eram raras e dizia-se que eram de “material”, no sentido de serem diferenciadas na concepção e construção.  Mas haviam também casas de madeira muito amplas e bonitas, que aproveitavam bem a fartura desse pruduto  ofecido pelas inúmeras serrarias e madereiras que haviam na cidade. Só em Epitácio, nos anos 1950, haviam 18 grandes serrarias, numa cidade com pouco mais de dois mil habitantes. Entretando, a habitação de material era sinônimo de ascensão social dos profissionais estáveis e abastados. Eram feitas por empreiteiros que atuavam na região,  que funcionam ao mesmo tempo como engenheiros e arquitetos. Nesse período começam a surgir também as olarias, que fabricavam tijolos e telhas. Era um negócio dominado geralmente por portugues e espanhóis. 

A casa da rua Cuiabá não era luxuosa, mas tinha a intenção de mostrar a conquista  do novo status quo do meu avô. Ele era um funcionário público aposentado e também sitiante.  Além dessa casa , meus avós possuíam uma chácara, de um pouco mais de um alqueire, que ficava no extremo da mesma rua, na direção da barranca do rio. Ali minha avó começou suas atividades leiteiras, que depois transferiu para o sítio em Mato Grosso, no município de Bataguassu. A casa da rua Cuiabá  tinha um quintal enorme. Alí  minha avó reproduziu num pomar de árvores praticamente todas as espécies frutíferas que existiam na sua terra de origem, na região de Sobradinho, e também do meu avô, que era de Carinhanha, Bahia. Lembro nitidamente dos dois pés de umbú, com pequenas folhas verdes claras; dois  pés de pinha; um pé de jaca, duas jaboticabeiras, sendo uma no jardim de fronte para a rua; uma goiabeira, um pé de cajá-manga e outro de cajazinho; três mangueiras, uma espada e duas rosa; dois ou três mamoeiros; um grande abacateiro; e finalmente a minha preferida, a arvore de tamarindo, não pela fruta, que não gostava por ser muito azeda, pela pela sua aparência de superioridade, galhos firmes, escuros,  estirirados e que avançavam por cima dos muros vizinhos. Era o quintal dos sonhos de qualquer criança, no qual criei até um filhore de tatu, por pouco tempo, encontrado na estrada pelo meu meu pai. Nesse quintal também havia uma pequeno depósito feito de madeira e corbeto com telha, que serviu para o primeiro espaço de bricadeiras de oficina, escritório e que depois se tranformou num clube. Nessa época eu era escoteiro e já tinha visto no cinema o filme Os Meninos da Rua Paul, inspirado na  obra de Ferenc Molnár,   jornalista e escritor húngaro. A escola fica quase ao lado de casa e dava para escutar o sino de aviso para formar filas no pátio.

Meu avós maternos  vieram para o Porto Tibiriçá nos anos 1920 como retirantes e não se conheciam. Nessa época Epitácio não existia. Só surgiria com a chegada dos trilhos ferroviários que avançavam além da serra de Batucatu. Antes disso, no incío do século, toda a região oeste paulista era selvagem.  Quando chegaram, meu avô foi trabalhar nas obras da Estrada de Ferro Sorocabana e minha avó como empregada doméstica na casa de Guilherme e Manoela Borges. Com o passar tempo eles adquiriram uma casa vizinha na rua Cuiabá, de madeira, que alugavam para ajudar nas despesas. Eles, Maurício e Maria, tiveram cinco filhos, duas mulheres e três homens. Dois desses filhos eram solteiros e moravam conosco nesse período. Também passavam algumas temporadas no sítio, que se chama São Guilherme, nome provavelmente escolhido pela minha avó Maria para homenagear o padrinho Guilherme Borges, que nessa altura da vida vivia em Presiente Prudente, separado de dona Manoela Borges. Seu Guilherme Borges aparece nos relatório de viagem do Dr. Adolpho Lutz, numa expedição cientifica de 1913 entre Tibiriçá e Guaíra, no rio Paraná.  O sítio durou cerca de 30 anos, quando as terras daquela região foram inundadas pela usina hidrelétrica de Porto Primvera, formado um lago de 16 quilômetro no rio Paraná. Meu avós voltaram a morar em Presidente Epitácio, onde terminaram seus dias.

 O sítio deles na Reta A-1 era uma propridade de 51 alqueires que tinha como vizinhos alguns sitiantes e também fazendeiros, com terras com o tamanho de 600 a 800 alqueires, que no Mato Grosso era contado como 48 mil metros quadrados cada. Um deles era Seu Faustino Azenha, também  proprietário do primeiro cinema de Epitácio.  Os varjões dominavam as fazendas, enquanto os sítios foram ocupados em local mais alto e seco. Durante as noites era possível ver uma imensidão de vagalumes e, no varjão, o movimento misterioso de uma pequena feixe de luz prateada, muito forte e rápida, se escondendo e aparecendo na vegetação baixa. “fogo fátuo”, para os céticos, efeito da decomposição orgçanica de animais;  ou boitatá, espíritos da mata, para os caboclos pirangueiros.    

A primeira casa do sítio na Reta A-1 foi feita de madeira, duas águas, com tábuas verticais. Não tinha varanda, nem forro e os quartos faziam parede com um paiol de milho e ferramentas. O fogão era de tijolo e revistido de vermelhão. O piso era de chão batido. Os banheiros eram externos e feito também com tábuas de madeira, um com fossa; e outro só para banho, com piso de tijolos. Não havia eletricidade e a água era retirada de um córrego que ficava em frente, a uns 15 ou metros da casa. Era o Córrego da Anta, que tinha vários pontos largos e estreitos e desaguava no rio Paraná.

A segunda casa do sítio era pré-moldada e foi adquirida quando houve a oferta de muitas delas, do canteiro de obras do DNER, durante na finalização da contrução Ponte sobre rio Paraná, ligando São Paulo a Mato Grosso.  Era de madeira  também, telhado de uma água e não tinha banheiro. Mas tinha forro, vidraças e assoalho de madeira. Tinha uma pequena varanda nos fundos. Na cozinha foi feito um piso de de cimento queimado, com vermelhão, assim como um novo fogão de tijolos. No quintal havia o banheiro, o sanitário e um poço artesanal, cuja a água passou ser ser retirada com bomba a óleo Diesel. Haviam árvores relativamente grandes ao redor da casa, oferecendo sombra nos dias de sol.

A terceira casa do sítio também foi feita de madeira, para que fosse ocupada por um dos meus tios, que casou e foi morar lá co a sua jovem esposa. Lá tiveram tiveram dois filhos e algum tempo depois foram cuidar da vida em outros lugares. Acredito que foi o melhor período da nossa infância , onde passávamos as férias e feriados longos. Foi onde aprendi a nadar, jogado por esse tio, de surpresa, numa lagoa formada pelo córrego e que fica numa fazenda vizinha. Ele teve sucesso na sua intenção de ensinar algo que se deve aprender sozinho. Foi ele também também que me ajudou a comprar meu primeiro carro ( uma Brasília 77), vendida por ele em longas prestações. A placa era de Bataguassu-MS e as multas tomadas em São Paulo nunca chegavam para pagar, pois não havia comunicação de dados entre os Detrans do estados. Esse meu tio me vendeu um segundo carro, também meio na faixa, um Gol BX 82 à àlcool. Algum tempo depois depois, adquiri um Passat 79, comprado em Osasco, que usei algum tempo em São Paulo e depois tornou-se para mim um marco de negócio. Era um carro veloz e confortável, embora já bastante usado. Passando férias em Epitácio, li um anúncio no único jornal local, que era semanário, ví que alguém havia colocado uma casa à venda, na rua Curitiba. Era um jovem borracheiro que queria se mudar da cidade e quando viu o Passat ficou alucinado. Paguei uma pequena diferença e fiquei com a casa. Tinha como vizinhos um funcionário do Banespa, vindo de Santo Anastácio; e uma famíla antiga e amiga de Tibiriçá.       

A outra casa de material , dos avós paternos, ficava ao lado da antiga agência dos Correios e também da Delegacia dos Portos, da Marinha de Guerra. Esse dois prédios, geminados, petenciam ao meu avô, também aposentado da SNBP, mas não era sitiante. Complementava a aposentadoria com alguéis, incluido a primeira casa que construíram antes dessa fomos morar. Essa casa era mais moderna e espaçosa, com  amplas varandas na frente e nos fundos, além de uma garagem comberta. Esse meu avô nasceu da região do Vale do Paraíba (São José dos Campos) , mas viveu algum tempo no Rio de Janeiro. Soube da transformação causa pelas ferroas no interior de São Paulo e foi tentar a sorte no Porto Tibiriçá, trabalhando num hotel. Minha avó era imigrante húngara, que veio com os pais e irmãos em 1924 para povoar a Colônia Arpad Falva, que ficava entre Presidente Epitácio e Caiuá. Eles se conheceram nos bailes que eram realizados na colônia e frequentados por rapazes e moças da região. Iam à pé ou de trem. Carlos e Verônica (Vera) tiveram também cinco filhos, dois homens, incluindo meu pai, e três mulheres. Após a aposentadoria em Tibiriçá , se fixaram em Epitácio , onde também terminaram seus dias. Uma curiosidade, esse meu avô faleceu durante uma viagem ao Rio de Janeiro, quando tentava uma colocação para o meu tio – o caçula- nos quadros da marinha mercante. Os corpos dos meus avós alguns tios e também do me pai estão enterrados em Presidente Epitácio,  num espaço público denominado Cemitério da Igualdade, no qual as sepulturas são todas no chão de terra e coberta por grama ou flores, tendo apenas uma simples placa de mármore, com a identificação dos mortos, sem nenhuma exceção.

Nessa casa ficamos apenas alguns meses, pois meu avô havia falecido há alguns anos e minha avó morava sozinha. Em 28 de março de 1974 mudamos para São Vicente, já que meus pais continuavam em regime de disponibilidade da SNBP, podendo escolher algumas cidades onde houvesse serviços do Ministério dos Transportes. Escolheram São Vicente de olho no Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis, em Santos. Não chegaram a trabalhar nesse setor, pois aposentaram-se antes de serem chamados.  Mesmo assim, trabalhavam em outras empresas, para complementar a renda. Éramos seis filhos homens, um com três meses de idade, dois pré-adolencentes e dois quase adultos.

    

Deim. Aquarela. Campo da Vila Tiribiçá. .

 

  

XI

 ESQUINA

 

Em 1972 meus pais viviam um momento de agonia pessoal, uma crise familiar e ao mesmo existencial que exigia mudança de rumos. Mesmo recebendo seus salários do serviço público,   eles tentavam ampliar os ganhos e horizontes em busca de algo melhor para todos. Vivíamos modestamente, mas não era suficiente. Meus avós ajudavam. E como.  Precisava acontecer algo diferente e que provocasse uma mudança no roteiro de nossas vidas. Nossa Madrinha Manoela tinha morrido um ano antes e um sentimento de orfandade  tomou conta da famíla. Ela era madrinha dos meus avós, dos meu tios, dos nossos primos e de muitas pessoas na cidade. Isso acentuou a nossa crise familiar. Meu pai trabalha em serviços extras e até teve um bar em sociedade com o amigo  muito querido na cidade. Era um imigrante espanhol.  Minha mãe tentou um negócio de cosméticos. Outro amigo, empresário da panificação, queria que ele assumisse de vez a gerência  do negócio, pois queria passar um longo tempo  em Portugal. Meu pai tocava a padaria durante essas férias do amigo, mas não era isso que ele queria. Minha mãe não sabia o que ele queria e talvez nem ele próprio sabia. Era uma insatisfação indecifrável. Mas ele tinha dívidas. Contas urgentes a pagar. A agonia aumentou, apesar da ajuda de parentes e amigos muito caros. Numa manhã de sábado ele saiu de casa para ir bar conversar com os amigos, os de sempre. Nada de diferente. Veio almoçar e saiu de novo. Quando voltou entrou em casa apressado com um sorriso estampado no rosto, uma alegria diferente. Dirigiu-se ao quarto, abriu a porta do guarda- roupa e pegou algo que estava guardado no bolso de um paletó. Geralmente ele guadava dinheiro e maços de cigarros da marca Continental, sem filtro. Naquela dia não foi cigarro nem dinheiro, quer dizer era outro tipo de dinheiro. Pegou o que procurava e saiu com a mesma pressa com que havia entrado. Minha mãe estava na sala e corri até ela para perguntar o que tinha acontecido. Ela me respondeu, também sorridente: “Seu pai ganhou na loteria”. Ele tinha vindo pegar os bilhetes que tinham sido premiados no sorteio da Loteria Federal. Eram três pedaços com final 84. Touro, no jogo do bicho e também signo dele. Depois soubemos que ele tinha encomendado um bilhete inteiro, mas o vendedor de loteria só tinha três pedaços. Deixou com ele  e prometeu voltar com mais dois pedaços até fim do dia. Não apareceu. O prêmio foi de 65 mil cruzeiros. Uma festa na cidade, apesar da quantia modesta, pois no ano anterior um empresário havia ganho 350 mil, um verdadeira fortuna. A sorte rondava as ruas de Epitácio. Na segunda-feira, quando cheguei na escola para entrar na fila da minha classe, a professora anunciou o que todos já sabiam. Ela estava feliz de verdade, enquanto a escola inteira olhava para mim. Eu acreditei naquele instante que realmente havia ficado rico. Foi uma sensação maravilhosa e indescritível. Nunca tive tantos amigos e admiradores mirins. A vida seguiu. Meu  pai pagou as nossas e outras contas, ajudando alguns amigos, comprou uma Kombi zero quilômetro – lembro até hoje do cheiro de plástico e de novidade que ela tinha – comprou uma casa e não quis comprar um sítio que estava á venda, próximo do sítio do meu avô. Minha avó Maria , que era sogra dele e fã do programa do Zé Bétio foi quem tinha sugerido a compra. Não ouviu o conselho porque era da sogra e talvez não conhecia o ditado repetido diáriamente pelo grande aprentador sertanejo: “Quem compra terra não erra”. Mas restaram a Kombi e a casa. A Kombi nos levou a uma viagem de férias em Praia Grande, na vila Tupi. Foi quando conheci o mar e tudo que os turistas conhecem na orla da Baixada Santista. Voltamos encantados. Passamos na ida e na volta por dentro de São Paulo. E minha voltou da viajem com algumas ideias na cabeça. Meu pai continou deslubrado e preso a Epitácio; e minha mãe em busca de alguma outra transformação mais importante e outra alegria diferente daquela que estava no seu sorriso quando me de a notícia do prêmio loteria.

A casa comprada ficava na equina na rua Curitiba com a rua Guanabara, há apenas duas quadras de onde morávamos. Fomos ver e voltamos alegres, pois enfim , depois de tento tempo teríamos a nossa própria casa, e de esquina. Era uma casa simples, de madeira com tábuas horizontais  e paredes duplas e ocas, para frescor no verão e calor no inverno,  no estilo dos bangalôs americanos, com varanda e garagem. Uma graça, muito bem conservada com tinta à óleo. Era verde musgo por fora e creme por dentro. Tinha ainda um terreno anexo, todo arborizado, onde havia um pomar. Perfeito para brincar. Durante o mês inteiro eu pegava as chaves  e visitava a casa até duas ou trê vezez ao dia, para ver ou mostar para alguns colegas. As visitas terminaram algum tempo depois quando soubemos que meu pai havia vendido a casa. A crise voltou ou estava no seu processo contínuo, não concluída. Durante algum tempo, já adolescente e vivendo em São Vicente,  me via morando sozinho nessa casa. Lembro que nessa fantasia tinha um Mini Bug na garagem  e na sala tinha uma garrafa de licor de menta. E uma namorada linda, que depois soube que tinha se casado e mudado para bem longe de Epitácio. Esqueci tudo isso quando comecei descobrir as praias de São Vicente e lugares interessante em Santos.

Tivemos que mudar da casa dos meus avós paternos e fomos morar na casa da avó paterna, dona Verônica, que há pouco tempo tinha perdido a sua mãe, a nossa bisavó Maria Szucs, que não falava uma única frase em português. E nunhum de nós falava húngaro e só nos comunicavmos com ela por gestos e olhares.  Era a vó Santa, pois ela usava um lenço azul escuro na cabeça que lembrava as imagens de santas da Igreja. Ela pegava nas nossas mãos e dizia muitas coisas, sempre sorrindo, dando conselhos e fazendo observações, que advinhávamos com os seus olhares vivos, sobre as coisas do dia a dia. Como a miha vó, elas tinha olhos azuis. Corrigindo, a vó Santa ainda se lembrava de algumas frases em português quando tocava o telefone (aqueles aparelhos negros e pesados). Chegava perto do telefone, não tirava do gancho, e gritava: “Não tem ninguém”!!!  Quando ouvia trovões,  advertia: “Sokat esik az eső”, está chovendo por aí, na tradução da vó Vera. 

 



 
 Deim. de cêra. Casa da Vila Tiribiçá.

 

 

XII

  SOBRADINHO

 

Não tinhamos sofás nem camas. Só colchões e livros em pilhas para sentar. Era um tempo em que as coleções de livros faziam parte do acervo das casas. Tínhamos Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, a Gramática de Jânio Quadros (num mini suporte de madeira imitando o Congresso Nacional) , José Mauro de Vasconcellos e o Trópico Ilustrado, enciclopédia colorida, para substituir as caríssimas Delta e Britânica. E alguns livros espíritas, pois sempre tinha alguém pedindo emprestado  e não devolvia, porque pedia para emprestar para outra pessoa. Nossa mudança se resumia numa geladeira, fogão, botijão de gás, enxoval de família e roupas pessoais. Uma TV Colorado RQ garantia a diversão de todos, com a novela Fogo sobre Terra, com Juca de Oliveira e Dina Sfat, sucessora de Selva de Pedra.   

São Vicente e toda a região tinha um cheiro diferente de tudo conhecíamos, uma mistura de maresia e gases emitidos pelas indústrias químicas de Cubatão, sobretudo à noite. O que mais me fascinana nesso horário era ver as lanternas vermelhas sobre os edifícios altos da orla e, no céu,  a luz alaranjada emitida dos bicos de fogo das torres da refinaria da Petrobrás.

Foi uma semana de incertezas e expectativas. Minha queria morar em Paulo e pai não queira sair de Epitácio. São Vicente foi o meio termo. Um alívio para os dois e uma grande aventura para todos.

Estávamos instalados num sobrado na rua Uberaba, sem garagem, no Jardim Independência. A avenida Prefeito José Monteiro não tinha calçamento, como nehuma outra rua do bairro, exceto a Anita Costa, que tinha paralelepípedo. As pedreiras próxima aos morros funcionavam a todo vapor com explosões de dinamite de manhã e à tarde. Poucos meses depois fomos morar na rua Rio de Janeiro, numa casa maior. Uma rua cheia de famílias como a nossa, com muitos filhos e de olho no futuro. Havia nessa rua um conjunto residencial que se chavama Verde Oliva, onde  moravam muitos militares que serviam no Batalhão de Caçadores no Cascatinha. Ainda estávamos no regime militar e isso influenciou até na mudança do nome do bairro, que antes se chamava Vila da Misericórdia. A construção do Oliva exigia um nome mais apropriado e cívico, então homenagearam assim o  Sesquicenário da Indpendência. 

Chegamos em março e não encontramos vagas nas escolas da cidade.  Fomos estudar em Santos, numa escola na avenida Ana Costa (Dino Bueno), que fica ao lado do grande orfanato fundado por Anália Franco. Íamos sozinhos, de ônibus. De vez em em quando combinávamos de não descer no ponto e seguíamos em direção ao centro, para conhecer a área portuária, principalmente a rua General Câmara. Também pegávamos outro ônibus e íamos até a Ponta da Praia, ver o movimento de navios no canal do porto. Uma vez fomos até a cidade Ociam , em Praia Grande. A Ociam foi um empreendimento de Roberto Andraus, que foi prefeito de São Vicente e construtor paulistano.  Minha mãe descobriu tudo e conseguiu transferir a gente para uma escola de São Vicente. Ensino noturno na E.E. Vila Sorocaba, na avenida Antônio Emmerich. Tínhamos aulas de francês com um professor chic  e bastante amigável, Constant Luciano Hulmond, que depois de morrer se tornou nome dessa escola, na Vila Melo.  

Meu irmão mais velho fazia faculdade em Santos e o outro, quase adulto e músico, foi se aventurar no Araguaia, tocando  em bailes e boates. Depois voltou e os dois  trabalhavam com pesquisadores do IBGE e da Lista Telefônica. Nessa época a grande fonte de empregos eram as empreiteiras que construíam a rodovia dos Imigrantes. Mudamos para casa vizinha, um pouco mais nova, geminada com a casa de uma família de alemães muito educados e divertidos. O patriarca e filho mais velho trabalahavam na Volkswagem, em São Bernardo do Campo. E tomavam muita cerveja, entregue pelo caminhão de uma distribuidora. Naquela época só tinha lata de Skol , chamada skolzinha, que eles não gostavam, por ser  “aguada”.

 Foram dez anos de mudanças intensas. Meu pai foi trabalhar numa plataforma de petróleo, em Campos,  empresa de hotelaria a serviço da Petrobrás, em turno quinzenal. Meu irmão mais velho foi para São Paulo trabalhar como designer industrial, depois de um estágio na COSIPA.

No final da década de 1970 e inicio dos anos 80  a família mudou-se para São Paulo. Minha mãe ainda precisa realizar uma parte importante do seu projeto de vida. E conseguiu. Morar e trabalhar em Sampa, cidade que ela adorava. Eu ainda  fiquei mais um ano e fui o última a sair da casa, com lágrimas nos olhos, para ir morar num apartamento no Gonzaga. Um amigo carioca e engenheiro,  me arranjou emprego numa fábrica, onde fiquei dois anos enquanto iniciava da faculdade História em Santos. No primeiro dia de trabalho vi  na rodovia Anchieta o rescaldo do incêndio da Vila Socó, com dezenas de mortos. Vi também uma ação de uma grande frota de ônibus de funcionários da Cosipa  evacuando moradores da Vila Parisi, após a propagação de um nuvem baixa de amônia que escapou de uma fábrica de fertilizantes. Cubatão era um grande risco para todos. No ano seguinte ocorreu a na Índia a tragédia de Bopal, numa fábrica química, que tinha um filial em Cubatão. Foi nessa época também que a Rohdia, outra multinacional desse ramo químico, construiu na área Continental de São Vicente  cavas para depositar lixo tóxico produzido no polo industrial de Cubatão. As cavas só foram decobertas e denunciadas na imprensa quando milhares de família invadiram esses terrenos para construir moradias, no Rio Branco e no Parque Continental. Aquela região  teve em 30 anos um salto de 3 mil par 150 mil habitantes, entre 1990 e 2020.

 

        





Deim. Giz de Cêra. Ponte sobre o rio Paraná. Vila Tiribiçá.

 

 

 

 XIII

RAPOSO

 

São Paulo passou por todas as mudanças urbanas cem anos antes da maioria das cidades brasileiras, com exceção do Rio de Janeiro, que foi o modelo de reformas no início do século XX, importado tardiamente das mudança ocorridas em Paris e Londres. A diferença é que na capital paulista as coisas aconteceram numa velocidade industrial, admiravelmente acelerada, tanto que não foi apenas descrita pelos cronistas e poetas, mas também pelos antropólogos, historiadores e geógrafos franceses que vieram dar aulas nos primeiros anos da criação da USP. As transformações aconteceram na cidade e também nos arraiais que rodeavam a Capital, as antigas “freguesias”, acomodadas em fazendas,  sítios, chácaras , nos vales das pequenas serras e nas margens e várzeas dos rios. Esses núcleos ainda rurais  receberam as primeiras ferrovias  e depois se tranformariam em “largos” dos bondes e finalmente nos viadutos e estações do metrô. O anúncio de um loteamento, por mais distante que fosse,  era suficiente para causar uma inquietação nos moradores recém chegados e que se aglomeravam nas pensões e cortiços do centro da cidade.  De alguns poucos milhares de habitantes em 1900, São Paulo reuniu, em pouco mais de 50 anos, centenas de bairros e numa infinidade de vilas, quase 15 milhões de habitantes .

Como vimos, uma segunda crise familiar nos levou a São Paulo entre 1984 e 1985. Uma prole essencialmente masculina não se desgruda do seio materno com tanta facilidade. Não tinhamos irmãs nem cunhados. Isso dicultou as coisas e retardou as mudanças. As noras que foram chegando tiveram que se adaptar ou se afastarem. E nós permanacíamos. Nosso destino foi o Butantã, bairro que um dia foi bem afastado da área central e que depois abrigou a enorme glema onde foi construída a Cidade Universitária e seus institutos e faculdades. Ficamos no entorno, entre  Osasco e o Morumbi, tendo como acesso principal a rodovia Raposo Tavares, no Km 6. Ironia do destino, pois essa rodovia acabava 640 quilômetros depois em Presidente Epitácio. Ocupamos três apartamentos de um então novo conjunto residencial    chamado L”Abitare, com torres modernas de 13 andares, contruidas numa pequena floresta à margem da rodovia. Tinha piscinas e parques que nunca usamos. O condomínio oferecia aluguéis baratos e tinha como atrativo principal um hipermercado instalado em frente da portaria, do outro lada das pistas, mas que dava acesso a loja por uma passarela de pedestres. Na medida que a demanda pela compra de apartamentos foi aumentando os aluguéis se tornaram altos e fomos obrigados a migar para o outro lado da rodovia, num pequeno e mais modesto condomínio; e depois numa grande casa de três pisos na Vila Gomes, muito próximo ao Jardim Bonfigliolli. Nesse período eu já havia passado como empregado de uma loja de instrumentos musicais, na avenida Rebouças e concluía meus estudos na PUC. Dava aulas numa escola da avenida Paulista e nas filiais espalhadas em vários bairros de classe média: Paraíso, Aclimação, Pinheiros, Lapa, Santo Amaro, Morumbi e finalmente Alfaville. Minha mãe decidiu voltar para Epitácio, preocupada com a insatisfação do meu pai com a cidade. Vivia trancado em casa e se recusava a se integrar no ritmo alucinado, de sair de casa às cinco da manhã e voltar à meia noite. Lembro que tentamos comprar um apartamento na Freguesia do Ó, mas meu pai não queria ter vínculos com São Paulo. Anos mais tarde eu voltaria, casado pela segunda vez, para morar na Freguesia. Ele queria voltar para sua terra natal e conseguiu. Porém, morreu apenas quatro ou cinco meses depois de terem se mudado. Nesse tempo minha mãe morou em três casas em Epitácio.

Permaneci em São Paulo num apartamento na rua Eusébio de Queiróz, no Paraíso, quase Aclimação. Era horrível, me sentia muito só e perdido. As namoradas moravam sempre longe e queriam casar pra mudar de vida. Moravam tão longe que eu não sabia voltar depois de levá-las em casa. Isso me assustava. Eram vínculos muito frágeis, na minha visão e, vendo o que acontecia com muitos colegas, desistia rápido dessas relações. Já estava entrando na casa dos 30 anos e algo mais instintivo me dizia que já estava na hora de começar a pensar num prolongamento da raiz genética misturado com o receio da solidão. Foi então que comecei a pensar numa moradia fixa, em um ninho, sem pensar muito na ideia de que teria que atrair uma fêmea que estivesse passando pela mesma crise. Voltei a pensar na casa da esquina em Epitácio, agora sem mini bug e licar de menta, mas com cerveja, whisky, vinhas e conhaque. Adquirir um imóvel em São Paulo, do jeito que eu queria, fantasia de cinema, era praticamente impossível. Morar na periferia, nem pensar. Achava que era um sofrimento desnecessário, embora milhões de pessoas levassem uma vida tranquila e feliz no arredores da cidade e também nas cidades vizinhas. O problema era eu. Adorava São Paulo mas estava me sentindo deslocado. Teve uma época que me tornei expectador do programas sobre negócios. Fazia lanche numa pequena pastelaria perto do Centro Cultural São Paulo, de um ex-funcionário do Metrô. Pronto, aquilo se tornou uma referência e partir para o sonho empreendedor. Meus alunos do colégio do Morumbi e de Pinheiros, só falavam nisso e vinham me pedir conselhos. Eu fingia que entendia porque via as tendência no programa de TV e na revistas especializadas. A moda eram as pizzarias e outros pontos de alimentação fast-food, locadoras de vídeo e o lava-jato. Só se falava em franquias. Numa viagem que fiz com um colega ao Paraguai, na volta passamos em Epitácio e via que acidade estava vivendo momento de euforia: termas de águas quentes, muitos funcionáros da CESP e de grandes empreiteiras mudando para a cidade. Tive então a ideia de ter uma franquia da nossa escola. Éramos professores na mesma escola. Ele não quis e acabou indo morar no Canadá, onde vive até hoje. Eu fiquei com esse pensamento, embora nem soubesse por onde começar. Mais isso não foi problema. Em menos de dois anos, eu  um dos meus irmãos,  já estávamos com um escola funcionando em Epitácio, usando a franquia , sem concorrentes e com muita chance de crescermos também na região. Foram seis anos de entusiasmo e depois um retundante fracasso.  O que valeu a pena foi voltar a morar na cidade onde havia nascido, vivido a minha infância e parte da adolescência. Voltar a ouvir o silencio das ruas e a paisagem do rio foi deslumbrante. Meus avós ainda viviam e tínhamos muitos parentes e amigos que também haviam voltado pelos mesmos motivos. Queriam dar um tempo ou viver ali definitivamente.

Quando troquei o Passat pela casinha de madeira na rua Curitiba senti que as coisas poderiam acontecer, não do jeito que eu imaginava, mas aconteceriam de alguma forma. A casinha foi tranformada numa casa maior, a partir de uma barracão rural, com piscina, edícula e área grande área de lazer. Tudo simples, mas muito de bom gosto. Interessante que os pisos eram muito caros na época e optamos pela ardósia escura, que combinou muito bem com a construção que lebrav as pousadas rurais e de praia. As pessoas passavam enfrente de casa e só faltavam ser convidarem para entrar e ver o que tínhamos feito. Queria mais. Queria uma chácara e um grande tereno para construir uma instalação escolar mais adequada. Comprei do meu avô um terreno de dois mil metros quadrados. Fiz lá um barracão de obras com madeira e telhas de uma casa demolidada que minha mãe havia adiquirido através de um consórcio. A ideia dela era construir uma nova casa no tereno. Nunca foi feita e ele acabou devolvendo o terreno. Incrível como as coisas não se concretizam quando não são feitas de forma adequada às regras e à natureza desse negócio. Depois dessa estadia em Epitácio, finalizada por uma nova crise, tomei o rumo de Campo Grande uma cidade que conhecia e visitava com frequência. Ali vivi pouco mais de um ano, tempo de uma campanha eleitoral inciada em março e concluída em novembro.

   

 


 

 

 

 

Deim. Giz de cêra. Estação ferroviária do Porto Epitácio.

 

 

  

 XIV

 SÃO PAULO

 

Na virada do ano de 1998 para 1999 uma nova crise me reconduziu de Mato Grosso do Sul para São Paulo, capital. Em Campo Grande tinha morado num bairro de casas muito bonitas. Na cidade as calçadas são largas e aproveitadas como jardins. A casa que morei pertencia a um empreiteiro paranense que construia postos de gasolina. Ele queria me vender a casa, que era nova, boa e muito barata, mas não consegui fazer dinheiro com a minha de Epitácio para fechar o negócio. Ficava na rua das Garças, esquina com uma das ruas que cruzam a avenida Mato Grosso, no bairro Santa Fé. Com a ajuda de um primo, me engajei na campanha de um candidato a governador, que venceu o pleito. Me ofereceram um cargo na nova administração,  porém tinha uma intuição que não ficaria morando na cidade. Nesse periodo fiz muitas atividades espirituais, fazendo palestras e elaborando publicações. Cheguei a trabalhar em dois jornais, que deixei logo, para entrar na campanha politica. Recebi uma proposta de abrir uma agência de publicidade com o capital de uma gráfica industrial da cidade. Recusei. Consegui aulas numa organização educacional maçônica, depois de passar por um complicado processo seletivo, por jogo de influências. Mais uma vez fui salvo por amigos.  Meses antes de sair de Campo Grande, fui fazer um concurso na Secretaria da Educação em São Paulo. Nas duas longas viagens que fiz de ônibus, tinha tempo de sobra para estudar os textos das duas etapas. Eram 16 horas de viagem, 32 ida e volta. Consegui passar. Foi um período de muitas inquietações íntimas, no qual tinha sonhos simbólicos nos quais era criança, sempre atravessando as avenidas mais movimentadas segurando as mãos da minha mãe. Isso acentuou ainda mais a minha vontadade inconsciente de mudar. Estava envolvido com muitas coisas e pessoas, aparentemente numa situação estável e promissora, porém intimamente não conseguia me integrar, falta de afinidade com aquilo tudo. Não era nada de ruim, mas não era para mim. Uma amiga muito querida,  em visita à minha casa,  contou-me que uma pessoa que se preocupava muito comigo tomou a inicativa de consultar um advinho sobre a minha situação, logo depois da crise que me fez sair de Epitácio. O vidente descreveu a ela que eu atravessaría as águas para morar numa grande cidade , mas que depois, de volta, atravessaria as mesmas águas para morar numa cidade muito maior.

Voltei para São Paulo sem saber dessa revelação.  Minha mãe estava morando na mesma região do Butantã, num sobrado enorme, onde me instalei com a minha estante, meus livros e meu carro, que dormia na rua. Dessa vez a crise foi forte e teve um forte componente espiritual. Vivia do aluguel da casa de Epitácio e aguardava a chada do concurso, que só veio em outubro de 1999. Enquanto isso fazia caminhadas na Cidade Universitária e percorria os pontos culturais da cidade, quando podia. Que época maravilhosa, apesar da crise pessoal e econômica que o país estava passando. Vivia cheio de preocupações, poré tinha muita confiança no futuro.

Voltei a estudar e fui fazer mestrado, decisão que mudou completamente a minha visão de mundo, pesquisando uma área diversa da minha graduação original. Da História fui me aventurar na Comunicação Mediática;  pesquisa da transposição de texto literário para texto audio-visual, ou seja cinema, rádio e televisão. Tudo feito com um grupo de professores da ECA-USP que atuavam no programa de pós-graduação de uma universidade privada. Nossa turma era uma diversidade bacharelados e os nosso seminários també, com assuntos de muitas áreas diferentes.  Era pago mas acessível, pois ainda não havia sido reconhecido pela CAPES. Esse título também me proporcionou dar aulas no ensino superior durante 15 anos. Valeu a pena, mesmo não tendo feito o doutorado. Nem precisou, pois esse setor sofreu um forte impacto do ensino à distãncia e retraiu muito o campo da docência titulada.

 Nesse período ingressei como professor efetivo no Estado e trabalhei em duas escolas:  na Vila Guilherme; e  na Freguesia do Ó.  Foi nesse bairro que morei, casado, num prédio vizinho da minha segunda escola. Antes disso morava com a minha mãe num apartamento de uma grande amiga epitaciana (que foi morar em Cuiabá). Esse apartamento ficava na rua Baronesa de Itu, na chiquérima Vila Buarque, quase Higienópolis e Pacaembú. Desnecessário dizer do cosmopolitismo  paulistano ali presente e também do imenso prazer e morar num lugar tão especial. Minha mãe ficou sozinha quando me casei e um irmão foi morar em Goiânia. Então ela tomou a decisão de voltar para São Vicente, a convite de uma antiga amiga de Santos. Cansei de tentar uma vaga nas faculdades paulistanas. Minha filha já tinha 1 ano e  a mãe dela, há algum tempo, sonhava em viver no litoral.  Ela tinha um conhecido que era dono de um prédio de apartamentos no Marapé, em Santos, próximo ao Orquidário. Não deu outra. Entrei num concurso de remoção e no ano seguinte estava morando em Santos e trabalhando em Praia Grande. O apartamento do Marapé era espaçoso e tinha garagem fechada, lugar um pouco degradado, mas com alguns vizinhos muito solidários e acolhedores, nordestinos e descentes de portugueses,antigos pescadores e estivadores do porto. Foi da escola na qual ingressei em Praia Grande  que fui ser vice-diretor no Jardim  Solemar. Ali tive tempo suficiente para ajudar o professor de matemática a fazer uma horta e também formatei um livro  extraído da minha tese de mestrado. Quando saí dessa escola e fui para outra, em São Vicente, já lecionava também em uma faculdade e morava num apartamento próprio, na rua Freitas Guimarães, no Boa Vista.

         

Deim. Giz de cêra. Brincadeiras de crianças. Vila Tiribiçá.

  

  

XV

SEM-FLORESTRA

 

O desenho “Over The Hedge” conta a história de um grupo de animais que tiveram suas vidas ameçadas pelos condomínios suburbanos do EUA. Eles reagem, sob a liderança manipuladora de um guaximim endividado com um urso mau caráter. É o mundo do crime e da opressão humana transposto para o universo natural. No Brasil o desenho recebeu o título Os Sem-Florestra, por razões óbvias. A história dos cercamentos ou surgimento das propriedades privadas no hemisfério norte - estampado no título orinal-  não teria muito sentido. No Brasil tem o rural MST-Movimento Sem-Terra e também urbano Movimento Sem-Teto, que já teve até candidato a presidente da república. Mais ainda, no Brasil temos os Retirantes, categoria social cantada e glorificada na literatura, na música, na pintura e no cinema - os Absolutamente Sem Nada – e que teve como um dos seus mais conhecidos representantes alguém que fez carreira sindical e ocupou duas vezes a presidência da república. Meus avós eram retirantes, do nordeste, do interior e também do exterior.

É um assunto delicado esse, porque é politico e contraria interesses poderosos. É um fenômeno mundial e deveras antigo, desde o êxodo dos hebreus  escravizados no Egito, passando pelas lutas agrárias dos tribunos da plebe, Caio e Tibério Graco,  até chegar nos dias atuais com as políticas demográficas e habitacionais que nunca dão conta do problema. Que família pobre brasileira concordaria em ter apenas um filho, como é lei na China? Diriam, com toda razão: “Não vamos ser pobres a vida inteira e nossos filhos serão difrentes de nós”. Talvez esse seja o real motivo de ter tantos chineses vivendo fora China. Todos querem casar e ter casa para viver. Presidente Epitácio já teve o maior acampamento  Sem-Terra do mundo. Teve também conflitos de terras na época do regime militar e assentamentos durante os governos democráticos. Parece que as coisas se estabilizaram, pelos menos por enquanto. O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que já trabalhou na ONU e rodou o mundo registrando o deslocamento das populações sempre foi defensor do MST. Ele sempre lembra nas suas entrevistas que esse movimento é o único no mundo a pregar a volta do homem ao campo.

Mas a volta do homem ao campo vem sendo adiada. A maioria prefere a cidade, pois ela é o símbolo da felicidade contemporânea, o cenário onde os sonhos se realizam. As cidades brasileiras não conseguiram fazer subúrbios gigantescos. Até tentaram, mas logo eles estavam conurbados com a cidades que os expulsaram. Os subúrbios ricos também conurbaram. Os pobres sem teto não se conformam com a quantidade de imóveis fechados e sem uso. Nas praias os imóveis ociosos  de lazer  não são muito úteis porque são muito distantes dos locais de trabalho. Seriam , se fossem realmente ocupados por moradores locais. É uma eterna questão dramática sobre o direito de moradia. Qualquer política governamental que atinja interesses privados gera mais conflitos e negócios de especulação. Mas devem ser feitas.

Quando saí de São Vicente em 1985 para morar em São Paulo, a Baixada Santista ainda sofria uma intensa demanda de moradias, provocada principalmente pelos migrantes nordestinos. A construção da rodovia dos Imigrantes e a expansão do parque industrial de Cubatão foram o ápice desse deslocamento populacional, iniciado com a rodovia Anchieta nos anos 40 , a intalação do polo industrial nos anos 50 e também a expansão imobiliária nas orlas litorâneas, nos anos 60 e 70.  A construção civil praiana era essencialmente “baiana”, apelido genérico dos migrantes nordestino. Já haviam favelas em todas as cidades da região, porém , a partir dos anos 80 elas se acentuaram. As pressões aumentaram e se desclocaram para a área continental, antes praticamente desocupada. Três mil famílias foram instaladas no conjunto residencial Humaitá, há quase 30  quilômetros de Santos. Não foi suficiente. Nas duas décadas seguintes ocorre uma explosão de ocupações de terras em antigas áreas públicas do Distrito do Samaritá, especificamente nos bairros Rio Negro, Rio Branco e uma extensa área de pastos de quarentena de gado, já então denominada Quarentenário. E mais recente formou-se ali também um grande núcleo de ocupação conhecido como Fazendinha, com contruções barracos a perder de vista , comunidade com leis próprias até que o poder público interfira com projetos de reconhecimento e legalização.

Quando voltei para São vicente em 2.002 esse novo cenário urbano já estava montado e sendo altamente explorado pelos segmentos politicos, imobiliários e também criminosos. Um cenário de invasões violentas e de alto risco sanitário e ambiental.  A grande maioria dos habitantes que ali se instalaram são retirantes nordestinos ou seus descendentes. Aos bairros não são nada agradáveis aos olhos, por mais que a prefeitura e muitos moradores se esforcem em dar um toque de urbanização. São construções espantosas, sem nenhuma regra técnica e estética. Favelas horizontais a perder de vista, com todos os problemas decorrentes dessa rápida e  irregular ocupação.

Este é um cenário reduzido, próximo de onde onde vivo, mas que traduz exatamente o que acontece em todo o mundo. Cada vez mais mais torna-se dfícil morar. Nossa espécie não consegue construir e manter ninhos seguros e permanentes. Não conseguimos ter poucos  filhotes nem mandá-los para o mundo no tempo certo, como fazem os animais. Construímos aglomerados familiares que desafiam as leis civis e de convívio.

Creio que no futuro, se não houver um recuo radical ou natural  na demografia humana, teremos um cenário horroroso nas cidades, mais ou menos parecido com aquela visão apocalíptca de Los Angeles no filme Blade Runner: favelas com edifícios de 80 a 100 andares, torres repletas de pequenos espaços ocupados por milhares de famílias.

Poderemos ter também um colapso e mortandade em massa, causada por epidemias e guerras bacteriológicas, ou então desastres ambientais Poderíamos morar nos campos, sermos felizes sem essa febre consumista, vivendo com o estritamente necessário, como alertou a tartaruga Verne ao seu pequeno grupo de animais perfeitamente integrado à Florestra. Mas não, caímos na conversa dos traficantes de cultura e resolvemos que a cidade é a única forma possível de vida em nosso planeta. Queremos ser cidadãos, urbanos.

Vai durar até quando essa forma de pensar e de agir?

Certamente quando as cidades acabarem, seja lá como for.  

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deim. Aquarela. Casa da Vila Tiribiçá.

 

 

  

    

XVI

NA RUA

 

Quando a Família Real de Portugal fugiu para o Brasil, a cidade do Rio de Janeiro passou por uma situação inédita. Eles não vieram sozinhos e sim com a Côrte, composta de dezenas de famílas que faziam parte da nobreza e do sistema de serviços burocráticos do Estado. Todos estavam nos navios da marinha inglesa  que os trouxeram sob sua proteção.  Quando desembaracaram  com suas imensas bagagens, descobriram ou já sabiam que a cidade não tinha moradias suficientes para abrigar tanta gente importante. Os moradores do Rio ficaram de orelha em pé, pois sabiam que aquela situação certamente traria problemas para os propriéatrio das casas mais atraentes confortáveis. E assim aconteceu.

Diante das reclamações insistentes e urgentes de alguns membros da Côrte, o Príncipe Regente D. João VI emitiu um decreto confiscando os imóveis considerados de interesse real, para serem ocupados pelos seus funcionários. Os ordenanças realizavam as prospecções, faziam  as devidas vistorias, classificando os imóveis de acordo acordo com as novas categorias de ocupantes, rejeitando ou colocando um selo real com a sigla “PR”, que significava Principe Regente. No imaginário popular carioca essas duas letras logo tomaram o sentido jocoso, para esculachar os seus donos: “Ponha-se na Rua”. 

Devia ser um desespero, pois o despejo até então era somente para os esculachados e caloteiros de aluguéis. Agora o feitiço tinha se voltado contra o feiticeiro. Vingança gostosa do populacho, mas que não refletia o todo para sempre da sociedade.

 Dias desses fui a São Paulo com a minha filha. Ela levou a máquina fotográfica para descolar umas imagens urbanas diferentes. Depois do compromisso, fizemos uma rápida caminhada pela rua do centro. Da rua Maria Paula subimos a Brigadeiro Luiz Antônio e numa certa altura entramos num viaduto que nos levou à rua Vergueiro e finalmente na Liberdade, tradicional reduto oriental. Seguimos em direção à Praça da Sé, olhando e observado tudo que era possível e novo aos nossos olhos. Foi uma caminhada rápida e apressada, pois já era fim de tarde de outono e não queria voltar ao estacionamento onde deixamos carro quando já estivesse escuro. Na ida o que nos chamou a tenção foram algumas pessoas agrupadas nas calçadas em franca conversa, tonando cerveja e ouvindo música. Não eram bares, mas moradores de cortiços iniciando um fim de tarde e uma noite de lazer. Era sexta-feira. O plano era darmos uma volta , passando pela Prça João Mendes e descer o Viaduto Dona Paulina até a esquina da Brigadeiro com a Maria Paula. Assim fizemos. Como demoramos um pouco na Liberdade, ao voltamos ao ponto inicial já estava escurecendo. Foi então que vimos uma cena inédita para quem ficou alguns  anos sem ver o que havia acontecido em São Paulo após 2016: uma multidão de moradores em situação rua  sob a marquises e se recolhendo para passar a noite. São Paulo sempre teve muitos moradores de rua, mas nunca nessa proporção. A multidão era multidão mesmo, aglomerada como se fosse uma fila de cinema. É possível que ali próximo fosse um ponto de distribução de alimentos, dessas sopas  levadas por grupos organizados; ou então que tivese um núcleo assistencial fixo nas redondezas. Sabíamos  que as áreas centrais das cidades tem muita oferta de comida, de esmolas e sobretudo das sobras que vão para o lixo, daí a concentração maior de habitantes que estão nessa situação. Mas para  nós foi assustador, sobretudo pelo aumento da sensação de abondono que sentimos ao ver todas aquelas pessoas que não souberam contornar suas crise e entraram declínio. Não lembro de ter visto crianças, mas havia muitos casais. Uma cena muito triste. Na medida que subimos a Brigadeiro, vimos muitas barracas sendo montadas, nos espaços de lojas fechadas, que também eram muitas. Nunca senti tanta vontadade de voltar e estar em casa.

E voltando, conversamos sobre como é viver nas ruas e quais as possíveis soluções para isso. Falamos também sobre pessoas que não querem sair dessa aituação, pois perderam a capacidade e a vontade de reconstruirem seus lares. Seus mundos internos estão desorganizados e precisam encontrar primeiro as soluções íntimas antes das soluções sociais. Mesmo assim, elas precisam de um mínimo de condições que possa manter nelas a dignidade humana, em forma de abrigos e serviços permanentes de amparo. É uma esperança e uma chama que deve ser mantida acesa. Se apagar, é possivel que a humanidade também se apague, para sempre.      

 

 


 

 

 

 

 

 

 

Deim. Giz de cêra. Torsa de madeira no Porto Epitácio. 

 

 

  

XVII

 EM PÉ

 

Quando saímos da casa*  onde dormíamos ainda era noite alta e nossa sorte foi que a lua resolveu nos ajudar escondendo-se para aumentar a escuridão. O silêncio da mata era bem menor que as nossas pisadas leves e rápidas, pois só carregávamos pequenas porções de comida, algumas mangas e pedaços de mandioca crua. Estávamos descalços. Seguimos os passos rápidos do Pai e os movimentos atentos da Mãe, sem olhar para trás ou para os lados. Noite de muito medo e angústia. Tínhamos que sair dali o mais rápido possível para tentar chegar até estrada e dar a sorte de encontrar um caminhão que nos levasse até um lugar mais seguro. Rezávamos para que os latidos dos cães da fazenda fossem comuns e não denunciassem a nossa fuga. Fizemos o trajeto fora dos piquetes e das porteiras e tivemos que dar uma volta bem mais longa, para não correr o risco de sermos  capturados. Poderia até chover e cair raios que para nós seria motivo para ganhar tempo. Quando nos afastamos uma boa distância, o Pai pôde falar e só repetia que tínhamos que correr até não poder mais. E corremos, fugindo e buscando um lugar para nos escondermos, caso fosse necessário parar e descansar alguns minutos. Não encontramos nenhum e não descansamos. Só parávamos para ver que rumo o Pai tomava e até hoje nunca descobrimos como ele nos conduzia e como escolhia a direção. Não havia tempo para perguntas. Só havia medo e dúvida.  Passamos seis meses naquela fazenda e quando ali chegamos tínhamos somente a roupa do corpo. Quando saímos tínhamos menos do que isso e um enorme dívida com o capataz. Dívida que nenhum trabalho conseguia pagar. Por isso corríamos sem parar e sem descansar porque, se voltássemos, as coisas ficariam bem piores do que já estavam.

Durante muitos anos sonhei com essa fuga, com a escuridão e com cobras enormes cruzando os nossos caminhos e insinuando que deveríamos voltar, pois dali não sairíamos vivos. “Melhor a escravidão do que a morte”.  O medo e angústia só acabavam quando o sonho era interrompido. Penso nos que não tiveram coragem ou oportunidade de fugir desse destino vaticinado pelas serpentes negras dos meus sonhos. Não lembro de como o Pai nos tirou dali. Apaguei essa memória e nunca tive coragem de perguntar para a Mãe como chegamos aqui. Continuamos andando, sempre correndo contra o tempo, matando a fome, a sede, o frio, do jeito que era possível. Ainda vejo o Pai avisando a Mãe e ela nos chamando para ir para algum lugar que ela nunca sabia onde era, mas confiava nas decisões dele, pois até ali continuávamos vivos, embora com menos medo e sem a angústia daquela noite. A fome não incomodava mais. Foram tantas viagens, tantos lugares, tantas chegadas e partidas que perdi a conta e a noção se estávamos indo ou voltando. Não éramos de nenhum lugar. Éramos do mundo e o mundo era tão grande que poderíamos ir onde quiséssemos. Pensava assim quando comecei a pensar sobre nós e sobre as coisas. Ainda não pensava nada sobre mim. Cada noite dormida e cada manhã acordada desmanchava esse pensamento e construía outro, na medida em que mudávamos de lugar. Teve um momento que comecei a pensar que poderia chegar a algum lugar e não ir mais para lugar nenhum. Minha mãe pensava isso, mas não podia falar. Ela só dizia pelos olhos e, quando percebia que eu estava tentando adivinhar seu pensamento, ela desviava os olhos para outro assunto. Os olhos do Pai eram perdidos e não diziam nada. Nunca disseram. Não conseguia enxergar nada além daquele dia que começava de manhã e terminava à noite.

Comecei a perceber que as coisas mudavam quando descobri que algumas crianças moravam em algum lugar e nós morávamos em lugar nenhum. Morávamos na rua durante o dia,  noutra rua  durante a noite e no dia seguinte não sabia qual rua iríamos morar. Pelos menos dormíamos e acordávamos sem medo e sem aquela angústia da noite que nunca terminava nos meus sonhos. Mas um dia terminou e nunca mais sonhei com aquelas cobras que insistiam que nós não éramos ninguém e que nunca ninguém se importaria conosco. Foi quando passei a andar em pé. Antes achava que estávamos sempre no chão, nos arrastando de lado para o outro. Foi na escola que percebi que as pessoas ficavam paradas em pé sem se incomodarem com aquela posição. Tinha medo de ficar em pé, como elas. Elas tinham lugar onde morar e podiam ficar em pé. Eu achava que não era permitido ficar em pé se você não tivesse lugar para morar e sentar. Quando a professora mandava ficar em pé para ir até a lousa ou responder perguntas, ficava pensando até quando isso iria durar. E fui acostumando a ficar mais tempo em pé e tomando gosto pelo costume dos meus colegas de escola e de todas aquelas pessoas que fomos conhecendo na cidade onde demoramos mais tempo sem se mudar. Quanto mais aprendia coisas na escola, mas queria ficar em pé. Pai e mãe não queriam ficar em pé, porque não era preciso mais andar e correr da fazenda. Sabiam que logo sairia andando pelo mundo, sozinha, pois estava perdendo o medo de ficar em pé. Teve um dia que descobri que não eram as minhas pernas que me faziam ficar em pé. Quando aprendia uma coisa nova, não tinha vontade de sentar. Queria ficar em pé e saber mais coisas. As pernas ficavam fortes e a cabeça leve. Um dia tive absoluta certeza disso quando, pela primeira vez, ouvi alguém falar da lei da gravidade, que nos mantinha presos ao chão. Pensei, então quem fica em pé não obedece essa lei. Eu estava ficando cada vez mais desobediente. Por isso a Mãe ralhava comigo de vez em quando, porque percebia que eu queria ficar mais tempo em pé.

Mas precisava encontrar um lugar onde pudesse arrumar um jeito de ficar em pé sem ter que ficar mudando. “Difícil. Muito difícil”, pensava. Foi isso que o Pai procurou a vida inteira e acabou indo para a outra vida sem ter conseguido o que buscava. A mãe pensava que era o destino dela e também o nosso. Comecei a pensar que ninguém sabia com certeza qual seria o seus destinos. Precisava descobrir um caminho, mesmo se não soubesse exatamente onde iria parar, pois nesse percurso era possível que encontrasse um bom motivo para ficar em pé. O Pai, de vez em quando, ficava cismado e arrastava a gente para algum lugar onde pudesse parar de andar. Não teve sorte ou não conseguiu enxergar a chance. Fomos para naquela fazenda porque disseram para ele que o governo estava dando terras para quem tinha vontade de trabalhar. Era uma cilada. Isso também aconteceu comigo quando vim para a Área Continental. Achei que era uma cilada o boato de que tinha terrenos grandes, sem dono, que estavam sendo retalhados e ocupados sem nenhum impedimento. Quando fiquei com vontade de ver como estava acontecendo tudo isso tive também aquela sensação de medo e de voltar a sonhar com as cobras. Mesmo assim decidi enfrentar o medo e resolver tudo em pé. 

Em pouco tempo tudo estava resolvido.  Estava morando num lugar que escolhi, que podia dizer onde estava morando e que poderia decidir nele quanto tempo eu quisesse. Vi também que muitas pessoas caíram em ciladas e tiveram que sair correndo dali exatamente como nós quando saímos da fazenda. Ficava com dó, mas não podia fazer nada, porque aquelas pessoas não conseguiam se manter pé. Tiveram que fugir da Fazendinha, o nome do novo lugar onde foram morar as pessoas que não eram de lugar nenhum, como eu. Nas conversas com os novos vizinhos sobre as nossas histórias e caminhos, sempre me lembrava da fazenda da qual fugimos, talvez muito maior do que todas as cidades da região, comparada com esse lugar que passei a chamar de Fazendinha. O apelido pegou. Não perdi a mania de querer ajudar. Sempre que posso, mando fazer uns panfletinhos para distribuir no centro da cidade, no início da noite, para os que estão no chão, prontos para dormir:

 

  

“LEVANTE-SE. FIQUE EM PÉ.

 

Pelo menos por um dia, tente ficar em pé o máximo de tempo possível. Fique no chão apenas quando for dormir ou descansar. Levante e ande sempre que puder, de cabeça erguida. Se desanimar, olhe para o Alto e peça forças para suportar o peso do seu corpo e da sua prova. Conte o dia e as horas que conseguiu ficar em pé. Cada vez e cada dia que você fica em pé  é um grande passo e uma grande vitória em sua vida”.

 

 

*Relato baseado na história de uma amiga que, depois de passar por tudo isso, se tornou mãe, avó e educadora profissional.

 

   



Deim. Aquarela. Casario e cedros da Vila Tibiriçá.

 

 

 

XVIII

 GRADES

 

Também na região central de São Paulo, como em muitas cidades do Brasil e do mundo, surgiu o fenômeno cracolândia, uma população de rua  com características específicas, que se aproximou e reuniu por afinidade e tendência social de convívio e proteção. São dependentes químicos, diferenciados dos alcoolistas  e outros vícios menos conhecidos,  que  buscam ali exclusivamente o consumo de drogas. Todo ser humano que entra em crise social tem um forte componente de desorganização emocional e consequente desequilíbrio mental. Os habitantes da cracolândia não são diferentes de nós. A única diferença está nos interesses. Enquanto nos interessamos por conforto, comida e privacidade e fazemos disso um propósito único em nossas vidas, eles se interessam por drogas, que é para eles um ponto de fuga essencial para suportar uma realidade que não conseguem enfrentar. Quem fuma, sabe que fuma não somente porque é elegante e gostoso.  Quem bebe também. Quem faz compras desnecessárias ou esbanja dinheiro com qualquer outra coisa, sabe que as coisas não estão muito organizadas dentre de si e que essa situação um dia poder graves consequências quando não houver mais controle ou disponibilidade de recursos. A diferença é que a cracolândia é um hospício a céu aberto, aos olhos da sociedade e das autoridades impotentes, porque não sabem ou não querem aprender a lidar com aquela situação. Solução ou alguma forma paliativa tem, mas parece que não é conveniente. Quem não se lembra da cena  da guarda usando a força dispersiva para limpar a cracolândia e alguns dias depois constatar que o grupo se reuniu com a mesma facilidade com que se dispersou. Claro que o extermínio passou e passa pela cabeça de muita gente como “solução final” do problema. Mas sabemos que é mais uma falácia dos que ignoram  a lei de causa e efeito.  Pouca gente se lembra de que a população das cracolândia já fez parte da população carcerária ou manicomial. Prisões de corpos não significa a mesma coisa que aprisionar mentes. Uma solução não começa pelo efeito do problema. Ninguém quer manter, muito menos libertar corpos criminosos. Mas é possível libertar mentes. Sempre há uma possibilidade e um caminho nesse sentido e que funciona para muitos que ingressaram no crime e  conseguiram transpor honestamente os portões das prisões.  Pequenos gestos e estratégias de ação podem fazer a diferença e desmontar aos poucos algo de aparência monstruosa, mas que na realidade é apenas um coletivo de muitas coisas pequenas mal conduzidas e que se acumulam  com a nossa indiferença e pessimismo. A educação social feita com inteligência pode compreender e melhor oferecer soluções sóbrias e mais responsáveis. Oportunidades bem geridas e conduzidas  podem gerar transformações muito positivas.  É claro que nem tudo é perfeito e que há sempre algo que não dá certo e que não funciona, mas sempre existe outra via e também  outra etapa a ser cumprida na existência e no convívio humano. Não há portas definitivamente fechadas e trancadas para sempre. 

 

   





Deim. Giz de CE. Pôr do sol no antigo Figueiral.

 


 

XIX

ÍNDIOS

 

Numa ocasião estávamos visitando uma exposição de objetos indígenas no salão da A.A. Epitaciana e tivemos uma experiência muito curiosa: uma mulher de uns 25 anos de idade, com fortes traços indígenas percorria o salão falando sozinha, pronunciando frases aparentemente desconexas. A pessoa que estava conosco reclamou que estava sentindo um sono incontrolável e nós mesmos não parávamos de bocejar. Enquanto isso a mulher reclamava em voz alta, na língua tupy, e fazia gestos de indignação. Percebemos, então, que não se tratava de uma pessoa com problemas mentais. Na exposição havia objetos funerários de cemitérios indígenas encontrados durante as obras da CESP na região e recolhidos por pesquisadores. A mulher provavelmente estava mediunizada e, de forma agressiva, protestava contra aquela exposição, para ela uma violação de coisas sagradas do seu povo. Lembramos que alguns anos antes, quando esses objetos foram encontrados e levados pelos pesquisadores da Unesp, escrevemos no jornal local um pequeno artigo sobre o fato reclamando que os objetos deveriam permanecer em Epitácio. Na época fomos repreendidos por algumas pessoas que achavam que não havia necessidade para tanta hostilidade com os pesquisadores. Entendemos, naquela exposição, o que estava acontecendo. O mundo espiritual e mágico dos índios ainda estava bem vivo e fazendo cobranças sobre o desrespeito com as suas tradições. O sono e os bocejos não eram efeitos do acaso. Objetos sagrados e antigos possuem saturações magnéticas poderosas, produto psíquico dos cultos e crenças que ficam impregnados sobre os mesmos. Sempre temos esse tipo de sensação quando entramos em sebos de livros, antiquários e museus. Móveis usados e roupas de brechós também possuem essas cargas magnéticas, sobretudo peças de pessoas que já desencarnaram. Várias pessoas já nos confessaram ter a mesma impressão. Naquele dia tivemos receio de que poderia acontecer algo parecido com o caso dos arqueólogos ingleses que violaram o túmulo de Tutancâmon, no Egito. Eles foram sendo misteriosamente mortos por doenças contagiosas, talvez causadas pelo fato de terem alterado magneticamente suas defesas naturais. Pensamos, para nos tranquilizar: deve ser somente um protesto.

Ainda continuamos convictos que, mais cedo ou mais tarde, toda essa dívida dos colonizadores deverá ser resgatada. Uma enorme legião de espíritos silvícolas que no passado foram violentamente expulsos de suas terras, em todo o Brasil, em diversas épocas, agora faz parte de um grande movimento social de reocupação de seus antigos territórios assaltados pelos antigos posseiros e “bugreiros”.  Os descendentes dos posseiros, hoje também organizados em entidades ruralistas, se reencontram com antigos inimigos para ajustar velhas contas que não foram pagas. No estado de São Paulo essa trama cármica está concentrada principalmente no Pontal do Paranapanema, antigo cenário dos violentos massacres (Dadas) dos posseiros ali introduzidos pelos conquistadores mineiros no século XIX, como foi o caso de José Theodoro de Souza. Antigos contendores como fazendeiros, missionários, bugreiros, funcionários públicos e líderes indígenas hoje estão reencarnados em diferentes papéis e posições como fazendeiros, juízes, promotores, políticos, líderes dos MST, cada qual cobrando o que lhe é devido ou resgatando seus antigos débitos. Recentemente, por meio de notícias mediúnicas dadas por uma guia espiritual, atuante nessa região, fomos informados de que a construção de presídios no Pontal, os conflitos fundiários e jurídicos, a formação de quadrilhas de criminosos para explorar a prostituição, as drogas, extorsão, roubos ao patrimônio público e privado, fazem parte de um grande processo de reajuste cármico de Espíritos, índios, caboclos e aristocratas rurais que ali cometeram graves crimes em outras épocas. O mesmo tem ocorrido no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e região Norte e deverá ocorrer com mais ênfase onde se efetivaram os genocídios históricos. Alguns desses compromissos cármicos são mais antigos, com no caso da grande região de Guarapuava (PR). Na época imperial, em 1811, o governador da capitania de São Paulo, António José da Franca e Horta (responsável pela comarca de Paranaguá – o Paraná não havia sido criado) implantou uma política sócio-educativa judicial que incentivava e até impunha o casamento misto entre os condenados e índias, já que havia uma enorme desproporção entre homens e mulheres naquela vasta região. A ideia da medida era povoar o mais rápido possível esse território disseminando as famílias sertanejas. Assim, a cidade recebia degredados brancos (a maioria homens mestiços) e estes, sem opção de parceiras sexuais, contraíam vínculos afetivos e matrimônio com adolescentes indígenas, passando a formar famílias miscigenadas. Muitos desses degradados entravam em confrontos violentos com índios que não aceitavam essa imposição e se tornaram membros de grupos de bugreiros. Chamou particularmente a nossa atenção nessa trama geopolítica o caso de oito desses degredados, relatado pelo historiador Fábio Pontarolo (Homens de Ínfima Plebe). Eram militares que se rebelaram em Santos (SP), em 1821, por causa dos baixos soldos e que haviam promovido uma quebra-quebra na cidade. Condenados, foram obrigados a residir nessa então isolada e distante colônia paulista. Eram em sua maioria analfabetos e tinham em torno de 19 anos de idade. Curioso lembrar que nessa região (Cantanduvas) foi construído recentemente um importante presídio federal, destinado a abrigar criminosos de alta periculosidade, considerados como verdadeiros inimigos públicos. Espiritualmente, pela lei de afinidade, os presídios funcionam como escolas de reajuste tanto para condenados como para os que ali trabalham direta ou indiretamente em função deles.

 É fato que muitos espíritos criminosos (indígenas e brancos) já voltaram e ainda voltarão “reencarnados” nas boas famílias da região, em posições socialmente invertidas, para acertar essas contas com as pessoas e com a sociedade que lhe causaram prejuízos materiais e morais. Esse fenômeno também vem acontecendo nas três Américas, quando muitos indígenas maltratados e corrompidos pelos colonizadores voltam como filhos problemáticos das mesmas famílias que os prejudicaram no passado ou então como imigrantes. Muitos deles se tornam criminosos em ações contra o Estado ou contra as instituições que os humilharam. Geralmente são autores de tragédias terroristas e ações violentas em estabelecimentos públicos. Na América espanhola foi registrado os conhecidos casos dos caudilhos, ditaduras militares, revolucionários marxistas e mais recentemente os célebres guerrilheiros que se tornaram narcotraficantes, com foi o exemplo do grupo indígena Sendero Luminoso, de antiga tradição indígena. Ernesto “Chê” Guevara foi um típico “branco” de alma indígena destinado a lutar até morte pelos seus ideais socialistas, porém intimamente vibrava nele um sentimento de vingança contra as injustiças cometidas nos tempos coloniais.  Os mais célebres criminosos dos EUA eram antigos líderes africanos e indígenas reencarnados entre os imigrantes irlandeses e sicilianos radicados na América do Norte.

 A presença de descendentes diretos dos colonizadores portugueses na ocupação dessa região também não foi uma coincidência. A nossa ligação com São Vicente também não é produto do acaso. Era de lá que partiam as primeiras expedições bandeirantes em busca da riqueza do interior. Como a maioria dos habitantes de Epitácio, sou descendente de migrantes nordestinos (negros e mestiços) e imigrantes europeus. Meus pais casaram-se em 1954. Em 1955 nasceu meu primeiro irmão, Carlos Maurício; em 1957 nasceu o segundo, Hélvio; em 1958 nasceu o terceiro, Guilherme; em 1959 nasceu o quarto, Nilton. E finalmente, pelas mãos da velha parteira espanhola de Santo Anastácio, Dona Dolores, foi a minha vez: em 23 de agosto de 1961, às 5:30 da manhã, há apenas alguns horas antes da famosa renúncia de Jânio Quadros.

Minha mãe teve cinco meninos, em casa, sem frescura e sem cesariana. Nossas parteiras foram Dona dos Anjos, migrante do sertão de Minas; e Dona Dolores, espanhola de Santo Anastácio. Em 1973 nossa família adotou um menino, Natalino, vindo de uma numerosa família de ribeirinhos do antigo Porto XV, do lado sul-mato-grossense do rio Paraná. Coisas do “destino”. Todos esses nascimentos foram supervisionados pela “Madinha Manoela”, bem como os primeiros e melhores anos de nossas existências. O Dr. Alberto  era o médico da família, aliás, de todas as famílias. Era pioneiro na cidade e um excelente clínico geral, de boa memória. Perguntava pra gente quem eram os pais, deduzia quem eram os avós e dava o diagnóstico.

Maurício Xavier Duque e Carlos José dos Santos, meus avôs, eram negros. Maria Pesqueira Duque era descendente de portugueses e índios; e Verônica Szucs imigrante húngara da Colônia Arpad. Próximo a Caiuá, a 16 quilômetros de Epitácio, existiam várias colônias européias. Na colônia Arpad as Igrejas também eram diferentes, uma ortodoxa e a outra romana. Meu bisavô paterno, Marcus Szucs, era comerciante, dono de armazém e de um alambique. Gostava de uma boa cachaça e também era músico. Nessa Colônia húngara aconteciam bailes nas noites de sábado, frequentados pelos meus dois avôs frequentavam. Meu avô Maurício, baiano de Malhada, tinha fama briguento e sempre arrumava muita confusão nesses bailes. O “carioca” Carlos dos Santos (tinha sotaque porque havia vivido no Rio por alguns anos) era um gentleman, sempre vestia ternos de linho branco impecáveis. Era culto, político e sempre atento aos acontecimentos que geravam oportunidades. Foi juiz de paz, vereador, proprietário de um cinema em Tibiriçá e articulista de jornal. Foi ele quem iniciou nossa família no Espiritismo. Na casa dele, onde se faziam reuniões mediúnicas, tinha uma estante com livros de Allan Kardec e muitas outras publicações espíritas, distribuídas na região pelo ativista João Pitta e também por João Machado, de Santo Anastácio.

 

 


Deim. Giz de cêra. Parque Figueiral. Vila Tiribiçá.

 


XX

 GONZAGA

 

Quando tranquei pela última vez a porta da casa da rua Rio de Janeiro para ir ao trabalho ou para a faculdade, não me lembro, senti uma profunda solidão e tristeza. Tínhamos morado ali durante dez anos. Não lembro também se levei a chave ou deixei com algum vizinho. Os momentos dolorosos, quando humilhantes, são muito difíceis de lembrar. Já estava com um apartamento alugado em Santos, na pequena rua Pereira Barreto. Nessa época ainda não existia o Shopping Praia Mar. Era um apartamento de um dormitório, no décimo andar, cuja vista da sala era o entorno do canal 2 na direção dos morros. Nessa janela, mastigando um quibe e tomando um refrigerante, senti pela primeira vez estava só e precisava aprender a me virar sozinho.

 Na rua Marechal Deodoro tinha uma drogaria que já era muito moderna para os padrões brasileiros: uma loja de conveniência e com um restaurante. As pessoas achavam aquilo tudo muito estranho, inclusive eu, talvez porque era tudo meio escondido, sem janelas para a rua. Fui uma ou duas vezes almoçar lá e fiz amizade com o único cozinheiro da farmácia. A solidão dele e o nossos papos produziam grandes e saborosos filés que não estavam no cardápio. Algum tempo depois a  conveniência fechou e voltou ao ramo dos remédios.

Mas foi também um período de alegrias e descobertas. Estudava à três quadras, na antiga sede da Unisantos, na rua Euclides da Cunha. Era o segundo ano do curso. Uma turma maravilhosa, muitos jovens misturados com  adultos, alguns já idosos, buscando conhecimento e alguma realização pessoal. A presença dos adultos dava um tom diferente no tratamento que recebíamos dos professores e da direção da faculdade. Fiz amigos que até revejo com alegria e ótimas lembranças. Alguns já faleceram, pois era bem mais velhos do que nós. Curso que dos colegas mais jovens e mais alegres faleceu no apogeu da sua carreira. Chamava-se Nero, o imperador do riso e das piadas. Era sobrinho do prefeito da cidade.  Foi muito bom enquanto durou. Na passagem para o terceiro ano tive que abandonar a turma.

Tudo era novidade, numa época das primeiras transformações científicas e tecnológicas. Ainda não havia  computadores no mercado, nem CDs. Os discos de vinil ainda iriam durar muitos anos.  O trabalho na fábrica de Cubatão e muito cansativo, todo braçal, chegava em casa esgotado e morto de sono. Mesmo assim, nas horas de folga, curtia tudo que havia de bom e ao meu alcance no Gonzaga: os cinemas, as lojas, os eventos na praia, as lanchonetes. Tudo sozinho. Parecia que os amigos antigos haviam sumido e ainda não sabia lidar com os novos. Na verdade aqueles amigos também estavam passando por crises e mudanças e deviam também estar sofrendo de solidão. Essa vida meio deslocada e solitária foi em poucos meses me deixando perturbado. Percebi que uma nova crise estava surgindo. A fábrica começou a me cobrar um desenvolvimento que não era da minha natureza e do meu projeto de vida. O que um universitário – na época um status raro e difícil de alcançar- esperava daquele universo industrial, completamente diferente da área que havia escolhido para estudar e trabalhar? A pressão exigia um posicionamento urgente, com a definição de um cargo fixo na empresa e que era muito disputado pelos iniciantes. Aquilo não me agradava. Meus colegas estava ficando noivos, casando,  constituindo família e formando lares. Me tratavam bem, porém me  olhavam com um jeito estranho, misto de admiração e desconfiança. A repetição mecânica do serviço me incomodava e me fazia cometer erros básicos. Pensei, repensei. E decidi jogar a toalha e partir para o meu destino original: faculdade de História, não mais em Santos, mas em São Paulo.

Fiz as últimas provas e subi a Serra, não sem antes passar por uma situação muito desagradável, porém engraçada. Ao terminar a última prova na faculdade fui para a rodoviária e lá tive uma ingrata surpresa. Estava sem dinheiro suficiente para a passagem. Já eram quase dez horas da noite e não tinha como pedir ajuda a nenhum conhecido. Entrei numa banca de jornais e souvenirs e pedi ajuda para um cliente que olhava as revistas. O dono da banca, pensando o que para ele era óbvio, saiu aos gritos comigo me expulsando do local. O cliente ficou tão espantado que sugeriu que saíssemos juntos. Me deu o dinheiro que precisava e me desejou boa sorte. Ufa!  Antes que ônibus chegasse na Serra fui tomado por outra surpresa: como iria chegar na casa minha mãe, já que o dinheiro que tinha recebido só era suficiente para o ônibus?  Peguei a carteira no bolso na vã tentativa de achar algum a mais que poderia não ter visto naquela confusão toda. Nada. Mas tinha um bilhete múltiplo do Metrô.

Consegui terminar a viagem, mas ainda apreensivo com a última etapa.  Desembarquei no terminal Jabaquara e segui até o terminal Sé ou Bandeira (não lembro se já existia), mas lembro ter subido a Ladeira da Memória até a rua Xavier Toledo, onde ficava o ponto final do ônibus municipal Boa Vista, que já conhecia de outras vezes que visitei minha mãe. Parei na calçada, olhei o relógio e vi que já se aproximava da meia noite. O movimento na rua foi diminuindo rapidamente, pois o Mappim já estava fechando as portas. Fiquei estático. Estava traumatizado. Já tinha até pensado na possibilidade de dormir ali, próximo de uma escada rolante. Uma sensação de agonia e medo. Dois motoristas conversavam alegremente em frente ao ônibus. Se despediram e um deles se dirigiu ao ônibus no qual eu precisa entrar. Era o último daquele turno. Minha barriga esfriou de vez. Foi então que tive a intuição de mostrar a ele o bilhete do metrô e explicar o que tinha acontecido. Ele nem olhou o bilhete e disse: “Sobe aí”! 

 

 

Deim. Aquarela. Navio-motor Tibiriçá navegando  no rio Paraná.

 

 

 

 

 

 

XXI

CASA DE MAÇOM

 

Como é a experiência de morar na casa de pessoas estranhas? Pessoas amigáveis, mas estranhas?  Minha mãe passou por isso.

Aos 12 anos mudou-se de Tibiriçá e foi estudar em Santo Anastácio, uma cidade fundada e colonizada por espanhóis no oeste paulista. Piada velha, porém ainda válida para quem não conhece o lugar. Quando alguém  da região diz que é espanhol ou conhece algum espanhol, logo é questionado: “ Mas é espanhol da Espanha ou de Santo Anastácio”?  Uma cidade católica, conservadora  e também componentes  anarquistas, do tipo “Hay gobierno? Soy contra!  Também não acreditam bruxas, mas tem muitos que afirma que elas existe sim. Lá também tinha espíritas e maçons. Foi na casa de um deles que a minha mãe foi morar. Seu João  era daqueles espíritas antigos, cultos e que via a doutrina como uma conspiração dos céus para mudar o mundo e as pessoas. Era grão mestre da maçonaria. Não se sabe se Allan Kardec era maçon , mas recebia  cartas de maçons de vários lugares do mundo, inclusive do Brasil. Isso está registrado na Revue Spirit, publicada no século XIX.   Minha Madrinha Manoela dizia: “Daqui até Baurú não tem ninguém maçom com  grau igual ao dele”.  Seu João também gostava de política, para humanizar um pouco sua difícil vida de celebridade espiritual e esotérica. A esposa  aceitava tudo de bom grado e com respeito, menos a política. Quando chegava a época da eleições ela já ficava preocupada e nervosa. Minha mãe descobriu isso quando alguém passou em frente da casa deles e gritou  com toda força: “ João de merda”!!!  Era uma tentativa da oposição em desmoralizá-lo na vizinhança. Estratégia baixa e inútil , pois todo mundo o  conhecia  e muitos o admiravam e entendiam que era somente política.

Por que a mudança para Santo Anastácio?

Minha mãe tinha mediunidade desde pequenina. Via Espíritos, geralmente de s velhos barbudos sorrindo e dizendo as coias que ela deveria saber e fazer. Conversava com eles e presenciava fenômenos físicos como luzes fortes e vidraças estilhaçadas. Dona Manoela, com que morava, era católica fervorosa, de irmandade mariana; e seu marido, Guilherme Borges, era muito medroso com essas coisas, evidentemente porque também era médium. Dois idosos que perderam uma filha jovem criando uma criança com poderes paranormais. Isso não seria um problema grave se ela fosse ajudada e instruída. Foi então  que eles se lembraram do amigo João, que era representante de revistas e jornais, e também divulgador de obras e publicações kardecistas. Ele era também amigo do meu futuro avô paterno, Carlos José, que também era espírita. Daí surgiu a ideia de levá-la para estudar em Santo Anastácio, numa escola pública, e receber as primeiras noções doutrinárias de espiritismo no centro espírita frequentado pela família do Sr. João. A casa dele era repleta de livros e símbolos da iniciação maçônica. Apesar e ainda ser uma criança, seu João chamava minha mãe de “Dona”.  Após as refeições ele olhava para a pequena hóspede e dizia, olhando para o monte de louças e talheres sobre a mesa: “É, Dona, é nessas horas que os filhos estranham os pais”! 

Minha mãe conta que este foi um período muito bom, de boas lições e excelentes amizades.  Conviver em lugares estranhos e com pessoas que não são da nossa esfera familiar, diz ela, nos obriga a mudar de pensamentos e sentimentos sobre as coisas,  e principalmente de hábitos. Não aprendeu muito da doutrina naquela época, por falta de maturidade, mas saiu daquela casa sabendo que sem estudos e disciplina nada funciona. Quando chegasse a hora da verdadeira iniciação ela saberia identificar a oportunidade. As iniciações  dos núcleos espirituais e esotéricos geralmente são muito parecidas e primam pelos mesmos princípios: o iniciado precisa vencer seus medos e superar sua limitações por meio de provas morais, provadas pelos mestres ou pela própria vida, por meio dos testemunhos. A maturação e depuração do discípulo acontece por meio de regras de conduta: silencio, sigilo, olhar, alimentação, obediência e serviço ao próximo. Tudo isso promove gradualmente a sua iniciação, na qual ele se transforma em fases ou graus que revelam sua purificação e desprendimento do mundo dos sentidos: a Lama (desejos), a Água (esforço para não se sujar) e finalmente a Luz (libertação).   Ela recordou que, lendo certa vez uma reportagem sobre uma novidade doutrinária na Federação Espírita do Estado de São Paulo chamou sua atenção a fotografia de um velhinho falando com gestos dramáticos a aplicação de passes magnéticos ensinados em aulas especiais para iniciados. Era o Coronel Edgard Armond explicando o funcionamento da Escola de Aprendizes do Evangelho. Armond era mestre-maçom e diretor da Federação.  Essa ainda não era a oportunidade esperada. Ela só iria acontecer muitos anos mais tarde, em São Vicente, quando uma vizinha a convidou para assistir uma aula inaugural da Escola de Aprendizes do Evangelho, dada por Jacques Conchon, falando do tema “Os Exilados de Capela”.  Jacques  também foi fundador  e um dos diretores do CVV-Centro de Valorização da Vida, que naquele ano de 1977  iniciava sua expansão pelo Brasil. Era o início da nossa iniciação espiritual e também de engajamento na luta pela prevenção do suicídio.  

 



Deim. Giz de cêra. Estação de trem. Presidente Epitácio. 

 

 

  

XXII

CIGARRO DE VACA

 

Os mendigos e andarilhos são pessoas muito interessantes, cheios de tiradas engraçadas e declarações extravagantes. Não têm eira nem beira e não se importam com isso.  Alguns são filósofos natos e os restantes são apenas pessoas comuns que cometeram suicídio, como todos os outros. Suicidas vivos, que romperam os laços com a vida pessoal, familiar e social.  Disseram adeus para suas vidas e não querem mais saber de nada, de ninguém e principalmente de si mesmos. Andam sem rumo e sem a mínima noção de tempo e espaço. Às vezes para. Olham para o céu, para os lados e seguem em frente num caminho que nunca termina. Não gostam de olhar muito tempo para os rostos e olhos alheios e logo desviam os olhos, porque têm medo de se verem no outro. Certa vez, em frente na casa do meu sogro, em São Paulo, vi rapaz andarilho, trajando restos de um terno e descalço. Barba e cabelos enormes. Sorria, cumprimentava, mas não gostava de conversar.  Vendo minha admiração, meu sogro comentou esse rapaz era gerente banco, trabalha numa agência ali na Lapa. De uma hora para outra ficou assim. Fez tratamento, tomou remédios, mas não adiantou nada. Seus pais moram aqui perto, mas vive na rua. Some por uns tempos e depois volta, mas não entra dentro de casa. Sempre dorme na rua. Vendo esta cena, lembrei de quando morávamos em Epitácio, na época que ainda existiam os trens de passageiros.

Às 21 horas toca o apito do último trem da Sorocabana. Era o BG, bagageiro, com vagões de última classe, trazendo para estações os indesejáveis da Capital e todas as estações que antecediam a de Presidente Epitácio. A Estação do Porto, como era conhecida, era última daquele ramal. Fim de linha. Fim de mundo. Eram os passageiros que trafegavam com passes da assistência social. Gente de todos os tipos, famílias de retirantes, trabalhadores pobres, alguns caixeiros-viajantes que tinham que fazer suas economias; e dezenas de indigentes que eram empurrados de cidade em cidade, esperando-se que desaparecessem e nunca mais voltassem. Desembarcavam na estação em situação de despejo do trem. O chefe da estação nessa altura da noite já estava dormindo e nem tomava conhecimento do que acontecia, a não ser numa excepcionalidade. Só o bar da estação permanecia aberto, na esperança de vender algumas doses de pinga para uma clientela já conhecida. Esse grupo descia do tempo e fica parado por algum, desorientados, aguardando algum tipo de ordem ou informação. Aos poucos eles iam se dispersando, procurando algum tipo de acomodação, geralmente os bancos do jardim ou então seguia pelas ruas na direção do Albergue do Centro Social São Pedro, que ficava na Estrada Boiadeira Sul. Ali poderiam tomar bando, alimentar-se e talvez ser encaminhados para as fazendas onde tinham colheitas de algodão ou serviço de capinagem de roça e que aceitavam alguns colonos. Não eram todos. Parte deles nem ia  para o Albergue porque já sabia que não tinham capacidade para o trabalho. Preferiam ficar esmolando pelas ruas. A maioria queria ficar e outros preferiam seguir na direção da ponte e conseguir carona para o Mato Grosso. Eram atraídos pela selva, como se ali pudessem consumar suas mortes nessa vida perdida e suicída.

Nesses horários de chegada de trem as famílias ainda estavam acordadas, conversando nas varandas ou nos bancos de madeira em frente das casas, enquanto as crianças aproveitavam o fim da noite para brincar de pique-esconde ou um jogo de bola. Era nesse momento que surgiam pelas ruas essas pequenas hordas de pedintes, suplicando comida e atenção. Uns traziam malas e roupas amarrotadas, tentado manter um pouco de dignidade. Outros eram maltrapilhos que já haviam desistido de tudo, carregando sacos com coisas que ganhavam ou achavam. Outros só carregavam o corpo.  Os primeiros gostavam de conversar, mostrar suas habilidades e suas ideias, lembranças dos últimos botecos em que foram proibidos de entrar por absoluta falta de dinheiro e de argumentos.  Esses paravam em frente das casas, batiam palmas, faziam suas saudações e pediam um prato de comida ou o tradicional pão velho. Lembrei da mãe de um amigo nosso, Dona Remédios, que sempre atendia essa pessoas com respeito e carinho. Preparava uma farta refeição e aguardava para recolher de volta o prato e o talher, que guardava só esse fim. E ouvia pacientemente as histórias que eles contavam.   Nós à vezes brincávamos com os mais alegres, debochando dos seus trejeitos e ideias. “The house, the house”, dizia um jovem  alto, magro e barbudo, demonstrando habilidade de  falar inglês. E sabia mesmo muitas palavras e expressões, que pronunciava com um tom  aristocrático, do qual ríamos inconsequentes. Uns tinham o pavio curto e transbordavam mal humor. Oferecíamos cigarros de palha com fumo amarelinho, que aprendemos a fazer com a Tia Teodora e que fumávamos escondido. Eles aceitavam a novidade, tragavam  e aguardávamos as reações de agradecimento e também de crítica: “Cigarro de vaca esse heim”, reclamou um deles bem nervoso. E quando rimos, saiu xingando e cuspindo. E um dos meus irmãos, ofendido,  discutiu com ele: “Além de ganhar ainda que exigir”?  A Madrinha Manoela  não gostava dessas brincadeiras, ficava sentida, mesmo rindo de algumas das reações mais estranhas. Ela aproveitava essas situações para nos ensinar coisas importantes da vida. “ A gente não poder tratar essas pessoas desse jeito, porque a gente nunca sabe quem eles são. Pode ser um ladrão, um assassino, uma pessoa infeliz que não deu certo na vida, coitados. E pode até ser Jesus. É, às vezes Jesus se disfarça de mendigo,  para ver como a gente se comporta”.  Era a forma que ela encontrava para desconstruir aquela cenas deploráveis nas quais pessoas chegam ao fundo do poço e ela não aceitava que aquela pudesse existir. Quando ela percebia que estávamos enfraquecendo os argumentos dela com os nossos olhares de deboche, ela logo reagia com um história dramática sobre Jesus causando alguma surpresa muito grave ou então uma onça que atacava as famílias e roubava as crianças. “Certa vez, disse, ela, “Jesus chegou disfarçado de mendigo numa casa e pediu abrigo, chovia e fazia frio. A dona da casa, desconfiada, consentiu mas colocou-o num chiqueiro no fundo do quintal, forrado de palhas de milho. Ele aceitou a oferta e ali dormiu profundamente. Acordou tão cedo, que não poder nem agradecer. Só deixou um sinal de cruz na porta do chiqueiro. Muito anos depois a mulher ficou doente. Tinha um coroço no seio e soube que iria morrer. Orou para que Jesus a salvasse e que lhe desse um sinal de cura. Naquela noite ela teve um sonho idêntico a visita do mendigo. Na despedida do outro dia, ele olhou para um dos seios dela e viu que estava inchado e vermelho. E disse: “Vá até o chiqueiro e faça uma lama com a terra que está sob as palhas onde dormi. Esfregue a lama e seu seio vai ser curado para sempre”.

 

 Deim. Aquarela. Parque Figueiral. Porto Tiribiçá.

 

 

 XXIII

TAÇAS DE SANGUE

 

A casa da rua Curitiba  era todas de madeira, mas tinha de aspecto aristocrático. Foi feita com a intenção parecer a casa de alguém importante, um pouco acima do terreno, assentado sobre uma base de tijolos. Se tivesse feito com as tábua horizontais teria fica bonita e mais imponente, pois tinha uma pequena varanda com muretas de tijolos, onde sempre tinhas duas ou três cadeiras de fio coloridos de nylon. Varanda para receber visitas nas estações quentes e ver o movimento da rua. A madrinha Manoela recebia ali suas amigas e afilhados para longas conversas.  Também dali nos repreendia quando havia excessos nas brincadeiras de rua e provocações aos andarilhos e mendigos que vinham da estação em direção ao Albergue Noturno.    Mas o construtor preferiu a posição vertical das tábuas, para acentuar a impressão de que ela tinha a altura dos palacetes. Era bem construída, mas não conseguiu se impor como moradia aristocrática como desejava o primeiro morador. Foi uma casa de muitos donos e muitos moradores e agora  pertencia a um comerciante espanhol, proprietário de dezenas de casas de aluguel espalhadas pela cidade e que lhe rendiam um bom dinheiro. Nos fundos tinha um alpendre bem espaçoso e aberto, protegido por treliças de ripas do piso até o teto, que também tinham a função de garantir a ventilação nos meses mais quentes. O alpendre  tinha tanque e varais de arame, que eram mais baratos e resistentes, separa a cozinha de dois quartos de dispensa enormes, tão grande que somente um deles era usado por nós, ficando o outro sempre vazio. Era nesse que eu sempre arrumava um jeito de transformá-lo em um banco, uma oficina de consertos de roupa e sapatos e escritórios diversos. Lembro que tinha um quintal com árvore, mas gostava muito. A cerca de um dos vizinhos era de tijolos, mas a outra era de ripas pontiagudas, feitas de sobras de madeira das serrarias, deixando expostos os dois quintais.

Foi nesse quintal ao lado que aconteceu uma coisa muito estranha. Varrendo sob as árvores e juntando as folhas caídas das árvores a vizinha encontrou junto a cerca alguns objetos que lhe causaram espanto e medo, parecendo peças de um trabalho de feitiço. Eram, segundo ela recipientes que lembravam taças de rituais de magia, contendo um líquido vermelho que parecida sangue de porco ou galinha. Não tinha velas, porém sob as folhas que se acumularam sobre a terra havia colheres de chá, ainda brilhantes e que não teve coragem de tocar. Afastou-se assustada concluindo que aquilo tudo estava ali há muito tempo, pois estava impregnado de areia barrenta. Não contou para o marido, para deixá-lo preocupado.

Passado alguns dias, ainda intrigada, ele chamou minha mãe, quando esta voltava, no final da tarde, da nossa loja de cosméticos. Pensou ante disso: ela é espírita e poderá explicar melhor o que isso e ajudar-me a procurar ajuda, para não ofender a quem quer fosse e que tinha feito aquilo, sabe por qual motivo. Também não queria forçar o marido a ter que mudar para outra casa, pois moravam ali há poucos meses. A casa tinha ficado vazia durante muito tempo e então aproveitaram para fazer aquilo que estava lá, próximo da nossa cerca. Por isso, também ficou na obrigação de alertar minha mãe. Depois de relar tudo para minha mãe convidou-a para ver o que passava. Aproximaram-se da cerca e percebeu que a expressão facial da mãe mudou rapidamente. Parecia estar transtornada, chegando a dar umas gargalhadas, o que deixou a vizinha ainda mais intrigada e com medo. Depois de alguns segundos de concentração, minha mãe comentou decepcionada:

- Então foi isso. Agora entendi. Não acredito que isso realmente aconteceu.

E veio a tão esperada explicação.

As taças eram realmente taças de plástico verde, com fundo branco. Tinham desaparecido misteriosamente da minha casa há algum tempo. O líquido vermelho não era sangue e sim restos de gelatina de cereja, que derreteu com a chuva que havia caído há dois dias e encheram as taças com água vermelha. As colheres também tinham desaparecido, sem nenhuma explicação. O mistério das taças de sangue estava resolvido, para alívio e alegria da vizinha. O material do feitiço foi recolhido e reconduzido para o seu lugar de origem, para servir de prova para uma nova investigação. Era preciso descobrir quem foi o autor do delito. Já adianto que na fui eu. Não teria coragem de fazer essa patifaria. Minha vó Maria diria que era uma grande cachorrada. Na verdade minha mãe já sabia de quem se tratava, pois o leniente havia cometido o mesmo delito na loja durante o período em minha mãe viera em casa para almoçar. Pediu desculpas, despediu-se da vizinha e entrou em casa disposta a desmascarar a farsa. Todos reunidos na sala, menos meu pai, que nunca se metia nos negócios educativos da minha mãe. A curiosidade da sobre o assunto da reunião era intensa, pois quando acontecia algo daquele naipe certamente iria rola uma surra espetacular. Em pé e de chinelo na mão ela dirigiu olhar para o meu irmão mais velho e perguntou com voz firme: “Cadê o dinheiro do caixa que eu deixei na loja hoje manhã. Ele não respondeu, mas tremeu nas bases, arregalando os olhos. “Vou repetir só mais uma vez: cadê o dinheiro”? “Também quero saber onde estão as minhas taças e colheres de gelatina que sumiram aqui de casa”? 

Dessa vez ele já estava deitado no chão chorando  e implorando para não apanhar: “Eu confesso, eu confesso”.  “O dinheiro eu paguei coxinha e refrigerante pra todo mundo no bar do Bernardino”.

 Depois de duas chineladas bem fortes, ele afrouxou e veio a outra confissão:

“Eu comi todas as gelatinas e joguei no quintal da casa aqui do lado”. 

O assunto foi encerrado com mais algumas chineladas marcantes e uma ordem irreversível para ir para o banheiro e ficar lá até a hora de dormir, com a luz apagada.

Todos sabiam que ele morria de medo de defunto e escuridão. Tava armado o complemento do castigo. Não tive dó. Afinal, ele fez a mesma coisa comigo depois que, numa noite,  eu fiquei perturbando todo mundo  fingindo que estava passando e tendo falsos soluços. Disseram pra eu parar e  não parei. Fui para o banheiro, levado cruelmente por ele. Fiquei lá um tempão. Não tinha medo do escuro e naquele dia não lembrei de nenhum defunto. 

  


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deim. Aquarela. Casas daVila Tiribiçá.

 

 

 

 

 XXIV

VELÓRIOS

 

O pior de todos os medos e o medo dos defuntos. Esse é um medo que dói, dizia minha mãe. Ficar sabendo de uma pessoa que morreu porque já estava doente não dá medo, mas de peoas que morrem de forma súbita ou trágica é diferente. Causa uma impressão forte em nosso espírito e algumas pessoas ficam perturbadas, à vezes por dias e meses. Dizem que essas pessoas são médiuns e essa impressão acentua a sensibilidade natural deles, passando as captar mentalmente as impressões dos outros também a agonia dos que morreram.

Na infância eu não resitia de curiosidade ia aos velórios observar tudo o que estava acontecendo, em detalhes. Quando começava a escurecer, ao entrar no banheiro para tomar banho, já ia ficando transtornado, pois sabia que a noite em claro ia ser longa. Não conseguia pregar os olhos e fica revendo as cenas do velório e a imagem do morto com os olhos fechado dentro do caixão. Minha mãe percebia, ficava brava , mas logo vinha me socorrer.

Meu irmão mais velho era pior do que eu, pois ele ficava impressionado com todo mundo que morria, gente da cidade e gente famosa que aprecia nos jornais. “Mais que diacho, o homem tá longe e nem sabe que você existe”, dizia minha vó tentando consolar ele, mas não tinha jeito. O chacra gástrico começava a girar tão fortemente, aumentando a sensação de frio na barriga e todo fica em estado de desequilíbrio.

Tinha umas simpatias ousadas para resolver esse problema, como levar o medroso ao velório e  fazer ela tocar no defunto e dizer umas palavras,etc. Mas no caso dele parece que isso só piorou. Eu nunca fiz isso. Eu heim! 

Hoje perdi o medo, sei me controlar, mas não vou em velório. Quando vou, não entro na Câmara Ardente (olha o nome do lugar). Se tiver que entrar, entro e não olho na cara do sujeito. Nessas horas sempre tem uns cretinos que chegam perto da gente e falam: “Você viu a cara dele? Tá escura”. Puta merda.

Mas os enterros são interessantes, menos agressivos, psicologicamente falando. O silêncio dos passos e das vozes das pessoas andando pelas alamedas da necrópole, as sepulturas curiosas e tal. Evito ir também.

Os antigos ensinam que, depois de um velório, o melhor é passar em algum lugar antes de volta pra casa; ir numa praça, numa loja, para apagar as impressões negativas das cenas fúnebres. O bom mesmo é não ir.

Na minha casa só teve um velório, o da minha Madrinha Manoela. Foi tranquilo, na sala.  O problema é que fiquei um seis meses sem passar sozinho por ali, ou passava correndo, acendendo as luzes.

Realmente não posso ir nesses lugares. Já tive várias vezes a impressão de sentir um cheiro forte de rosas e também de carniça. Têm pessoas que morrem e não sabem que morreram e ficam pedindo ajuda aos medrosos, pois sabem que nós são os únicos que levam eles à sério.

    

    Deim.Giz de cêra. Guindaste no Porto Epitácio. 

 

   

XXV

JANELA PAULISTANA

 

Da janela do meu quarto eu tinha uma visão panorâmica da zona sul de São Paulo, começando pelo Butantã, Pinheiros, jardins América e Europa, parte do Morumbi e finalmente a Avenida Paulista, no alto de Cerqueira César, com suas torres de concretos e antenas transmissoras de rádio e tevê. 

Era o terceiro piso de um sobrado na rua Embaixador Cavalcante de Lacerda. Em frente ao reservatório de água da Sabesp, na Vila Gomes. Eram duas visões completamente diferentes: a do dia, mais nítida e cheia de detalhes, como a vegetação e as milhares de edificações espalhadas nos bairros; e a noturna, difusa, onde só se enxergava sombras, silhuetas e infinitos brilhos e tons de luzes. 

São Paulo não tem céu nem estrelas, escondido pela neblina e pelo reflexo das luzes amarelas da iluminação púbica. 

A cidade tem um barulho que não se ouve, mas que é a soma de todos os ruídos que existem na cidade. Esse barulho é subliminar, oculto, e permanece gravado na memória auditiva de todos. É ele que faz com que o paulistano, de forma inconsciente, sofra uma saturação e esgotamento permanente. Daí essa necessidade constante de sumir (escapar), de consumir, se divertir e principalmente comer, com forma de alívio.

Ficava olhando aquela paisagem gigantesca e não me conformava que tudo aquilo um dia foi um planalto vazio, com pouquíssimas casas, rodeado de riachos e florestas. Tudo desapareceu sob o asfalto e construções.

Na minha época paulistana a cidade ainda desconhecia os computadores, a internet e as redes sociais. Não havia celulares. O telefone era caro e caro. E mesmo assim as pessoas se comunicavam. Para saber das coisas gerais, as pessoas contavam com os jornais, tv e rádio. 

Mas para saber mesmo das coisas tínhamos que ir até os lugares onde as coisas estavam acontecendo. Todos tínhamos um telefone de recado e os recados demoravam par serem dados. Até mesmo quando inventaram o BIP, sinal de que deveríamos ligar para alguém dos orelhões ou cabines telefônicas. Por isso acreditávamos que era necessário andar em busca de informações. Tudo girava em torno de informações. Ainda não havíamos ingressado na chamada Era da Informação nem do Conhecimento, mas havia uma forte convicção de que não era possível viver sem isso. 

As bancas de jornais eram repletas de produtos informativos: revistas, fascículos, livros e fitas K-7. Nas bancas da Paulista tinham jornais do Brasil inteiro e também das principais capitais do Mundo. 

As locadoras de vídeo ocupavam os melhores pontos comerciais. As salas de cinema ainda eram altamente frequentadas, não como nas décadas anteriores, mas ainda fazia parte dos nossos hábitos. Antes do advento do “laser” havia muitas lojas de discos de vinil. 

As livrarias e sebos eram o destaque e também estavam espalhadas na cidade, principalmente nas faculdades e nos arredores.  

Naquele tempo São Paulo era visualmente suja e poluída. Não havia a lei da cidade limpa e realmente as edificações viviam escondida  por trás das placas e out-doors de publicidade. 

Quando voltava para casa, geralmente depois das 21 ou 22 horas, tudo que queríamos era um banho,  uma roupa limpa, uma refeição, um pouco de televisão e uma cama. Não conseguia ler nada antes de deitar.  Dispensava a TV.  O que tinha mais preciso no meu quarto era um aparelho de som – receiver - com duas pequenas caixas de som. Não era para ouvir discos. Era só para ouvir rádio. Rádio Eldorado. Rádio USP. Rádio Cultura. Vivíamos a era das FMs. Para dormir, preferia a Scala FM, emissora do grupo Diário Grande ABC, que tinha um prefixo espetacularmente aristocrático e relaxante. Impossível dormir em São Paulo sem ouvir a voz de Danielle Licare cantando os famosos monossílabos (à scat singing ) do concerto Pour Une Voix, de Saint-Preux. Como levantava às 5, não tinha tempo para os programas jornalísticos da manhã. 

Assim era São Paulo nos anos 80-90, a qual percorria portando sempre, por segurança climática, um pequeno guarda-chuva e um colete de lã.  De vez em quando subo a serra para alguma reunião ou evento e aproveito para matar as saudades. É um conforto saber que São Paulo está bem perto. Por isso voltei e não mudo mais do litoral.        



 


  


    





EPÍLOGO

 

Durante mais de 50 anos uma imagem este presente em minha mente. Um cenário de uma casa verde, simples, em formato de um chalé, protegida por árvores e contornada por uma vegetação, cujo reflexo da luz dava a ela e ao entorno, uma coloração verdejante que extrapolava a edificação e se espalhava pelo  jardim frontal e pelo quintal no qual ele ficava bem ao centro. Dentro tudo era bem construído e tinha uma atmosfera tranquila, própria para o repouso e também para  o trabalho doméstico. Uma casa que sempre existiu, mas que nunca morei. De todas  que contei a que mais se aproxima dela foi o chalé da esquina e que também nunca morei. Talvez essa impossibilidade de habitá-lo tenha sido transferido para o meu universo íntimo e mantido como um vácuo a ser preenchido e uma busca de  realização. Sempre tenho sonhos  no quais vou a lugares onde nunca estive onde encontro pessoas estranhas reunidas em casas de muitas portas e janelas. Ali conversamos com essas pessoas estranhas ou simplesmente observamos as conversas, geralmente coisas pendentes e necessitam de solução. Elas ficam em cidades que ficam em outros planos, num tempo diferente do qual vivemos, como se fosse no passado. Isso me inspirou  a fazer um tour digital pelo Google Maps, no qual podemos passear por lugares distante, registrados pela fotografia feita pelo carros que circulam pelas ruas e depois enviam as imagens para o satélite para seja, disponibilizadas na internet. Obviamente fui procurar os lugares onde morei, para tentar preencher o vácuo deixado pelo chalé que nunca morei. Fui percorrendo e coletando imagens dessas ruas, estradas e edificações na Vila Tibiriçá, onde nasci;  em Epitácio , onde passei a segunda infância , indo inclusive em lugares que  eram de acesso proibido para a minha idade naquela época. Fui  até chácaras da Estrada de Tibiriçá, nas fazendas e sítios da Estrada de Caiuá e também nas vicinais  que levam ao bairro do Campinal e Agrovilas, bem como a que vai margeando o rio Paraná até  Teodoro Sampaio.  Esses registros foram transformados em postagens no Epitácio na Memória, página no Facebook, provocando nos seguidores o mesmo impacto causados pelas lembranças que tive durante os registros. Já havia feito isso antes com  os lugares onde tinha vivido em São Paulo, Campo Grande e principalmente em São Vicente, onde coletava imagens de casas históricas e que, muitas delas já haviam sido demolidas, mas que ainda estavam gravadas no Google Maps.   O print  dessas imagens permitiu preservar  e criar um acervo de casas e lugares que fisicamente não existem mais, mas que inda estão guardas nas páginas das redes sociais sabe-se lá até quando. 
















  

  “Não se turbe o vosso coração. Há muitas moradas na casa de meu Pai”. (S. JOÃO, 14:1 a 3.)   ...